The Taste Of Orange

I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best. -Oscar Wilde

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Porque é que eu gosto dos Arcade Fire

Arcade Fire é uma banda relativamente recente para mim. Só há coisa de uns meses é que comecei a ouvir regularmente, apesar de os ter visto no SBSR '11.

Uma das coisas que salta à vista, nos dois discos que eu já ouvi, Neon Bible e Suburbs, é uma pessoalidade bastante profunda. Sente-se que há algo que é muito de quem fez a música. Há vários sentimentos diferentes, porém, todos eles ligados e lógicos dentro do conceito das músicas.

Se em músicas como Ocean Of Noise e My Body Is A Cage é possível ouvir um amor melancólico, em músicas como Intervention ou Month Of May é possível ouvir um grito de revolta bastante forte e profundo.

O que eu gosto em Arcade Fire são as letras. Identifico-me bastante com algumas e penso, muitas vezes, se quem as escreveu estará a pensar o mesmo que eu.

É, nomeadamente no último disco, abordada uma temática muito querida aqui do nosso blogue, que é a letargia de pensamento.

"So young, so young,
so much pain for something so young
I know it's heavy I know it ain't light,
But how you gonna lift it with your arms folding tight?"

Gosto bastante deste verso, pois é precisamente aquilo que eu penso frequentemente das pessoas. Em Portugal, as pessoas queixam-se e esperneiam e no entanto quando chegam a casa limitam-se a ir ao Facebook ou a ligar a tv e tudo passa.

Ocorre-me por exemplo o Acordo Ortográfico, como um caso gritante em que toda a gente parece estar contra, mas bem, maior parte das pessoas parece estar completamente resignada, até fazendo um esforço por o cumprir. Quantos jornais apresentaram colunas de veemente desacordo com esse embuste? E quantos é que não seguem já o dito acordo?

De qualquer das maneiras, voltando aos Arcade Fire que se viram no meio de fogo cruzado contra o Acordo Ortográfico, coitados, eu identifico-me bastante com esta crítica.

Acho paradoxal é que a maior parte da juventude oiça e pense que aquilo é espectacular. Se calhar se eu começasse a insultar as pessoas que por aqui passam a ler, pelo fim do ano, seria o melhor blogue português. Mas bem, parafraseando o John Cleese "The problem with some people is that they are so stupid, that they don't know how stupid they are". É a única explicação plausível que encontro.

Os Arcade Fire não têm pudor em criticar aqueles que são o seu público alvo. Pois o público alvo encaixa-se perfeitamente nesta descrição:

"All the kids have always known,
That the emperor has no clothes,
But they bow down to him anyway,
It's better than being alone"

Pois é, é mais difícil enveredar pelo caminho em que se diz não à mediocridade. Em que se diz não àqueles pequenos vícios que toda a gente comete em busca de um bocado mais de emancipação. Lembro-me bem que da primeira vez que me ofereceram um cigarro e eu recusei, fui gozado até casa por ser um betinho e ter medo. Na verdade e olhando para trás, quem tinha medo eram eles, todos a fumar às escondidas e a "travar" expelindo Ohs e Ahs  a cada acrobacia feita como se tivessem a ver um espectáculo de circo. Corajoso fui eu que disse que não, sozinho, a meia dúzia de adolescentes irreflectidos.

É mais fácil fumar umas ganzas não é? Fazer o que toda a gente faz e ser rebelde e fora da lei. É mais fixe e as miúdas ficam mais impressionadas. E toda a gente se junta para ver o cometer de uma ilegalidade, enquanto olham sobre o ombro para certificar que ninguém vê o enrolar da mortalha. Apesar disso, nessa altura ninguém me pressionou. Mas bem, senti-me diferente dos outros e isso nunca se reflectiu positivamente. Pois então eu era o certinho. Nunca me incomodou o rótulo, até porque, na prática, isso é bom. Mas bem, hoje em dia eu sinto-me um espírito livre com o futuro à frente e essas pessoas, maior parte delas, tem filhos (aos 20 e poucos anos diga-se), alguns deles mais do que um filho, casaram, trabalham e vão ao café à noite todos os dias socializar e ouvir as parvoíces que se dizem no café e enfim. Pensam em comprar um carro novo, porque o que têm (ai, ui) já tem dez anos.

É mais fácil agachar do que estar sozinho. É mais fácil dizer que gostamos de Radiohead, quando na verdade temos de ouvir e ouvir e ouvir até a música estar decorada, o que não quer dizer degustada (eu sei que nem todos os fans de Radiohead são assim, mas muitos são). É mais fácil gostar dos Artic Monkeys que são uma valente merda. È mais fácil gostar de tudo o que o Jack White grava sem olhar a mais nada senão o nome. Numa vertente mais pimba é mais fácil gostar do Michel Teló e da Lady Gaga. Sei lá, está mesmo à mão de semear. Ai de nós se vamos ao ginásio e não sabemos aquela versão do Teló em Drum & Bass (gargalhada interior) para fazer o step. Ou aquela música da Lady Gaga para fazer o Spinning à velocidade certa.

Em suma, é por isso que eu gosto dos Arcade Fire, porque eles não têm medo em criticar, até mesmo aqueles que gostam deles. Eu faço o mesmo, mas quando eu faço isso, maior parte das pessoas fica ofendida. Quando são os Arcade Fire é fixe e fecham os olhos ao facto de estarem a levar uma bofetada no orgulho.

Outra crítica feita à juventude é quando dizem:

"They seem wild, but they are so tame,
They're moving towards you with the colors all the same"

É verdade, toda a gente faz e acontece. E depois no momento... Tenho um colega de trabalho que acerca de uma formação gritou aos quatro ventos que não ia. Era como se lhe arrancassem um dente. E não dava satisfações à direcção e que nem à mulher dava satisfações. Quando eu, com muito sacrifício da minha parte, compareci à formação, lá estava esse meu colega, tipo cordeirinho. É fantástico, não é?

De qualquer das maneiras, eu gosto de Arcade Fire, porque sinto sinceridade. Sinto que eles exprimem o que sentem e não têm medo de serem censurados por isso. Acho até que eles preferiam não ter assim tanto sucesso. Mas isso já é uma especulação minha.

"I'm living in an age,
That screams my name at night,
But when I get to the doorway,
There's no one in sight"

É engraçado como são uma banda que, em termos sonoros, teria pouco para me agradar. Mas a verdade é que a conjugação de sentimento, com as letras e a intencionalidade faz deles uma daquelas bandas que me dá arrepios em certas músicas.

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Domingo, 27 de Maio de 2012

Um Cemitério Chamado Internet

Hoje em dia, a Internet é uma ferramenta, por assim dizer, que fervilha de informação. Estão coisas a acontecer em todo mundo e os updates, de diferentes tamanhos e importâncias, são algo constante. Nem podemos imaginar quanto.

Contudo, há um lado que, na minha opinião, é bastante obscuro acerca da Internet. Esse lado é aquele em que há um desaparecimento que nós nunca poderemos explicar.

Mais concretamente, blogues, páginas de Facebook, Hi5, MySpace etc etc. Todo o tipo de sites onde há uma pessoalidade associada. Onde é um indivíduo que actualiza a página, com mais ou menos frequência, com coisas de maior ou menor interesse.

Vemos por exemplo o Facebook que as pessoas actualizam obsessivamente a toda a hora e a todos os minutos. Onde coisas tão importantes como o seu casamento e coisas tão irrelevantes como uma ida ao ginásio, são dignas de relato. Devo dizer, que esta necessidade é a meus olhos absurda. Estarmos constantemente a afirmar ao mundo que fizemos isto ou aquilo, que fomos jantar com não sei quem, que somos amigo de não sei quantos, que frequentamos taberna X e gostamos de sitio Y. Toda esta informação é, a meu ver, exagerada e desnecessária. Até porque, hoje em dia, provoca-me cada vez mais confusão quando as pessoas se referem a outras como bisbilhoteiras e coscuvilheiras, porque afinal se disponibilizam tanta informação assim, de que é que estavam à espera? Isso já nem é bisbilhotice, mas sim conhecimento ocasional, porque se eu vejo algo é natural que depois me lembre disso.

Mas bem, de volta à vaca fria.

Sinto-me sempre bastante estranho quando vejo esse tipo de sites pessoais sem qualquer actualização há uma montanha de tempo. Há paginas sem actualizações há um, dois, três, sete, oito anos... É muito sinistro, porque quando eu visito uma dessas páginas estou, inconscientemente, a criar um laço com a pessoa que a actualiza/actualizava, para bem ou para o mal. O facto de uma página não ser actualizada há muito tempo leva a uma pergunta, que se calhar pouca gente faz, mas que eu faço.

