Arte e liberdade

Após observar algum do trabalho referente aos movimentos artísticos da segunda metade do Séc. XX surgiram-me algumas questões com as quais não deixei de debater na última semana. Acerca das mesmas cheguei a uma conclusão que, basicamente, não é consensual.

Quando me deparo com uma pintura deste género  ver link não posso deixar de questionar o conceito de arte.

Pois então, o meu conceito de arte é muito simples. Não basta eu pintar um quadro para isso ser uma obra de arte. Nem basta a liberdade de o fazer para me considerar um artista.
É minha convicção que arte deve ser provida de sentido. Deve ser algo onde haja uma intenção declarada, ainda que discutível.
Há um conceito segundo o qual a arte deve ser algo que provoque uma reacção. Discordo, porque, basicamente, o mau gosto provoca reacção. É fácil provocar uma reacção através da decadência, por exemplo.

A arte deve ser algo que nos impressione, quer pelo tema, quer pela intenção, mas, também, pela técnica. Portanto se me disserem que Jackson Pollock é um artista eu respondo com "nonsense!".

O interessante neste tema, mais do que debatê-lo, será descobrir o que é que eventualmente mudou. O que é que mudou entre o Séc XIX e o Séc XX que nos deixou passar de uma fase tão espectacular como o Impressionismo para fases tão incipientes como Abstraccionismo e Minimalismo?
Não nos é possível dizer que tudo o que é feito dentro da Arte Moderna e da Arte Contemporânea seja mau, da mesma maneira que não podemos dizer que na Arte Clássica tudo era perfeito. Nada disso. Mas o que é certo é que um quadro só de uma cor ou um quadro com uma barafunda de riscos nunca seriam levados a sério noutros tempos.

A meu ver, isto relaciona-se com os factores de liberdade e aceitação. Na Idade Média pintar um quadro bom não era sinónimo de aceitação. Muitas vezes os próprios artistas não eram aceites devidamente e não passavam de mais um trabalhador pago para fazer um trabalho. Hoje em dia qualquer pessoa pode pintar um quadro. Principalmente se fizer parte de um grupo de amigos relativamente ligados às artes.
É fácil espalhar umas tintas e fazer uma teoria acerca disso e explicar. E depois aquilo é um quadro e não um monte de rabiscos. A liberdade de criação leva obviamente a que apareçam certas obras que, apesar de desprovidas de "sumo" artístico são consideradas obras de arte, se vistas de uma certa perspectiva. Há quem diga que quando fecha os olhos vê exactamente o que Pollock pinta nos seus quadros e, daí, é mesmo arte. Só que o problema é o seguinte, eu posso ver um cagalhão quando fecho os olhos. Isso faz uma foto de um cagalhão uma obra de arte?

Análise da obra de arte moderna é dispersa. Tudo serve de justificação para uma obra de arte. Se eu, eventualmente, fosse um grande artista e fizesse um quadro azul e castanho e dissesse que aquilo era a dicotomia mar/terra, provavelmente, as pessoas considerariam isso uma obra fabulosa. Se eu fosse Pollock e fizesse isso, toda a gente iria babar para cima. Isto é um estigma comum. A sociedade de hoje em dia reverteu o papel do artista e as consequências do seu trabalho. Ao passo que Miguel Ângelo poderia ver as suas obras recusadas por não atingirem os objectivos, as obras do artista contemporâneo não visam objectivos nem propósitos. O conceito de arte está associado o que cada um entende ou quer entender como conceito de arte.


Esta pintura é a Coroação de Napoleão por Jacques Louis-David. Encomendada por Napoleão a obra foi precedida de estudo por parte do pintor e aprovação por parte do Mecenas. É uma pintura grandiosa com quase 10 metros de largura. Aqui poderíamos traçar uma diferença importante entre antigamente e agora. Napoleão esquartejaria a sangue frio Jacques Louis-David se ele apresentasse isto: ver link
Mesmo que ele inventasse a mais fantástica teoria acerca do assunto.

Estou longe de afirmar que as pinturas dos movimentos artísticos anteriores ao Séc XX eram melhores por via da obrigação do pintor em seguir um caminho. Mas, por exemplo nesta pintura de Jacques Louis-David, é possível sentir a vontade de criar algo de imponente e poderoso replicando a imponência e grandiosidade do momento retratado.

Nas pinturas de Monet é possível sentir que o pintor está apenas a recriar algo de bonito como valia para ser representado numa pintura e reparem que é um pintor fora dos cânones clássicos. Mas há uma intenção de perpetuar a beleza de algo.