O que é que aconteceu a esta pessoa?

Há páginas que apesar de não serem mais actualizadas, têm um último post a dizer que não vão escrever mais, ou que vão passar a escrever noutro sítio, e nessas não há esse sentimento. Mas há sites que tinham actualizações diárias que não são actualizados há anos o que leva a uma sensação estranha de desaparecimento. Pode ter acontecido imensas coisas a essas pessoas. Certamente algumas morreram, outras simplesmente deixaram de ter tempo para isso, outras abriram os olhos a uma nova realidade etc etc. As razões são inúmeras, mas o facto é que é estranho.

Não posso deixar de recordar quando há uns anos um utilizador de um fórum que eu frequentava morreu num acidente de automóvel. Eu falei ocasionalmente com esse utilizador e até simpatizava com ele, apesar de para mim, aquilo não ser nada mais do que uma relação de circunstância. Quando ele morreu lembro-me bem de ter ficado bastante assombrado pela notícia, apesar de nunca o ter visto. Isto já foi há uns anos e a página de perfil dele continua disponível nesse fórum, apesar de já terem passado alguns anos. E isso é muito estranho. Pois nessa página aparece qual foram os últimos comentários, feitos dias antes de falecer. Isso é extremamente estranho

Porém, dirão, com razão, que nem toda a gente que deixou de actualizar as suas páginas morreu.

É verdade e isso talvez tirasse algo ao sentido do meu post.

Mas também é verdade que se eu deixasse de actualizar este blogue, para além das entrevistas, este blogue iria ficar com o cemitério do meu "eu" de hoje em dia e dos últimos quatro anos. Da mesma maneira que algumas páginas de Hi5 são o cemitério de muitas pessoas, que hoje em dia, apesar de serem os mesmos corpos, não são as mesmas pessoas. Mudaram, para melhor ou pior, mas mudaram e esses Hi5 e Myspace não são nada mais do que uma campa daquela pessoa. Fica ali sepultada a nossa identidade de tempos idos. Porque escreveram lá as suas alegrias e tristezas. Conheceram boas e más pessoas. Reagiram às músicas que ouviram, aos livros que leram e aos filmes que viram. Disseram parvoíces e escreveram piadas etc. Eu quando vejo comentários meus em fóruns de há cinco e seis anos, até reviro os olhos. Aquele João não é este João. Se eu pudesse apagava esses comentários, porque hoje em dia em nada reflecte o que eu sinto ou penso. Reflecte o que o João da altura pensava e esse João já não existe. Existe outro, da mesma forma que o João que começou este blogue em 2008 já não é o mesmo que vos escreve em 2012 e não será o mesmo em 2014. Deve-se notar que havendo continuidade do blogue, é possível verificar uma evolução, uma mudança da pessoa, e daí não é estranho porque, obviamente, isto, levado à letra, quer dizer que desde que eu escrevi letra nesta mesma frase eu já não sou a mesma pessoa.

Havendo uma quebra torna-se estranho. Ainda hoje passei por um blogue de um aspirante a músico que em 2010 postara umas coisas que tinha feito e o último post era a dizer que iria escrever num outro blogue, blogue esse que já nem existe, e ali está uma página em que ele tem as séries que estava a ver, os discos que estava a ouvir, os livros que estava a ler etc. Obviamente hoje, dois anos volvidos, esse aspirante a músico deve estar vivo, algures sem qualquer preocupação com o blogue e se calhar até é mesmo músico ou então tem um bom ou mau trabalho. Mas a sensação com que se fica é a mesma quando deixamos de ver alguém que costumávamos ver e quando nos apercebemos passaram-se anos sobre isso. .

A Internet é um cemitério pois é a campa de muitas pessoas que já não existem mais. Não só fisicamente mas também em termos de personalidade. E se imaginarmos a quantidade de pessoas que deixou páginas para trás com informações... Devem ser milhões de páginas. De crianças que já são adolescentes, de adolescentes que são adultos, de filhos que já são pais etc.

É um cemitério de uma época da vida das pessoas. De um tempo em que pensaram e fizeram certas coisas que já nem se lembram, mas que estão por aí espalhadas.

Não há nada de mal, mas, para mim, é certamente muito estranho.
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Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Opinar ou não opinar.

Por várias vezes, leio que é importante ter uma opinião. É importante exprimir a opinião. É importante cultivar-nos e que não há uma opinião errada ou mal dada. Da mesma forma, que apenas existem textos bons e menos bons.

Não sei se concordo. Aliás, sei que não concordo, pois não sinto que tudo o que vem à rede seja peixe. Acho que é, a meu ver, comum o mau texto e pergunto-me se essas coisas, mal escritas e mal estruturadas, que nada trazem de novo ao mundo, merecem a sua existência.

Não me sinto mal em dizer que publicar livros do José Luís Peixoto é um desperdício da vida de uma árvore. Porque, na minha opinião, são documentos desprovidos de capacidade e de qualidade. Desprovidos, portanto, de mérito, que, supostamente, seria algo de muito importante aquando da consideração de um livro para publicação.

De qualquer das maneiras, o que me prende mais o pensamento neste momento, é a ideia de que devemos escrever e expor e partilhar as nossas ideias. Se bem que tenha este blogue razoavelmente activo, nem sempre sinto vontade de exprimir opiniões. Na verdade, cada vez menos. Sinto que hoje em dia as pessoas perderam uma coisa muito importante. A objectividade. Sinto que, cada vez mais, as pessoas avaliam as coisas subjectivamente, do seu ponto de vista e egoísta e do impacto que terá na sua bolha, a que chamam mundo.

Gostaria de dar um exemplo, mas a verdade é que nada me ocorre que não particularize alguém e não me apetece entrar na palhaçada de exemplificar este ou aquele.

Contudo, o que eu quero dizer é que há muito poucas coisas que sejam verdades absolutas. Talvez não haja nenhuma. Cada vez mais, convenço-me de que o mundo é absurdo e a existência humana é desprovida de sentido. Estou a ficar um bocado absurdista, talvez.

A verdade é que o facto de não existirem verdades absolutas, leva a que, eu ou outro qualquer, tenhamos percepções diferentes das coisas. O que, em si, não representa problema nenhum.

O problema vem, quando se falha na interpretação de alguma coisa. Quando alguém fala para mim, eu tenho de tentar perceber o que é que essa pessoa está a tentar dizer. Porém, hoje em dia, sinto que esse princípio de querer entender mudou. Sinto que, a maior parte das pessoas, interpreta consoante calha e consoante lhe dá jeito, desenquadrando a mensagem original, por vezes, mesmo distorcendo, e partem, então, para uma interpretação subjectiva a partir da qual se satisfazem ou "edificam" a sua resposta.

Obviamente, isto não se aplica a comunicações do género "Passa-me aí o pão, faz favor". Só de pensar nisso imagino alguém a pensar "Ahah, pediste-me o pão, mas eu vou passar-te é um talhe!", enquanto exibe uma expressão traquina com os dentes superiores à coelho.

Isto aplica-se à emissão de opinião. As pessoas parecem ser cada vez mais do género: "Bem-vindo, obrigado pela visita, e eventual comentário". Depois fazemos um comentário, com apreciação negativa e a reacção é de mandar calar e bloquear acesso etc.

Talvez o ideal fosse as pessoas contra argumentarem com os seus argumentos, usando as suas próprias palavras, ao invés de recorrerem ao que o outro disse para, através de distorções e interpretações subjectivas, encontrar brechas que possam tentar fragilizar.

O que ainda me aborrece mais, é que as pessoas fazem isso, mas até isso fazem mal, na maior parte das vezes. A capacidade de expressão da grande parte das pessoas parece estar, cada vez mais, desabilitada. A falta de habilidade para construir um argumento é gritante.

As pessoas deviam sentir prazer no momento em que escrevem ou falam com alguém, principalmente em caso de discordâncias, pois é nessas alturas que o nosso cérebro devia estar mais estimulado, para responder e preparar um argumento sólido colocando dificuldades ao nosso "adversário" para contrapor.

Sinto que se foge às discussões. Às boas discussões em que duas pessoas esgrimem argumentos, defendendo aquilo em que acreditam. É mais fácil virar a cara e espalhar por aí que somos estúpidos porque demos uma determinada opinião.

Enfim, nunca me preocupou o número de leitores que tenho, até porque a estatística do blogue para mim é uma mera curiosidade. Mas por vezes penso se valerá mesmo a pena continuar a escrever (aqui) ou a falar (em todos os outros lugares), porque sinto sempre que estou a correr contra um muro de parvoíce e inconsciência com o qual nada se aprende.