Da mesma maneira que se observarmos um quadro de Van Gogh podemos sentir um pouco os desvarios do pintor. Ver por exemplo Starry Night. É uma pintura que apesar de não ser tecnicamente convencional, emana algo de magnético que nos atrai para observar e tentar perceber o que se passa e o que se passou com o pintor.

O que passou a ser diferente entre antes e agora é provavelmente a aceitação e a liberdade de mostrar o que quer que seja.
Obviamente, em tempos antigos, muitos dos quadros que hoje em dia existem como obras de valor seriam nada mais do que material para acender fogueiras. Porque à face da sociedade não representavam aquilo que se queria ver. As pessoas gostavam era de ver grandes edifícios com proporções megalómanas. Hoje em dia não passa pela cabeça de ninguém construir edifícios da bitola do Mosteiro da Batalha por exemplo. Não faria sentido e seria considerado uma megalomania por uns e uma atitude antiquada por outros. Da mesma maneira que é complicado ver a arte voltar aos preceitos Clássicos presentes no Classicismo, Renascimento e Neo-Classicismo.

Essa impossibilidade de regressar a movimentos passados não é nada de grave. Mas é preciso encontrar um ponto em que se separe o trigo do joio. A proliferação de edifícios cúbicos, por exemplo, sem qualquer instinto estético ou coadunação paisagística não é boa. Ainda que em termos práticos seja mais lógico fazê-lo assim. Essa proliferação leva a um caminho de uniformização que é prejudicial. Daqui a pouco temos todos casas iguais e indistintas.

O advento da liberdade leva e excessos. Tão simples como observar países, após as revoluções, em descontrolo total durante anos governos a cair sucessivamente, povo sem saber o que pensar etc.
Na arte contemporânea penso que se passa o mesmo. É o advento da liberdade. Onde tudo é permitido. É possível urinar para cima de uma tela e expor (é um direito associado à liberdade). A sociedade de hoje em dia, ainda não está formatada (estará algum dia?) para que cada individuo pense por si próprio. Há sempre uma tendência definida por alguém (um alguém qualquer) que leva multidões a ver o que se passa.

Acredito que daqui a uns anos haverá uma filtragem daquilo que vale a pena ou não. Talvez quando aparecer alguém com um quadro azul marinho e disser que aquilo é uma homenagem a Moby Dick misturando o azul do mar com a brancura da baleia. Toda a gente ficará surpreendida e maravilhada e no fim ele dirá que quem pintou aquilo foi um trolha qualquer e que na verdade até acha bastante básico e toda a gente ficará a pensar na sua estupidez por ter simplesmente acreditado e apreciado algo de forma tão irreflectida e desprovida de individualidade. Talvez quando alguém fizer isso as pessoas se apercebam que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nem tudo o que está numa tela é arte. Nem tudo o que está num livro é literatura. Nem tudo o que está num disco é música.

Porque é que eu gosto dos Bon Jovi

São parolos. São popularuchos. São uns vendidos. Etc Etc.

Os Bon Jovi são uma banda para quem todos os argumentos contra servem. Há quem diga que não têm qualidade musical, que se vestem de forma estúpida, que só querem é vender discos e por aí fora num chorrilho de disparates que visa apenas apagar as evidências. E as evidências são simples. Os Bon Jovi são neste momento uma das maiores bandas do mundo, junto dos U2 (e reparem que eu nem sequer sou fan dos U2 mas sou razoável e sei ver que apesar de não gostar muito, a grandeza deles não se discute). Obviamente quando digo bandas não incluo artistas pop "a la" Madona e etc.

Àqueles que dizem que não tem qualidade musical. Obviamente quem ouve a It's My Life, pensa que para além de ser um grande hit, não é nada de complexo musicalmente. É verdade. O mesmo com a Livin' On a Prayer. Quem ouve o trabalho dos Bon Jovi por inteiro terá forçosamente outra percepção. Usando melhor o ouvido é possível constatar vários pormenores. Primeiro, a contrução das músicas, essencialmente ao nível de trabalho de guitarras são algo de fenomenal. O guitarrista, Richie Sambora, é um excelente guitarrista que nunca ficou a dever nada a nomes como Slash (que é curiosamente considerado um deus da coisa). Sambora à vista da maior parte dos fans de Slash é apenas um parolo. Há até um vídeo no Youtube que é Sambora vs Slash, onde alguém reuniu alguns solos dos dois numa espécie de frente a frente e nenhum fica atrás do outro. São dois excelentes guitarristas, apesar de não ser fan do estilo do Slash.
Os instrumentais dos Bon Jovi são normalmente bem conseguidos e bem estruturados. Ver músicas como The Next 100 Years, Dry County, Wanted Dead or Alive ou Keep The Faith (entre outras obviamente). São músicas em que é possível sentir a progressão e sentir a intensidade conseguida através da estruturação da música.