P.S - Eu sei que falo da falta de discussões e que a caixa de comentários deste blogue está desactivada. Contudo, quando fechei os comentários deste blogue, devia ter uns cinco comentários em cerca de cem posts. Quatro dos quais para dizer estupidez sem lógica e sem argumentação. Portanto se alguém tiver algo a dizer é só usar o mail disponibilizado neste blogue. Obrigado.
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

TasteOfOrange10

Olá.

A partir de hoje o nosso blog tem um twitter. Se quiserem podem seguir, contudo, apenas criámos o twitter porque às vezes lembramo-nos de uma frase ou de uma citação, que até nos apetece partilhar, mas não o suficiente para escrever um post, e para esse efeito o twitter é muito útil.

Cumprimentos a todos e obrigado.
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Os dias que nada significam

Em duas semanas tivemos dois feriados importantes. O 25 de Abril e o 1 de Maio.

O dia 25 de Abril tem, ou deveria ter, um significado muito especial para todos os portugueses. Foi o dia em que o povo foi libertado de uma ditadura que, apesar de boas finanças, não procurou avanço nem condições melhores para o seu povo.
O Movimento das Forças Armadas deve receber todo o mérito por esta acção. Presto-lhes aqui a minha homenagem e admiração por isso, a todos os Capitães de Abril e a todos os que não sendo Capitães contribuíram para o acontecimento.
Contudo estes protagonistas por uma razão ou outra rapidamente esqueceram o porquê de terem feito a revolução, pela qual todos os portugueses devem estar gratos.
Ao recusarem-se comparecer nas cerimónias do 25 de Abril obliteraram a liberdade porque tanto lutaram.
Esta recusa, em protesto pelas políticas do governo, é um erro lamentável pela parte dos Capitães de Abril e pela parte de algumas personalidades, nomeadamente Mário Soares e Manuel Alegre, que por não gostarem das políticas do governo decidiram não comparecer.
Não está em causa a razão ou não destas não comparências. Está em causa o facto de este grupo de pessoas acharem-se donas da verdade democrática.
O que está em causa é precisamente os direitos pelos quais os Capitães de Abril arriscaram as suas vidas. A liberdade. A liberdade de um povo que elegeu um governo e que agora para o bem ou para o mal está a lidar com as consequências. Mas há algo que é preciso não esquecer. Este governo, parecendo que não, foi endossado pelo povo. O povo que mais ordena, supostamente.

Contudo os Capitães de Abril, Mário Soares e Manuel Alegre recusaram-se a comparecer manchando a celebração do dia, que é o mais importante, e não passando de um fait-diver político do qual já ninguém se lembra. Esquecendo-se que lutaram pela liberdade do povo de eleger os seus representantes e lidar com as suas acções.

Hoje foi o dia 1 de Maio. Um dia de grande importância para o trabalhador, dado que, é a sua celebração.

Contudo hipócritas como Jerónimo de Sousa, João Proença e Arménio Carlos criticam hoje a cadeia de supermercados Pingo Donce pela sua decisão de lançar hoje uma promoção estrondosa onde quem levasse mais de 100€ em compras pagaria apenas metade.

Criticaram dizendo que o Pingo Doce se aproveitava do dia 1 de Maio para subverter o seu sentido e porque o Pingo Doce obriga os seus colaboradores a trabalhar. Pois bem.

Estes senhores comeram onde? Num banquete de Primeiro de Maio? E quem fez a comida? E quem serviu à mesa? E quem tratou de limpar as mesas? E quem tratou dos palcos? E quem tratou do som? E quem é que está arrumar os palcos agora? E quem é conduziu toda a gente a Lisboa para a manifestação? E quem é que recebeu muita gente nos hotéis? E quem é que limpou os quartos para que os trabalhadores em feriado pudessem descansar?

Será que foram Oompa-Loompas?

E quem é que foi fazer compras nesta promoção? Não terão sido muitos desempregados que têm de poupar todos os cêntimos? Ou também foram Oompa-Loompas?

E por falar em Dia da Liberdade, não tem o Pingo Doce liberdade para abrir quando quiser e fazer a promoção que quiser e como bem lhe apetecer?

É por estas e por outras que estes dias que muito significado deviam ter, pouco significado têm.
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Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Estado de choque

Hoje só quero dizer que a estupidez e a cobardia das pessoas é fascinante.

É de lamentar que hoje em dia a palavra e honra de um individuo não valha nada. Para mim vale, mas devo ser dos últimos a sentir isto.

Enfim, era só isto que queria dizer.
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Terça-feira, 13 de Março de 2012

Interview: Black Box Revelation

(Nota para leitores portugueses: Podem ler esta entrevista em português AQUI.)


The Black Box Revelation (BBR) gathered in 2005 and became known at first in 2006 when they reached the second place in the Belgian band contest Humo Rock Rally.

In 2007 they released the EP Kill For Peace (And Peace Will Die) and started playing regularly live shows in Belgium. In 2007 they also released their first LP, Set Your Head On Fire. A presentation of a band featuring pure, simple and fun Hard Rock. I Think I Like You, Love, Love Is On My Mind and Never Alone Always Together were some of the singles that came out of that first album.

BBR made some tours as supporting act with bands like dEUS, Iggy Pop, Eagles Of Death Metal, Raveonettes and others, also playing in some important Summer Festivals as Werchter, Pinkpop and Pukkelpop.


2010 saw the release of a new record entitled Silver Threats, showing psychedelic influences in songs like Love Licks and keeping the Hard Rock vein in songs like High On A Wire.

On February 2011 BBR released a single in a heart-shaped red vynil. The single was Lust Or Love, a song that isn't featured in any of the records of the band.


Rattle My Heart was released in June 2011 and was the single of the fortcoming album My Perception, their newest one, which was published in September 2011. A very consistent album (maybe the more consistent of the three) with a lot of ambience methamorphoses, that promise to make you listen again and again.

What more can we say? Jan Paternoster is the guitar player, singer and songwriter, and Dries Van Djick is the drummer. Yes, you read that right, they are only two, however, and despite being influenced by bands like The White Stripes and Black Keys, BBR deconstructed the idea that being a two piece band means having a thin and (too) simple sound. BBR songs are well constructed and sound thick and anyone who listens will be convinced that they are a "complete" band. BBR is a band willing to cross barriers. Tours with other bands through the USA have granted them good reviews and acclaim from the American audience, rare thing for minor European bands mainly coming from outside of the UK.

Assuming themselves as a genuine live band, BBR don't lack energy whatsoever and they look like they want to conquer the world. And Jan has only 22 and Dries 20. Fantastic, right?

For more information about BBR go to the Official Site, and to see their videos go to their Official Youtube Account.

It is with pleasure that we present you here on The Taste Of Orange the first and exclusive interview to a Portuguese site, in English so everyone can enjoy.



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Taste Of Orange: According to the CD's leaflets, Jan writes all the songs, so how is the creative process when the two get together to actually build the song?
Jan Paternoster: As you mentioned already I'm the one who comes up with new songs in demo version. I record new ideas, vocals, guitars, riffs, whatever, .. on electric or dobro guitar via a 4 track cassette recorder. Once I have enough bricks to build our wall of sound, I go to Dries and most of the time I just try to introduce those new tunes without mentioning them. Our rehearsals mainly exist out of long jams and improvisation. In between I shoot some new tunes or ideas in there and we just see what kind of results it brings. When we like it, it most of the times turns out into a very long stretched jam. It's all about gut feelings and 'magic' then.

TO: What’s your main inspiration when writing songs? Do you get it from books, real life or any other thing?
J.P.: I always get inspired by loads of things while traveling. You see so many places and meet new people, and if we compare our lives to that of our friends it just differs so much. Love and Death are the two most fascinating things in life. Without life we couldn't even die or make love, haha. Fear can be an influential factor in writing as well, mainly cuz those themes are all so fascinating. While writing our new album 'My Perception' I got influenced by a lot of art as well. In particular by the New York artist Jean-Michel Basquiat. You'll see the same themes coming back, and I just love to try translating paintings into words. Exactly the reverse of what happens with books, where the reader tries to translate words into fantasy and visuals.

TO: Since most of the generally heard bands are from the UK and USA, being from Belgium do you feel any difficulty taking your music abroad? Why?
J.P.: Since English isn't our mother tongue there will always be a small language barrier. But this doesn't have to be a negative thing. We're proud of our music and we've played loads of concerts and tours for English native people already. Reactions couldn't be better, Americans like it so much we almost can't believe it. We toured the States with Liam Gallagher's Beady Eye, toured with Eagles of Death Metal, and are going back to the States next month with Jane's Addiction. I bet people's reactions are different then when they hear American bands, it might give 'em a more exotic feeling, which they like in a more curious way I guess.

TO: In 2008 you toured with dEUS. Do you feel influenced by those 90's bands, dEUS, Evil Superstars and others, that took Belgian music throughout Europe?
Dries Van Djick: We like dEUS and Evil Superstars, but we're not really influenced by Belgian bands, but we are influenced by some bands like Nirvana from the 90's. We're really thankful that dEUS took us on tour with them, this was the first European tour for us. In general we're more influenced by bands from the sixties and seventies like The Rolling Stones and Neil Young.

BBR3, You cannot use this picture


TO: What made you begin a band without any other instrument besides drums and guitar?
D.V.D.: Before Black Box Revelation we were both playing in a four piece band with Jan's younger brother and another friend. The genre was rather pop rock. After a while, Jan wrote a song ("Love In Your Head" from our first album "Set Your Head On Fire") which didn't really fit with the music of that band so we tried that one with just the two of us, and it worked out well! After writing more bluesy songs and some rehearsals we decided to go on with the two of us and started a new band: Black Box Revelation.

TO: Do you feel any restriction in songwriting and construction because of the limitation to those two instruments?
D.V.D.: Not at all, being just the two of us gives us a lot of freedom! When we're jamming we don't miss any other instruments. With Jan's three amp's and different guitar pedals, he brings a lot of dimensions into solo's, riffs and gives an extra boost in certain parts. I'm always trying to combine a groovy pattern, with my two floor toms and tom instead of the basic hi-hat, snare, kick beats, in that way it replaces a bass guitar. While recording we do use some overdubs, for example in "Sealed With Thorns" there's a small piano part that fits so good at that moment. Overdubs are making some parts more interesting for sure, but you won't miss those when you see us live!

TO: How do you feel when playing live and what do you like most about it?
D.V.D.: It feels great to play live shows! We agree that we're more a live band, and we really convince people when they see us live, because when people hear our albums, most of them can't believe we're a duo. What we really love about it is the interaction between us and the crowd, especially in the smaller venues. We always give as much energy as we can, once we see the crowd is getting wilder and crazy, it gives us even more energy. Sweaty basements, always fun! On the bigger stages it's quit different. Then it's more the huge crowd which gives us adrenaline and a lot of energy.

TO: Do you feel amazed when you look back and realise you already have three well accomplished albums under your belt? Especially when you are such young people?
D.V.D.: We never really think about it because we're always on tour, making new songs, videoclips,... But sometimes when we do think about it we're proud of what we've already accomplished the past six years. Our ambition is always growing. Now we're touring a lot in the States, It's amazing that bands like Beady Eye and Jane's Addiction want to take us on tour with them. Our ambition: Beady Eye and Jane's Addiction supporting for BBR:)! When an album is finished and we're back home, putting the record on is really satisfying. That moment we're really proud and happy with our brand new album!



TO: Do you have any influence on the video’s conception or you just let the directors take care of it? Because they are very cool, being quite different from the usual.
J.P.: I really like this question! There indeed is a big evolution in our videos. The first ones, from 5 years ago till a year or two ago, were always made by different directors, most of 'em by Joris Rabijns. We're always really excited to work on new videos, which goes along with a close involvement. We created the idea together with the director, giving him enough room to work it out in his own personal way. After making a dozen videos with directors we wanted to try make them ourselves. We had loads of time to see their working methods and ask them tips and tricks. Lust or Love was our first self directed video. We made it with my girlfriend and a couple of friends. Amazing what possibilities you have with those current DSLR cameras. We make all our videos ourselves now. For Rattle My Heart we worked together with fashion designer Walter Van Beirendonck, and for My Perception we had a cooperation with FC Bergman, a Flemish theater collective. When you write a song, you have certain visuals in your head and we try to bring those visuals to the listeners in our videos. There's no one else who can achieve visuals so close to your own fantasy than yourself. That's probably the reason why our videos differ so much to usual videos made by directors. I guess we look at it in a more musical way than non musicians.

TO: It’s going to be Black Box Revelation for life? Or are you looking forward for different projects?
D.V.D.: For now it's only Black Box Revelation. Maybe someday, who knows what the future brings? No plans yet! We just love what we're doing: making music, recording albums, touring around the world. We're working hard to get our name out there. We like jamming with some other musicians but in BBR we will always stay the two of us.

TO: Individual question. Jan, what or who influenced your guitar playing style and guitar choice?
J.P.: My main influences are blues singers like Howlin' Wolf, R L Burnside, Muddy Waters, Johnny Winter etc. Next to those Mississippi legends I really dig the early Stones and especially Neil Young on his 'On The Beach' record. I guess the reason why I like all those guys is cuz they all play their guitars with so much attitude. It's not about the most fancy solo, but about the way they put soul and freshness in their music. It's all about attitude!

TO: Dries, what or who influenced your drum playing style?
D.V.D.:John Bonham is my biggest influence, the way he controls his drums, the way he grooves, amazing. Also Dave Grohl really inspires me. When I was young, I was always watching video's where he's hitting his drums so hard. I guess that made me do the same. The drummer from Yeah Yeah Yeah's also inspires. He also use his toms a lot, he created his own sound.

TO: Do you like to combine different guitars, different amplifiers and effects in search of a different sound or is it just always basically the same?
J.P.: I basically use 1 specific setup, a rig of 3 guitar amps running through 3 different effect channels on my pedal board, all controlled by foot and my guitar.. I must say that setup has changed a lot over the years. Always in search for a better or thicker sound. It kinda evolved together with my way of playing the guitar and playing concerts. More experience enriched my knowledge on effects and amps. Not that I am a guitar geek, not at all. Once I found that right sound I stopped looking for more. Funny thing, cuz the new pedals and amps keep on coming. We played together with so many bands already and there's always something that attracts your attention like a new sound or pedal.. In the early BBR days, I just played a Chinese version of the AC30, nothing more, no pedals, straight plugged into the amp. Nowadays, it's a 60ies Selmer Zodiac Thirty and two Dr. Z's, running through a pedal board with a dozen of pedals. Funny how things evolve, isn't it? Speaking of guitars, I just LOVE guitars. Always up for a new one.. I mainly play James Trussart's guitars, a French luthier living in Los Angeles and a good friend of mine. He's actually building a crazy new model for me right now, and I can't wait to play it.

TO: Having a band and published albums was a long-awaited dream come true or an unexpected and sudden thing?
D.V.D.: For me, playing in a band and playing shows was absolutely a dream coming true. I started playing drums when I was seven years old, from that moment I knew what I wanted to do the rest of my life. We started playing together when we were 12 and 14 years old. From the beginning, it was our dream to go on tour! Two years ago we headlined the marquee at Rock Werchter which is the biggest festival in Belgium. Seven years ago we couldn't even imagined this.


TO: How have you come up with the idea for the Lust or Love song, video and heart-shaped vinyl? Because it’s an unusual release.
J.P.: I'm really happy this release drew your attention. The song was recorded during the 'Silver Threats' sessions, but we didn't want to put it on the album cuz of the different vibe. We thought the theme of this song was great to release it on Valentine's day. Wouldn't you like to get a Valentine's gift like that from your girlfriend? That's why we pressed the vinyl heart-shaped. Super cool isn't it? It was the perfect opportunity for us to try shooting the video ourselves. A no-budget production which is one of my favorite BBR videos.. The blue beard idea in the video came from my girlfriend, referring to the Bluebeard fairytale. What a hassle to paint that beard blue, hahaha. We had great fun shooting the video, but it was super cold. I even remember it was the coldest night of the year.. about - 15 degrees celsius. But hey, we needed the snow landscape!

TO: Are you planning on playing in Portugal someday?
J.P.: We'd LOVE to play Portugal this summer. We've been touring around Europe for 5 years now, played great shows in nearly every European country except Portugal. We had super cool shows in Spain with the Raveonettes. We just can't wait to play some Portuguese festivals. That would be so exciting. I think the Portuguese crowd would love our music, especially live on stage.

The Taste Of Orange would like to thank The Black Box Revelation for giving us this great interview so kindly. We would also like to give our thanks to Christen for allowing the contact with BBR and for the photos. Thank you very much!


Limited Edition of Lust Or Love as referred in the interview, offered to João X by his girlfriend :)

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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Entrevista aos Black Box Revelation

(Note for English readers: You can read the interview in English HERE.)