Resumindo, quem diz que Bon Jovi não tem qualidade musical é porque só ouviu aquilo que dá na rádio.

Àqueles que dizem que os Bon Jovi são parolos. Aqui têm uma fotografia relativamente recente.






Digam-me então o que é que há aqui de parolo. Casacos, camisola e calça de ganga. Sapatos pretos. Hmmm, não é muito parolo pois não?

O problema é as pessoas estarem presas na imagem dos anos 80 em que, à vista de hoje, vestiam-se de uma forma super-parola. Mas a realidade é que nos anos 80 todas as bandas de rock faziam isso. Já viram fotos dos Guns'n'Roses nos anos 80, quando o Slash dava concertos em cuecas e chapéu? E os Van Halen? E os Def Leppard? E os Kiss? E os Scorpions? E qual é a diferença? Não vejo ninguém a dizer que essas bandas são parolas. Nem vejo isso a ser argumento para as desvalorizar, por isso quanto ao argumento de parolice, estamos conversados.

São uns vendidos. Pois, ao menos os Bon Jovi nunca disseram que iam acabar para depois voltarem anos mais tarde, como os U2 (intencionalmente ou não). Os Bon Jovi, apesar da era grunge, foram uma das poucas bandas americanas que sobreviveram a esse tempo (onde começou também a proliferar o RAP) em que muitas bandas como eles foram ficando esquecidas.
Os Bon Jovi só têm três verdadeiros hits. Livin' On a Prayer, It's My Life e Blaze of Glory, sendo esta última fruto de um trabalho a solo do Jon Bon Jovi. De resto têm várias músicas que fizeram sucesso como Wanted Dead Or Alive, You Give Love a Bad Name entre outras que são músicas que ficam no ouvido mas que não dão para rotular como Hit, pois não são músicas convencionais.
Os Bon Jovi têm muitas "baladas". Mas pelo menos as baladas deles têm intensidade. Não são a chochice de um tipo ao piano a cantar como se chorasse.
Os Bon Jovi pegaram nos grande sucessos deles e lançaram um disco absolutamente fabuloso em 2003 chamado This Left Feels Right, onde compuseram novas músicas numa base mais acústica para esses sucessos. Um trabalho, que como seria de esperar, colheu muita insatisfação, mas eles fizeram-no porque era o que queriam fazer. Teria sido mais fácil lançar um greatest hits, que era o que toda a gente esperava na altura. Teria vendido certamente mais.

Quando eles lançaram um disco ao vivo não se limitaram a gravar um concerto de gala. Pegaram antes em várias gravações ao longo do tempo e lançaram um documento sobre a evolução ao vivo da banda com gravações desde 1985 a 2001.
Quando lançaram uma colectânea não se limitaram a pôr os sucessos e remixes dos mesmos. Lançaram antes uma colecção de 50 músicas que nunca tinham sido lançadas antes.

Em praticamente todos os lançamentos deles há uma dose de risco associada, que torna as coisas interessantes, mas que pode correr mal. Por isso, vendidos também não concordo.

São uma banda fenomenal ao vivo. Entre 2008 e 2011 foram em dois anos a tournée mais lucrativa do ano. Isto, porque dão excelentes concertos. Com divertimento e com intensidade. Sem coreografias. Nota-se que estão a divertir-se ao fazê-lo.

Eu gosto dos Bon Jovi porque são uma banda que me põe para cima. O conteúdo da maior parte das letras é optimista e, de certa forma, agressivo. É uma banda com a capacidade de me fazer sentir mais motivado para enfrentar as palhaçadas do dia-a-dia. E porque são uma banda orgulhosos deles próprios. Nunca foram amados pela crítica e no entanto insistiram e persistiram e conseguiram tornar-se numa das maiores bandas do mundo. Não renegaram o passado, por muito parolo que ele pareça.

Para finalizar, uma frase que resume sempre o que eu sinto quando os oiço.

"Why you wanna tell me how to live my life?"

Have a nice day ;)

Perdas de tempo

Pessoalmente a minha vontade de ser sociável e conviver com quem quer que seja, para além da minha namorada e da minha família, é cada vez menor.

Sinto-me excluído do rumo que tudo tomou ao longo da minha vida. Auto-excluido talvez.

A verdade é que não me lamento por isso. No fim de todos estes anos acho que fiz muitas coisas que queria fazer e sinto que tenho um rumo com o qual devo perseverar. E se isso não me levar a lado nenhum, bem, foi o meu rumo e não o rumo que outros me impuseram ou sugeriram.

Só há uma coisa que ainda não consegui e gostava de o fazer. Gostava que ninguém soubesse onde eu estou. Gostava de ser uma memória bem esbatida para as pessoas que conviveram comigo. Sinto que o passado, ou melhor, o grupo de pessoas e experiências partilhadas no passado, não são mais do que um fardo que carrego inutilmente e que volta e meia aparece para me assombrar. Aparece no sentido em que me lembro disso esporadicamente.

A verdade é que pouco me importa o que essas pessoas fazem ou dizem. Pouco me importa o que é feito delas e se eu tivesse alguma coisa a dizer a essas pessoas, diria que não me chateassem e que se me vissem na rua, não me interpelassem. Isto é bastante arrogante, eu sei, mas a verdade é que eu não quero saber. Já me bastou a desilusão de os conhecer. Já me basta a mágoa de ter desperdiçado o meu tempo com pessoas de merda.

Lembro-me de andar na catequese. Nessa altura fazia o caminho a pé e são cerca de três ou quatro quilómetros. Pelo caminho de ida e volta era comum eu ser bastante gozado e às vezes até agredido pelos meus supostos amigos. Por isso a minha mãe ia sempre esperar por mim para voltar para casa comigo a pé.
Houve um dia, em que esses parvalhões vieram ter comigo e disseram que não iam gozar comigo e íamos fazer as pazes. Eu na minha burrice disse que sim e quando saí disse à minha mãe que ela podia ir para casa sozinha que eu ia depois com eles. Apenas para dias mais tarde voltar a ser gozado outra vez pelas mesmas pessoas.
Ainda hoje lamento ter dito à minha mãe para ir sozinha. A ela que fazia o sacrifício de ir ter comigo para me proteger. E eu desdenhei disso pela promessa vã de que ia ficar em paz com aqueles burros de merda.
Eu sei que obviamente eu era inocente e sei também que a minha mãe já nem se deve lembrar disso. Mas eu lembro-me e sempre que me lembro sinto-me triste. Certamente houve outras ocasiões em que não estive com a minha mãe para ir fazer outra coisa, mas esta está na minha memória porque eu vi os olhos da minha mãe quando lhe disse que ia depois. Os olhos de quem sabia que eu estava a caminhar para o buraco outra vez.

Por isso essas pessoas que, hoje em dia, não me dizem absolutamente nada, bem podem ir todas para o inferno. Fazem-me um grande favor em não me falarem. Aumentam a minha qualidade de vida em não ligarem nenhum.

Ainda oiço por vezes aquela lenga-lenga de "Ah mas as pessoas merecem outra oportunidade". Só que o problema é que eu já dei segundas oportunidades a muita gente. Porque é que haveria de voltar a dar agora?

Sempre que me imagino (apenas a título hipotético) num desses jantares de reunião vejo-me completamente de parte. Não porque seja melhor que eles. Mas sim porque sinto que não teria nada para dizer para além do trivial. Do género "Fiz isto e isto, estudei aqui e ali, trabalhei ali e acolá e agora estou a trabalhar em além" e pronto, fim de discurso.

Dentro destas pessoas que eu digo que me fazem um favor em não me dizer nada, há pessoas com quem eu gostaria de re-conectar de certa forma. Mas hoje, chego a algumas conclusões que me fazem sentir parvo por chegar a elas apenas agora. Eu, desde que me lembro, tenho o mesmo número de telemóvel. E praticamente toda a gente tem esse número (ou tinha). Pelo contrário eu nunca tive os números de ninguém para além de uma pessoa que era a única com quem me dava consideravelmente bem. E dessa única pessoa foi-me dado um número de alguém próximo a essa pessoa, o que obviamente resultou em Kommunikation Kaputt. Mas essa pessoa ficou com o meu número. E porque é que nunca mais disse nada? Porque é que tenho de ser eu a fazê-lo?
Obviamente fui convidado para um jantar de reunião e não fui. Será que devia ter ido? Para ver uma pessoa só? Uma pessoa que nunca mais me disse nada?

Sim eu sei. Eu se calhar sou tido como arrogante e como tendo a mania. Mas acontece que eu não tenho culpa de saber mais do que os outros e não tenho culpa de gostar de ensinar coisas às pessoas. Não o faço por mal. Se calhar se alguém estiver a falar sobre astronomia sou capaz de referir que a terra está a +/- 150,000,000 de km do sol entre outras coisas que sei. E não o faço por arrogância mas sim porque acho interessante. Mas se calhar dá a aparência de eu ter a mania. A verdade é que não me importa. Se alguém, por causa de coisas como essa, me classifica assim, que seja feliz.

E bem, no meio disto tudo sinto que há uma parede invisível que dificilmente ultrapassarei relativamente a estas e outras pessoas. Sinto que vou ser sempre visto como alguém arrogante.