Os Black Box Revelation (BBR) formaram-se em 2005 e deram-se a conhecer em 2006 quando ficaram em segundo lugar no Humo Rock Rally (concurso de bandas Belga).

Em 2007 lançaram o EP Kill for Peace (And Peace Will Die) e começaram a dar concertos regularmente na Bélgica. Em 2007 lançam também o seu primeiro LP chamado Set Your Head On Fire, uma apresentação de uma banda descomplexada, com Rock puro e divertido. I Think I Like You, Love, Love Is On My Mind e Never Alone, Always Together, foram alguns dos singles desse primeiro disco.

Os BBR fizeram digressões com várias bandas, como os dEUS, Iggy Pop, Eagles Of Death Metal, Raveonettes entre outros, tocando várias vezes em importantes festivais no Benelux como o Werchter, Pinkpop e Pukkelpop.

Em 2010 lançaram novo album Silver Threats demonstrando tendências e influências mais psicadélicas em músicas como Love Licks e mostrando a faceta Hard Rock em músicas como High On A Wire.

Em Fevereiro de 2011 lançaram um single editado em forma de Vinil vermelho, que ao invés de ser redondo, é um coração. O single era Lust Or Love, música que não consta em nenhum dos discos da banda.

Rattle My Heart foi lançada em Junho de 2011 e foi o single de avanço do seu mais recente álbum My Perception que foi editado em Setembro de 2011. Um álbum muito consistente (talvez o mais consistente dos três) com muitas metamorfoses ambientais ao longo do disco, que prometem prender qualquer um.

Resta dizer que Jan Paternoster é o guitarrista e vocalista e compõe todas as músicas e Dries Van Dijck é o baterista. Sim, são só dois, contudo e apesar de serem influenciados por bandas como White Stripes e Black Keys, os BBR desconstruiram a noção de que sendo apenas dois é preciso ter um som fino e pouco composto. As músicas dos BBR são bem construidas e qualquer um se convenceria de que são uma banda completa pelo resultado final. Os BBR são uma banda disposta a ultrapassar barreiras. Digressões com outras bandas pelos EUA têm-lhes valido boas reviews e reconhecimento junto do público americano, coisa rara para bandas europeias menores, principalmente fora do Reino Unido.

Assumindo-se como uma banda ao vivo os BBR não têm falta de energia e vontade de conquistar o mundo. E Jan ainda tem apenas 22 e Dries 20 anos. Fantástico não é?

Para mais informação sobre os BBR, acedam ao site oficial, e para verem os vídeos visitem a conta oficial do Youtube.

É com muito prazer e sem mais demoras que aqui no The Taste of Orange, temos o prazer de apresentar a primeira e exclusiva entrevista dos Black Box Revelation em português e para Portugal.

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Taste Of Orange: De acordo com os folhetos dos discos, o Jan escreve todas as canções, portanto como decorre o processo criativo quando os dois se juntam para construir, efectivamente, a música?
Jan Paternoster: Como já foi mencionado, sou eu quem cria as músicas novas nas versões demo. Eu gravo novas ideias, voz, guitarras, os riffs, seja o que for... em guitarra eléctrica ou dobro através de um gravador de cassetes de 4 faixas. Assim que tiver peças suficientes para construir a nossa parede de som, vou ter com o Dries e tento introduzir as novas músicas sem as mencionar. Os nossos ensaios consistem essencialmente em jams longos e improvisação. Pelo meio, atiro alguns sons novos ou ideias para lá e vemos que tipo de resultado conseguimos daí. Na maior parte das vezes, quando gostamos, acaba por ser um jam bastante prolongado. Roda então tudo à volta de sentimento e “magia”.


TO: Qual é a vossa inspiração principal quando escrevem músicas? Vem de livros, da vida real, ou de qualquer outra coisa?
J.P.: Eu sinto-me sempre inspirado por uma data de coisas enquanto viajo. Vê-se tantos sítios e conhece-se pessoas novas, e se compararmos a nossa vida à dos nossos amigos, é simplesmente tão diferente. O Amor e a Morte são as duas coisas mais fascinantes na vida. Sem vida não poderíamos sequer morrer ou fazer amor, haha.
O medo pode ser um factor influenciador quando se escreve também, essencialmente porque esses temas são todos tão fascinantes. Enquanto escrevíamos o nosso novo álbum My Perception fui influenciado por muita arte também, em particular pelo pintor nova-iorquino Jean-Michel Basquiat. Poderão ver os mesmos temas de volta, e eu adoro tentar traduzir quadros para palavras. Que é exactamente o oposto do que acontece com livros, onde o leitor tenta traduzir palavras para a fantasia e visuais.

TO: Dado que a maioria das bandas ouvidas de forma geral são do Reino Unido ou dos EUA, sentem alguma dificuldade em levar a vossa música para fora, sendo belgas? E porquê?
J.P.: Dado que o inglês não é a nossa íngua materna, haverá sempre uma pequena barreira linguística. Mas isto não tem de ser algo negativo, nós estamos orgulhosos da nossa música e já demos imensos concertos e fizémos digressões com públicos de língua inglesa. As reacções não poderiam ser melhores, os americanos gostaram tanto que nem conseguimos acreditar. Fizémos uma digressão nos Estados Unidos com os Beady Eye do Liam Gallagher, com os Eagles of Death Metal, e voltaremos lá no próximo mês com os Jane’s Addiction. Aposto que as reacções das pessoas são diferentes do que quando ouvem bandas americanas, eventualmente poderá dar-lhes uma sensação mais exótica, que me parece gostarem de uma maneira curiosa.

TO: Em 2008, fizeram uma digressão com os dEUS. Sentem-se influenciados por estas bandas dos anos 90, como os dEUS, Evil Superstars entre outras, que levaram a música Bélgica para toda a Europa?
Dries Van Dijck : Nós gostamos dos dEUS e dos Evil Superstars, mas não somos realmente influenciados por bandas belgas. Mas somos influenciados por algumas bandas dos anos 90, como os Nirvana. Estamos mesmo gratos aos dEUS por nos terem levado em digressão com eles, foi a nossa primeira a nível europeu. Em geral, somos mais influenciados por bandas dos anos 60 e 70 como os Rolling Stones ou o Neil Young.

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TO: O que é que vos fez começar uma banda sem qualquer instrumento para além da bateria e da guitarra?
D.V.D.: Antes dos Black Box Revelation tocávamos os dois numa banda de quatro elementos com o irmão mais novo do Jan e outro amigo. O género de música era pop-rock. Depois de uns tempos, o Jan escreveu uma música (Love In Your Head do nosso primeiro álbum Set Your Head On Fire) que não encaixava bem no tipo de música dessa banda, então tentámos essa música apenas nós os dois, e funcionou muito bem! Depois de escrever mais canções a puxar para o blues e alguns ensaios decidimos continuar os dois e começámos uma nova banda: os Black Box Revelation.

TO: Sentem alguma restrição na escrita e construção das canções devido às limitações de ter apenas dois instrumentos?
D.V.D.: De maneira alguma, sendo apenas nós os dois temos imensa liberdade! Quando estamos num jam não sentimos a falta de qualquer outro instrumento. Com os três amplificadores do Jan e diferentes pedais de guitarra, ele adiciona imensas dimensões aos solos, riffs e dá um poder extra em algumas partes. Eu tento sempre combinar um padrão groovy, com os meus diferentes “toms” em vez do básico prato de choques, tarola, bombo, de uma forma que pode substituir um baixo. Enquanto gravamos usamos alguns overdubs, como em Sealed With Thorns em que há uma pequena parte de piano que encaixa tão bem naquele momento. Os overdubs tornam algumas partes mais interessantes de certeza, mas não vais sentir falta deles quando nos vires ao vivo!

TO: Como é que se sentem a tocar ao vivo e o que é que gostam mais nisso?
D.V.D.: É fantástico tocar ao vivo! Concordamos que somos uma banda mais ao vivo, e que realmente convencemos as pessoas quando nos vêem em concertos, porque quando as pessoas ouvem os nossos álbuns, a maior parte não acredita que somos dois. O que realmente gostamos em tocar ao vivo é a interacção entre nós e o público, especialmente em sítios mais pequenos. Nós damos sempre toda a energia que temos, e quando vemos as pessoas a ficarem mais entusiasmadas e doidas, dá-nos ainda mais energia. Pequenos palcos, é sempre divertido! Em palcos maiores é bastante diferente. Nesse caso é mais a multidão enorme que nos dá adrenalina e imensa energia.