Hoje em dia, dá a ideia que se não és visto morres. Se não apareces nas saídas regularmente e se não convives regularmente, desapareces. Já ninguém quer saber. Às vezes chegam a dizer que eu é que os estou a desconsiderar porque não apareci. Esquecem-se que uma pessoa trabalha. Que precisa de descansar e esquecem-se que nem toda a gente gosta de fazer as mesmas coisas. Mas enfim, nada disto interessa muito.

Porque é que eu gosto dos Arcade Fire

Arcade Fire é uma banda relativamente recente para mim. Só há coisa de uns meses é que comecei a ouvir regularmente, apesar de os ter visto no SBSR '11.

Uma das coisas que salta à vista, nos dois discos que eu já ouvi, Neon Bible e Suburbs, é uma pessoalidade bastante profunda. Sente-se que há algo que é muito de quem fez a música. Há vários sentimentos diferentes, porém, todos eles ligados e lógicos dentro do conceito das músicas.

Se em músicas como Ocean Of Noise e My Body Is A Cage é possível ouvir um amor melancólico, em músicas como Intervention ou Month Of May é possível ouvir um grito de revolta bastante forte e profundo.

O que eu gosto em Arcade Fire são as letras. Identifico-me bastante com algumas e penso, muitas vezes, se quem as escreveu estará a pensar o mesmo que eu.

É, nomeadamente no último disco, abordada uma temática muito querida aqui do nosso blogue, que é a letargia de pensamento.

"So young, so young,
so much pain for something so young
I know it's heavy I know it ain't light,
But how you gonna lift it with your arms folding tight?"

Gosto bastante deste verso, pois é precisamente aquilo que eu penso frequentemente das pessoas. Em Portugal, as pessoas queixam-se e esperneiam e no entanto quando chegam a casa limitam-se a ir ao Facebook ou a ligar a tv e tudo passa.

Ocorre-me por exemplo o Acordo Ortográfico, como um caso gritante em que toda a gente parece estar contra, mas bem, maior parte das pessoas parece estar completamente resignada, até fazendo um esforço por o cumprir. Quantos jornais apresentaram colunas de veemente desacordo com esse embuste? E quantos é que não seguem já o dito acordo?

De qualquer das maneiras, voltando aos Arcade Fire que se viram no meio de fogo cruzado contra o Acordo Ortográfico, coitados, eu identifico-me bastante com esta crítica.

Acho paradoxal é que a maior parte da juventude oiça e pense que aquilo é espectacular. Se calhar se eu começasse a insultar as pessoas que por aqui passam a ler, pelo fim do ano, seria o melhor blogue português. Mas bem, parafraseando o John Cleese "The problem with some people is that they are so stupid, that they don't know how stupid they are". É a única explicação plausível que encontro.

Os Arcade Fire não têm pudor em criticar aqueles que são o seu público alvo. Pois o público alvo encaixa-se perfeitamente nesta descrição:

"All the kids have always known,
That the emperor has no clothes,
But they bow down to him anyway,
It's better than being alone"

Pois é, é mais difícil enveredar pelo caminho em que se diz não à mediocridade. Em que se diz não àqueles pequenos vícios que toda a gente comete em busca de um bocado mais de emancipação. Lembro-me bem que da primeira vez que me ofereceram um cigarro e eu recusei, fui gozado até casa por ser um betinho e ter medo. Na verdade e olhando para trás, quem tinha medo eram eles, todos a fumar às escondidas e a "travar" expelindo Ohs e Ahs  a cada acrobacia feita como se tivessem a ver um espectáculo de circo. Corajoso fui eu que disse que não, sozinho, a meia dúzia de adolescentes irreflectidos.

É mais fácil fumar umas ganzas não é? Fazer o que toda a gente faz e ser rebelde e fora da lei. É mais fixe e as miúdas ficam mais impressionadas. E toda a gente se junta para ver o cometer de uma ilegalidade, enquanto olham sobre o ombro para certificar que ninguém vê o enrolar da mortalha. Apesar disso, nessa altura ninguém me pressionou. Mas bem, senti-me diferente dos outros e isso nunca se reflectiu positivamente. Pois então eu era o certinho. Nunca me incomodou o rótulo, até porque, na prática, isso é bom. Mas bem, hoje em dia eu sinto-me um espírito livre com o futuro à frente e essas pessoas, maior parte delas, tem filhos (aos 20 e poucos anos diga-se), alguns deles mais do que um filho, casaram, trabalham e vão ao café à noite todos os dias socializar e ouvir as parvoíces que se dizem no café e enfim. Pensam em comprar um carro novo, porque o que têm (ai, ui) já tem dez anos.

É mais fácil agachar do que estar sozinho. É mais fácil dizer que gostamos de Radiohead, quando na verdade temos de ouvir e ouvir e ouvir até a música estar decorada, o que não quer dizer degustada (eu sei que nem todos os fans de Radiohead são assim, mas muitos são). É mais fácil gostar dos Artic Monkeys que são uma valente merda. È mais fácil gostar de tudo o que o Jack White grava sem olhar a mais nada senão o nome. Numa vertente mais pimba é mais fácil gostar do Michel Teló e da Lady Gaga. Sei lá, está mesmo à mão de semear. Ai de nós se vamos ao ginásio e não sabemos aquela versão do Teló em Drum & Bass (gargalhada interior) para fazer o step. Ou aquela música da Lady Gaga para fazer o Spinning à velocidade certa.

Em suma, é por isso que eu gosto dos Arcade Fire, porque eles não têm medo em criticar, até mesmo aqueles que gostam deles. Eu faço o mesmo, mas quando eu faço isso, maior parte das pessoas fica ofendida. Quando são os Arcade Fire é fixe e fecham os olhos ao facto de estarem a levar uma bofetada no orgulho.

Outra crítica feita à juventude é quando dizem:

"They seem wild, but they are so tame,
They're moving towards you with the colors all the same"

É verdade, toda a gente faz e acontece. E depois no momento... Tenho um colega de trabalho que acerca de uma formação gritou aos quatro ventos que não ia. Era como se lhe arrancassem um dente. E não dava satisfações à direcção e que nem à mulher dava satisfações. Quando eu, com muito sacrifício da minha parte, compareci à formação, lá estava esse meu colega, tipo cordeirinho. É fantástico, não é?

De qualquer das maneiras, eu gosto de Arcade Fire, porque sinto sinceridade. Sinto que eles exprimem o que sentem e não têm medo de serem censurados por isso. Acho até que eles preferiam não ter assim tanto sucesso. Mas isso já é uma especulação minha.

"I'm living in an age,
That screams my name at night,
But when I get to the doorway,
There's no one in sight"

É engraçado como são uma banda que, em termos sonoros, teria pouco para me agradar. Mas a verdade é que a conjugação de sentimento, com as letras e a intencionalidade faz deles uma daquelas bandas que me dá arrepios em certas músicas.

Um Cemitério Chamado Internet

Hoje em dia, a Internet é uma ferramenta, por assim dizer, que fervilha de informação. Estão coisas a acontecer em todo mundo e os updates, de diferentes tamanhos e importâncias, são algo constante. Nem podemos imaginar quanto.

Contudo, há um lado que, na minha opinião, é bastante obscuro acerca da Internet. Esse lado é aquele em que há um desaparecimento que nós nunca poderemos explicar.

Mais concretamente, blogues, páginas de Facebook, Hi5, MySpace etc etc. Todo o tipo de sites onde há uma pessoalidade associada. Onde é um indivíduo que actualiza a página, com mais ou menos frequência, com coisas de maior ou menor interesse.

Vemos por exemplo o Facebook que as pessoas actualizam obsessivamente a toda a hora e a todos os minutos. Onde coisas tão importantes como o seu casamento e coisas tão irrelevantes como uma ida ao ginásio, são dignas de relato. Devo dizer, que esta necessidade é a meus olhos absurda. Estarmos constantemente a afirmar ao mundo que fizemos isto ou aquilo, que fomos jantar com não sei quem, que somos amigo de não sei quantos, que frequentamos taberna X e gostamos de sitio Y. Toda esta informação é, a meu ver, exagerada e desnecessária. Até porque, hoje em dia, provoca-me cada vez mais confusão quando as pessoas se referem a outras como bisbilhoteiras e coscuvilheiras, porque afinal se disponibilizam tanta informação assim, de que é que estavam à espera? Isso já nem é bisbilhotice, mas sim conhecimento ocasional, porque se eu vejo algo é natural que depois me lembre disso.

Mas bem, de volta à vaca fria.

Sinto-me sempre bastante estranho quando vejo esse tipo de sites pessoais sem qualquer actualização há uma montanha de tempo. Há paginas sem actualizações há um, dois, três, sete, oito anos... É muito sinistro, porque quando eu visito uma dessas páginas estou, inconscientemente, a criar um laço com a pessoa que a actualiza/actualizava, para bem ou para o mal. O facto de uma página não ser actualizada há muito tempo leva a uma pergunta, que se calhar pouca gente faz, mas que eu faço.

O que é que aconteceu a esta pessoa?