TO: Não se sentem bem sabendo que, olhando para trás, já têm três álbuns bem conseguidos? Especialmente sendo pessoas tão novas?
D.V.D.: Nunca pensamos bem nisso porque estamos sempre em digressão, a criar novas músicas, ou videoclipes... Mas às vezes, quando pensamos nisso, estamos orgulhosos daquilo que conseguimos alcançar ao longo dos últimos seis anos. A nossa ambição está sempre a crescer. Agora estamos temos estado em bastantes digressões pelos Estados Unidos, é fantástico que bandas como os Beady Eye e Jane’s Addiction nos queiram levar em digressão com eles. A nossa ambição: os Beady Eye e os Jane’s Addiction a abrirem para os BBR:)! (sic) Quando um álbum está acabado e estamos de volta a casa, ouvir o álbum é muito satisfatório. Nesse momento estamos realmente orgulhosos e felizes com o nosso novo álbum!

BBR1, You cannot use this picture

TO: Vocês têm alguma influência na concepção dos vídeos ou simplesmente deixam os directores tratar de tudo? Porque os vídeos são muito fixes, sendo diferentes do habitual.
J.P.: Eu realmente gosto desta pergunta! Existe de facto uma grande evolução nos nossos vídeos. Os primeiros, desde há cinco anos atrás até um ou dois anos atrás, foram sempre realizados por diferentes directores, a maior parte deles por Joris Rabijns. Estamos sempre entusiasmados por trabalhar em vídeos novos, que se desenvolve sempre com um envolvimento próximo. Criamos a ideia com o director, dando-lhe espaço suficiente para trabalhar o vídeo da sua maneira pessoal. Depois de fazer uma dúzia de vídeos com directores quisemos tentar fazê-los nós próprios. Tivemos montes de tempo para ver os métodos de trabalho deles e de lhes pedir truques e dicas. Lust or Love foi o nosso primeiro vídeo realizado por nós. Fizémo-lo com a minha namorada e uns amigos. São fantásticas as possibilidades dadas por aquelas máquinas DSLR. Neste momento fazemos todos os nossos vídeos. Para o Rattle My Heart trabalhámos em conjunto com o designer de moda Walter Van Beirendonck, e para o My Perception tivemos uma cooperação com o FC Bergman, uma companhia de teatro flamengo. Quando escreves uma canção, tens certos visuais na tua cabeça e nós tentamos trazer esses visuais para os ouvintes nos nossos vídeos. Não há ninguém que consiga visuais tão próximos da nossa própria fantasia como nós próprios. Essa é provavelmente a razão que faz os nossos vídeos diferirem tanto dos vídeos habituais feitos por directores. Acho que olhamos para eles numa forma mais musical do que as pessoas não-músicas.

TO: Vão ser os Black Box Revelation para o resto da vida? Ou poderão vir a ter outros projectos?
D.V.D.: Para já são apenas os Black Box Revelation. Talvez um dia, quem sabe o que nos traz o futuro? Não há planos para já! Nós apenas adoramos o que estamos a fazer: música, a gravar álbuns, fazer digressões à volta do mundo. Estamos a trabalhar bastante para ter o nosso nome por aí. Gostamos de tocar com outros músicos mas nos BBR iremos ser sempre apenas nós os dois.

TO: Jan, o quê ou quem influenciou o teu modo de tocar guitarra e a escolha de guitarra?
J.P.: As minhas influências principais são cantores de blues como o Howlin’ Wolf, Muddy Waters, Johnny Winter etc. Ao lado dessas lendas do Mississipi, gosto realmente os primeiros tempos dos Stones e especialmente do Neil Young no seu álbum On The Beach. Acho que a razão de eu gostar de todos estes tipos é porque todos eles tocam as suas guitarras com tanta atitude. Não é sobre o solo mais impressionante, mas sobre a forma como eles põem a sua alma e frescura na música. A atitude é tudo!

E Dries, o quê ou quem é que influenciou a tua forma de tocar bateria?
D.V.D.: O John Bonham é a minha maior influência, a forma como ele controla a bateria, o groove dele, é fantástico. O Dave Grohl também me inspira. Quando eu era novo, estava sempre a ver vídeos em que ele bate na bateria com tanta força. Creio que isso me levou a fazer o mesmo. O baterista dos Yeah Yeah Yeahs também me inspira. E ele usa imenso os seus “toms”, criou a sua própria sonoridade.

TO: Gosta de combinar diferentes guitarras, diferentes amplificadores e efeitos em procura de sons diferentes ou basicamente é sempre o mesmo?
J.P.: Basicamente uso um setup específico. Um conjunto de três amplificadores de guitarra que vão por três canais de efeitos diferentes na minha pedaleira, todos controlados com o pé ou pela guitarra... Devo dizer que este setup tem mudado bastante ao longo dos anos. Sempre procurando um som melhor e mais preenchido. Evoluiu de certa forma com a minha forma de tocar guitarra e de dar concertos. A experiência enriqueceu o meu conhecimento em efeitos e amplificadores. Não que seja um “guitar geek”, de forma alguma. Uma vez que encontro o som certo, paro de procurar. Coisa engraçada, porque continuam a aparecer novos pedais e novos amplificadores. Nós já tocamos juntos com tantas bandas que há sempre algo que atrai a tua atenção, como um novo som ou pedal... Nos primeiros tempos dos BBR, apenas tocava com uma versão chinesa do Vox AC30, nada mais, sem pedal nenhum, apenas ligado directamente da guitarra ao amplificador. Hoje em dia uso amplificadores Selmer Zodiac Thirty dos anos 60 e dois Dr.Z's ligados a uma pedaleira com uma dúzia de pedais. É engraçado como as coisas evoluem, não é? Falando de guitarras, eu ADORO (sic) guitarras, estou sempre pronto para uma nova... Essencialmente toco guitarras do James Trussart, um luthier francês que vive em Los Angeles e é um bom amigo meu. Na verdade ele está a construir uma guitarra doida nova para mim, e eu mal posso esperar para tocar.

TO: Ter uma banda e alguns álbuns lançados foi um sonho há muito esperado tornado realidade ou algo inesperado e repentino?
D.V.D.: Para mim, tocar numa banda e dar concertos foi um sonho tornado realidade, absolutamente. Comecei a tocar bateria quando tinha sete anos, e desde esse momento eu soube o que queria fazer para o resto da minha vida.Começámos a tocar juntos quando tínhamos 12 e 14 anos. Desde o início, ir em digressão era um sonho que tínhamos. Dois anos atrás fomos cabeça de cartaz no Rock Werchter, que é o maior festival da Bélgica. Sete anos atrás não conseguiríamos sequer imaginar isto.

BBR4, You cannot use this picture

TO: Como é que tiveram a ideia para a Lust or Love, enquanto canção, vídeo e vinil em forma de coração? Porque é um lançamento bastante incomum.
J.P.: Estou realmente contente por este lançamento ter chamado a vossa atenção. A canção foi gravada durante as sessões do Silver Threats, mas não a queríamos pôr no vídeo por ter um ambiente tão diferente. Pensámos que o tema desta canção seria óptimo para a lançar no dia de S. Valentim. Não gostarias de receber um presente como este pelo Dia dos Namorados da tua namorada? Foi por isso que criámos o vinil em forma de coração. É super fixe, não é? Foi a oportunidade perfeita para tentarmos filmar o vídeo nós próprios. Uma produção sem orçamento que é um do meus vídeos dos BBR preferidos. A ideia da barba azul no vídeo veio da minha namorada, como referência ao conto de fadas do Barba Azul. Que confusão para pintar a barba de azul, hahaha. Divertimo-nos imenso a filmar o vídeo, mas estava imenso frio. Lembro-me que foi a noite mais fria do ano... cerca de -15ºC. Mas bem, precisávamos da paisagem da neve!

TO: Planeiam tocar em Portugal um dia?
J.P.: Nós ADORARÍAMOS (sic) tocar em Portugal este Verão. Temos andado em digressão pela Europa já há cinco anos, tocámos óptimos concertos em quase todos os países europeus excepto Portugal. Tivemos concertos muito fixes em Espanha com os Raveonettes. Não conseguimos esperar para tocar nalguns festivais portugueses. Seria muito entusiasmante. Acho que o público portugues iria gostar imenso da nossa música, especialmente ao vivo.


O Taste of Orange gostaria de agradecer aos Black Box Revelation pela gentileza de nos terem aceite fazer esta entrevista. Agradecemos ainda ao Christen por nos ter feito o contacto aos BBR e pelas fotos. Obrigado!


Photobucket

O exemplar da edição limitada do vinil Lust or Love oferecida ao João X pela sua namorada, referido na entrevista :)
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Ah, o ultraje!