Há páginas que apesar de não serem mais actualizadas, têm um último post a dizer que não vão escrever mais, ou que vão passar a escrever noutro sítio, e nessas não há esse sentimento. Mas há sites que tinham actualizações diárias que não são actualizados há anos o que leva a uma sensação estranha de desaparecimento. Pode ter acontecido imensas coisas a essas pessoas. Certamente algumas morreram, outras simplesmente deixaram de ter tempo para isso, outras abriram os olhos a uma nova realidade etc etc. As razões são inúmeras, mas o facto é que é estranho.

Não posso deixar de recordar quando há uns anos um utilizador de um fórum que eu frequentava morreu num acidente de automóvel. Eu falei ocasionalmente com esse utilizador e até simpatizava com ele, apesar de para mim, aquilo não ser nada mais do que uma relação de circunstância. Quando ele morreu lembro-me bem de ter ficado bastante assombrado pela notícia, apesar de nunca o ter visto. Isto já foi há uns anos e a página de perfil dele continua disponível nesse fórum, apesar de já terem passado alguns anos. E isso é muito estranho. Pois nessa página aparece qual foram os últimos comentários, feitos dias antes de falecer. Isso é extremamente estranho

Porém, dirão, com razão, que nem toda a gente que deixou de actualizar as suas páginas morreu.

É verdade e isso talvez tirasse algo ao sentido do meu post.

Mas também é verdade que se eu deixasse de actualizar este blogue, para além das entrevistas, este blogue iria ficar com o cemitério do meu "eu" de hoje em dia e dos últimos quatro anos. Da mesma maneira que algumas páginas de Hi5 são o cemitério de muitas pessoas, que hoje em dia, apesar de serem os mesmos corpos, não são as mesmas pessoas. Mudaram, para melhor ou pior, mas mudaram e esses Hi5 e Myspace não são nada mais do que uma campa daquela pessoa. Fica ali sepultada a nossa identidade de tempos idos. Porque escreveram lá as suas alegrias e tristezas. Conheceram boas e más pessoas. Reagiram às músicas que ouviram, aos livros que leram e aos filmes que viram. Disseram parvoíces e escreveram piadas etc. Eu quando vejo comentários meus em fóruns de há cinco e seis anos, até reviro os olhos. Aquele João não é este João. Se eu pudesse apagava esses comentários, porque hoje em dia em nada reflecte o que eu sinto ou penso. Reflecte o que o João da altura pensava e esse João já não existe. Existe outro, da mesma forma que o João que começou este blogue em 2008 já não é o mesmo que vos escreve em 2012 e não será o mesmo em 2014. Deve-se notar que havendo continuidade do blogue, é possível verificar uma evolução, uma mudança da pessoa, e daí não é estranho porque, obviamente, isto, levado à letra, quer dizer que desde que eu escrevi letra nesta mesma frase eu já não sou a mesma pessoa.

Havendo uma quebra torna-se estranho. Ainda hoje passei por um blogue de um aspirante a músico que em 2010 postara umas coisas que tinha feito e o último post era a dizer que iria escrever num outro blogue, blogue esse que já nem existe, e ali está uma página em que ele tem as séries que estava a ver, os discos que estava a ouvir, os livros que estava a ler etc. Obviamente hoje, dois anos volvidos, esse aspirante a músico deve estar vivo, algures sem qualquer preocupação com o blogue e se calhar até é mesmo músico ou então tem um bom ou mau trabalho. Mas a sensação com que se fica é a mesma quando deixamos de ver alguém que costumávamos ver e quando nos apercebemos passaram-se anos sobre isso. .

A Internet é um cemitério pois é a campa de muitas pessoas que já não existem mais. Não só fisicamente mas também em termos de personalidade. E se imaginarmos a quantidade de pessoas que deixou páginas para trás com informações... Devem ser milhões de páginas. De crianças que já são adolescentes, de adolescentes que são adultos, de filhos que já são pais etc.

É um cemitério de uma época da vida das pessoas. De um tempo em que pensaram e fizeram certas coisas que já nem se lembram, mas que estão por aí espalhadas.

Não há nada de mal, mas, para mim, é certamente muito estranho.

Opinar ou não opinar.

Por várias vezes, leio que é importante ter uma opinião. É importante exprimir a opinião. É importante cultivar-nos e que não há uma opinião errada ou mal dada. Da mesma forma, que apenas existem textos bons e menos bons.

Não sei se concordo. Aliás, sei que não concordo, pois não sinto que tudo o que vem à rede seja peixe. Acho que é, a meu ver, comum o mau texto e pergunto-me se essas coisas, mal escritas e mal estruturadas, que nada trazem de novo ao mundo, merecem a sua existência.