Pronto. Habitualmente não escrevo sobre notícias e polémicas e o diabo a sete. Mas bem, depois de ter lido isto não posso, simplesmente, deixar de mandar o meu filetezinho. Então segundo esta notícia, as cultíssimas pessoas no facebook não gostaram da promoção da Fnac, aliás, sentiram-se insultadas e ofendidas. Note-se bem que, não tendo eu facebook, não sei realmente o que foi dito, mas de acordo com a notícia do jornal, já é um caso polémico. E assim sendo, segue-se a minha posta de pescada. Quando vi a campanha da Fnac, pensei em primeiro lugar, que comparação totó. Mas depois oralizei, meus filhos, e apercebi-me então de que Maias a Meyer, é um passinho, sendo então óbvio o motivo da escolha destes dois nomes, e aliás, numa livraria, por muito que por vezes me custe, não há, supostamente, hierarquia de autores, sendo que são os dois válidos. Agora, que todos os santinhos existentes no mundo me livrem da Meyer, que já apanhei conversa suficiente sobre ela no primeiro ano da universidade (sim, leram bem) por parte dos meus colegas em trabalhos de Português e Inglês (já agora, fiz sobre Tolkien, what else? Quem me vier dizer que é para crianças que vá ver os livros e depois venha com a lengalenga habitual dos falhados - ah, é tão descritivo e pesado, nhanhanha, coitadinho de mim. De qualquer forma tratei mais sobre as variadas dicotomias presentes na obra do que sobre a história em si, só para verem como sou inteligente). No entanto, em breves passagens pela Bertrand, admito que cometi a blasfémia de ter lido algumas páginas dessa porcaria denominada nós-sabemos-o-quê da autora Meyer só para ver se seria assim tão bom como as pessoas diziam ser, ou tão medíocre como deduzi ser e muito rapidamente pude concluir que eu tinha razão, e mais, que ainda era pior do que eu alguma vez poderia ter imaginado. Para as pessoas que agora me vêm com a treta do "ah, mas não leste a "obra" toda, não pdoes realmente saber, blá blá blá" eu digo, desde quando é que um livro é só a porcaria da história? Nabokov poderia escrever sobre um cocó com patas que seria soberbamente bem escrito na mesma, santa paciência. Adiante.
Admito que também não li Os Maias completo. Mas eu tinha 16 anos e ainda era inocente sem noção dos problemas intemporais da sociedade e era tão aborrecido, não as descrições, que eram fabulosas, mas o enredo, aos meus olhos era mais uma telenovela que qualquer outra coisa. Além do mais, nessa altura andava completamente viciada em Tolkien e Murakami, e era difícil prestar atenção a outras leituras. Obviamente um dia irei reler, nem que seja para fazer justiça ao Eça, mas não garanto que vá gostar, além de que gostar daquilo que as pessoas acham que é correcto gostar não entra sequer no meu top trezentos milhões de preocupações. Mas respeito o autor pela forma de escrever, uma vez mais.

Então, eventuais leitores, agora que me redimi quanto à minha abrangência da leitura destes autores, irei prosseguir. O que eu acho estúpido, mas mesmo estúpido, assim sem ser possível sequer uma pessoa sobreviver à quantidade de parvoíce presente neste "movimento" facebookiano anti-campanha da Fnac, é que algo me diz que estas mui cultas pessoas, na sua grande maioria, presumo eu, possuindo fantásticos gostos culturais principalmente de leitura, autênticos leitores da mais requintada literatura, devem ser aqueles falhados que só lêem a porcaria presente no Top de vendas, top bestsellers, top recomendações etc. É que, nas minhas breves incursões pela blogosfera, quando as pessoas falam de livros, chego sempre e invariavelmente às mesmas conclusões: as pessoas só lêem, perdoai-me o termo, merda. Pronto, da mesma forma que quando estou na Bertrand ou na Fnac ou seja o que for, invariavelmente vejo as pessoas a pegarem em merda para a comprarem, e lerem, de seguida. Como o top bestseller. Ou a prateleira de auto-ajuda. Ou o miúdo que foi ao céu, ou as caixas de incenso, como diz o meu maravilhoso namorado, da Nora Roberts. Ou Twilight. Ou os mesmos policiais escandinavos que me parecem resumirem-se todos ao mesmo, assim em série. Pronto, acalmem-se as hordes furiosas porque esta é apenas a minha opinião, e se vêm dizer, "ah, deves pensar que lês grande coisa, tu! E os gostos não se discutem! E és uma miúda que pensa que sabe!" etc, eu digo: sim, obviamente acho que leio do melhor que existe para ler porque não vou perder tempo com porcaria. Sim, os gostos discutem-se, e educam-se. E sim, por acaso até penso que sei, afinal, para alguma coisa terão de servir os meus 16 anos escolares desde a primária até à universidade que ainda nem completa está! E quanto mais não seja, sempre posso perguntar às minhas professoras de literatura o que há de melhor para ler, e a verdade é que até agora, não me tenho desiludido. Quer dizer, para quê ler Ken Follet ou G. Martin quando posso ler Proust, Baudelaire, Tolstoi ou Dostoievski? Entre muitos outros. E sim, estou a dizer o que leio para efectivamente comprovar que leio do melhor, que há, para mim. Não tem de ser para vocês, a infelicidade é vossa.
Seja como for, sugiro à Fnac que instale nas suas lojas um detector com alarme, que funcionasse da seguintes forma:

A Maria Antonieta entra na Fnac ali da Rua de Stª Catarina. Dirige-se à secção dos livros, mais concretamente à prateleira das recomendações. Olha para o último livro de G. Martin e pensa que, depois dos últimos três mil publicados e lidos, deve ser o próximo passo literário. Agarra nele e dirige-se à próxima prateleira. Repara no livro tal escrito por J.D.Rodd, e pensa, ah, não deve ser nada de especial. Mas ao atentar na capa, chama-lhe a atenção que este nome é apenas o pseudónimo de, nada mais, nada menos que Nora Roberts, e não consegue esconder o entusiasmo quando chega a essa conclusão. "Assim sendo, acho que vou levar dois, porque eu leio tão rápido e estes livros devem ser espectaculares, depois dos quinze biliões exactamente iguais que já li, é a literatura no seu melhor". Maria Antonieta passou então pelo corredor seguinte, onde se sentiu extremamente tentada pelo top das melhores vendas, mas pensou que por este mês já chegava. Ainda viu um senhor a escolher um romance de Kawabata, mas pensou "Estas pessoas que lêem coisas desinteressantes, que aborrecimento. Bem, adiante para a caixa!". Tendo chegado à caixa, retirou o seu cartão cliente Fnac e colocou os livros em cima do balcão. Neste preciso momento, neste segundo crucial, um alarme altíssimo, que eventualmente causaria ataques cardíacos aos mais sensíveis, disparou, e Maria Antonieta sentiu-se agitada. O que será esta barulheira? A funcionária da caixa fez cessar de imediato o alarme, com dois ou três gestos simples no aparelho. As pessoas chocadas com o anterior basqueiro ficaram a ver e ouvir, em vez de dispersarem. E disse: "Pedimos imensa desculpa, cara cliente, mas este é nosso alarme anti-porcaria. Está a ver, com nomes como Eça de Queirós e Luís de Camões, Vergílio Ferreira e António Lobo Antunes na secção de literatura portuguesa é impossível ter feito esta selecção. Além do mais, imensos clássicos europeus estão nas prateleiras à espera de serem levados, como os russos  A Guerra e Paz, ou Lolita, ou Os Demónios, ou então uma abordagem mais inglesa com as irmãs Brontë, ou Dickens e Virginia Woolf. Além do mais, não me diga que se esqueceu que existem As Flores do Mal, O Estrangeiro e Huis-Clos ali na secção francófona? Sem falar nas restantes centenas de bons livros, antigos e actuais, de todos os cantinhos do mundo, que merecem ser lidos ao invés dessas caixas de cereais em forma de livros? Leve Salman Rushdie, mulher, agora essa porcaria... é um insulto, sabe, é uma ofensa, não apenas ao nosso país como a todos os bons autores que existiram, e existem no mundo. É uma desvalorização de quem se arriscou a escrever certas obras, magníficas obras. É o subestimar de pessoas que puseram a escrita e subsequentes morais, muitas vezes, tidas verdadeira e genuinamente na vida real, antes de tudo e todos e tudo fizeram para deixar a sua obra. Então, Maria Antonieta, não se sente envergonhada de ter levado esses títulos, quando tem uma vasta colecção de maravilhosos mundos ao seu dispôr?" Mas Maria Antonieta era burra e nunca compreendeu. Pronto. Fim inglório do meu pseudo-conto.

Bem, fora de brincadeiras só quero mesmo dizer que contestar contra a campanha e afirmar que não tem nada a ver, é pura hipocrisia, caras pessoas, quando vocês escolhem a porcaria à boa literatura, que mesmo que queiram negar, existe, e é diferente. Se quem perde são vocês, isso é convosco, porque a vida é vossa e cada um é que decide o que quer ler. Agora vir com falsos moralismos, santa paciência. Comprem a vossa porcaria de literatura mas não sejam tão facilmente, e falsamente indignados, ao menos admitam. Porque a campanha da Fnac, comparada com os tops de vendas de livros portugueses, é das coisas mais inocentes alguma vez feitas no campo dos insultos aos verdadeiros autores e à verdadeira literatura!
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

A Nova Europa & O Velho Mundo

Acabei há pouco tempo de ver o documentários A Nova Europa de Michael Palin. Previamente já tinha lido o o livro associado ao documentário, livro esse que traz bastante mais informação acerca do assunto. Este livro e documentário são a consequência de uma viagem que Michael Palin fez através dos países emergentes da Europa de Leste que foram afectados pelas Guerras dos Balcãs e pela Cortina de Ferro Comunista.

Uma das coisas que mais me choca é constatar que aqui a uns meros milhares de quilómetros a vida seja tão diferente da nossa.

Por exemplo países como Sérvia, Croácia, Bósnia e todos esses países envolvidos na Guerra dos Balcãs e desmembramento da Jugoslávia, são países com marcas profundas da guerra e que ainda não recuperaram. É difícil de acreditar que já neste milénio esses países viveram guerras e muitas pessoas perderam as suas vidas nessas guerras, aqui bem perto.

Hoje em dia Dubrovnik é um dos pontos de turismo mais procurado na Europa, contudo se desviando um pouco do centro para os subúrbios da cidade ainda é possível ver marcas da guerra em casas destruídas e ruas abandonadas. Parece impensável que aqui perto muita gente tenha visto a sua vida ser destruída por uma guerra. A realidade das guerras é relativamente desconhecida e ignorada pela minha geração e por todas as gerações pós 74. Nunca tivemos de ir para nenhuma guerra e as guerras mais próximas que tivemos foram mesmo estas nos Balcãs nas quais Portugal participou através da integração de soldados portugueses nos contingentes da NATO. Mas a verdade é que essa proximidade não nos faz perceber absolutamente nada do assunto.
É duro ver no documentário como várias cidades com raízes medievais ou até mais antigas, foram destruídas sem qualquer escrúpulo. E o maior problema não são os edifícios. O que é certo é que viviam ali pessoas. Basta imaginar se a nossa querida cidade fosse atacada e tivéssemos de a abandonar com medo. Basta imaginar que um dia poderíamos ir na rua e ser baleados ao calhas só porque estávamos do lado errado da barricada. Basta imaginar que uma simples ida à rua constituía um risco grave para nós e para os nossos. Eu andava confortavelmente a fazer o secundário enquanto essas pessoas vivia num clima de terror.

Eu vivo agora num país em que há linhas de comunicação suficientes, há comida, há divertimento, há paz, há dinheiro e há oportunidades.

Certamente poderiam haver mais linhas de comunicação, mas nos países afectados pelo domínio comunista nem comboios em condições têm. Numa das capitais visitadas nem sequer organização do trânsito tinham. Numa capital. Não era uma cidade perdida no meio de uma montanha. Era como se no Rossio cada um andasse como lhe conviesse por uma estrada bastante esburacada.

Certamente poderíamos ter mais dinheiro e um país mais rico, mas pelo menos a população em geral tem dinheiro para comprar o essencial e ainda fazer uma extravagância ou outra de vez em quando, sendo que muitas pessoas fazem-nas todos os dias. Em alguns países do leste da Europa e ainda é preciso em muitos casos cultivar para viver.

Ainda se sofrem as consequências de um Comunismo destructivo e que distorceu a realidade. Países que receberam de herança grandes edifícios e grandes complexos quer servem para nada. Países que basicamente estão onde nós estávamos no pós 25 de Abril, com a diferença de algumas tecnologias que a custo s vão impondo.

Desde que vi este documentário tive a certeza de que não vivemos num país de terceiro mundo como muita gente diz. Não vivemos numa país pobre como muita gente diz. Após constatar a realidade de outros países europeus só fiquei com a certeza que o nosso país, apesar das dificuldades, está melhor, muito melhor do que os países referidos no livro. Não temos marcas de um passado recente incomensuravelmente hórrivel. Não temos edifícios destruídos pela guerra. Não temos edifícios megalómanos construídos pela sede de poder ditatorial, edifícios esses que de nada servem a não ser lembrar um mau passado. Não temos campos de concentração.

Não nos apercebemos que escapamos, pela nossa localização, a grandes convulsões e horrores. Quantas pessoas na Europa Central não sabem quem são os seus avós, pois os mesmos perderam a vida na 2ª Grande Guerra? Quantas pessoas não tiveram de abandonar o seu lar e a sua cidade, para fugir? Quantas delas conseguiram regressar? E se regressaram, o que encontraram para além de escombros? Quantas pessoas não foram levadas para campos de concentração com pouco mais do que uma esbatida esperança de escapar ao horror? Quando vi as imagens de Auschwitz em que havia uma vitrine gigante de cabelo, outra de malas, outra de sapatos... Tudo aquilo pertencia a pessoas que tinham uma vida, tinham ambições. Pessoas que ainda hoje poderiam estar vivas e serem importantes. Ou então simplesmente pessoas que amanhã iriam comprar algo de completamente desnecessário como um iPad ou uma PS3. Quando penso nisso acho muito triste. E acho que grande parte das pessoas não valoriza aquilo que tem.

A Nova Europa tenta agora unir-se para formar um bloco de países solidários, sem mais guerras entre eles. Mas este continente que foi outrora conhecido como a Velha Europa, faz parte de um, esse sim, Velho Mundo.

Recentemente foi inventado pela polícia indiana uma hipótese de assassinato planeado contra o escritor Salman Rushdie. Rushdie iria estar presente no Festival de Literatura de Jaipur e faria uma conferência. Contudo, e por razões que ainda não compreendi bem, a polícia inventou que três snipers haviam sido contratados e que estes iriam tentar aniquilar Rushdie.

Para além das razões, este tipo de actos nos dias de hoje é completamente hediondo. Como é que é possível condicionar a este ponto a vida de alguém? Rushdie é Anglo Indiano, tem as duas nacionalidades e ele afirma que Bombaim é a sua "cidade mãe".
Convem recordar que este homem esteve 10 anos escondido, por causa da Fatuah sobre ele em consequência dos Versículos Satânicos. Um mero romance em que era contada uma mera estória, foi o suficiente para que alguém tenha decidido que Rushdie devia de morrer. Em consequência, Rushdie perdeu basicamente a sua vida. Não mais pôde fazer o que quis. Conduzir o seu carro, ou estar em sua casa foram regalias que lhe foram retiradas, regalias às quais damos tão pouco valor. Aliás, para nós é um dado adquirido.

Após esses 10 anos Rushdie pode desde 1999 caminhar livremente, mas o alvo não sai das suas costas. Por várias vezes ele próprio fez retweet de mensagens ameaçadoras à sua pessoa. É incrível como é que alguém pode viver nessas condições hoje em dia. E é este o nosso Velho Mundo,.

Poderão dizer que isso é por causa dos extremistas islâmicos. Sim é verdade. Mas não somos nós no nosso dia-a-dias os potenciadores desta realidade?

Acontece por vezes haverem comentários a posts de blogs, em que os bloggers em vez de responderem normalmente pegam antes nesses comentários e distorcem e respondem em tom desdenhoso. E falo de comentários bem estruturados e com a sua lógica, não de comentários de insulto. Não são esses bloggers potenciadores da discriminação, neste caso de um user online?

Não são as pessoas no dia-a-dia potenciadoras desta realidade sempre que avaliam alguém superficialmente e difundem essa avaliação pelos seus amigos, que mais tarde eventualmente discriminarão essa pessoa?

A conclusão a que chego é que este Velho Mundo, em que coisas horrivéis acontecem, não é mais que a ampliação da realidade do dia-a-dia. Obviamente não são as pessoas que andam por aí nos blogs ou na rua os culpados. Os culpados são essas pessoas, que poderiam escrever num blog ou andar na rua, mas que têm posições de influência em que as suas estupidezes provocam graves consequências, que me leva a outra pergunta.

São essas pessoas com poder piores que as pessoas com as mesmas atitudes mas sem o mesmo poder?
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