Não me sinto mal em dizer que publicar livros do José Luís Peixoto é um desperdício da vida de uma árvore. Porque, na minha opinião, são documentos desprovidos de capacidade e de qualidade. Desprovidos, portanto, de mérito, que, supostamente, seria algo de muito importante aquando da consideração de um livro para publicação.

De qualquer das maneiras, o que me prende mais o pensamento neste momento, é a ideia de que devemos escrever e expor e partilhar as nossas ideias. Se bem que tenha este blogue razoavelmente activo, nem sempre sinto vontade de exprimir opiniões. Na verdade, cada vez menos. Sinto que hoje em dia as pessoas perderam uma coisa muito importante. A objectividade. Sinto que, cada vez mais, as pessoas avaliam as coisas subjectivamente, do seu ponto de vista e egoísta e do impacto que terá na sua bolha, a que chamam mundo.

Gostaria de dar um exemplo, mas a verdade é que nada me ocorre que não particularize alguém e não me apetece entrar na palhaçada de exemplificar este ou aquele.

Contudo, o que eu quero dizer é que há muito poucas coisas que sejam verdades absolutas. Talvez não haja nenhuma. Cada vez mais, convenço-me de que o mundo é absurdo e a existência humana é desprovida de sentido. Estou a ficar um bocado absurdista, talvez.

A verdade é que o facto de não existirem verdades absolutas, leva a que, eu ou outro qualquer, tenhamos percepções diferentes das coisas. O que, em si, não representa problema nenhum.

O problema vem, quando se falha na interpretação de alguma coisa. Quando alguém fala para mim, eu tenho de tentar perceber o que é que essa pessoa está a tentar dizer. Porém, hoje em dia, sinto que esse princípio de querer entender mudou. Sinto que, a maior parte das pessoas, interpreta consoante calha e consoante lhe dá jeito, desenquadrando a mensagem original, por vezes, mesmo distorcendo, e partem, então, para uma interpretação subjectiva a partir da qual se satisfazem ou "edificam" a sua resposta.

Obviamente, isto não se aplica a comunicações do género "Passa-me aí o pão, faz favor". Só de pensar nisso imagino alguém a pensar "Ahah, pediste-me o pão, mas eu vou passar-te é um talhe!", enquanto exibe uma expressão traquina com os dentes superiores à coelho.

Isto aplica-se à emissão de opinião. As pessoas parecem ser cada vez mais do género: "Bem-vindo, obrigado pela visita, e eventual comentário". Depois fazemos um comentário, com apreciação negativa e a reacção é de mandar calar e bloquear acesso etc.

Talvez o ideal fosse as pessoas contra argumentarem com os seus argumentos, usando as suas próprias palavras, ao invés de recorrerem ao que o outro disse para, através de distorções e interpretações subjectivas, encontrar brechas que possam tentar fragilizar.

O que ainda me aborrece mais, é que as pessoas fazem isso, mas até isso fazem mal, na maior parte das vezes. A capacidade de expressão da grande parte das pessoas parece estar, cada vez mais, desabilitada. A falta de habilidade para construir um argumento é gritante.

As pessoas deviam sentir prazer no momento em que escrevem ou falam com alguém, principalmente em caso de discordâncias, pois é nessas alturas que o nosso cérebro devia estar mais estimulado, para responder e preparar um argumento sólido colocando dificuldades ao nosso "adversário" para contrapor.

Sinto que se foge às discussões. Às boas discussões em que duas pessoas esgrimem argumentos, defendendo aquilo em que acreditam. É mais fácil virar a cara e espalhar por aí que somos estúpidos porque demos uma determinada opinião.

Enfim, nunca me preocupou o número de leitores que tenho, até porque a estatística do blogue para mim é uma mera curiosidade. Mas por vezes penso se valerá mesmo a pena continuar a escrever (aqui) ou a falar (em todos os outros lugares), porque sinto sempre que estou a correr contra um muro de parvoíce e inconsciência com o qual nada se aprende.


P.S - Eu sei que falo da falta de discussões e que a caixa de comentários deste blogue está desactivada. Contudo, quando fechei os comentários deste blogue, devia ter uns cinco comentários em cerca de cem posts. Quatro dos quais para dizer estupidez sem lógica e sem argumentação. Portanto se alguém tiver algo a dizer é só usar o mail disponibilizado neste blogue. Obrigado.

TasteOfOrange10

Olá.

A partir de hoje o nosso blog tem um twitter. Se quiserem podem seguir, contudo, apenas criámos o twitter porque às vezes lembramo-nos de uma frase ou de uma citação, que até nos apetece partilhar, mas não o suficiente para escrever um post, e para esse efeito o twitter é muito útil.

Cumprimentos a todos e obrigado.

Os dias que nada significam

Em duas semanas tivemos dois feriados importantes. O 25 de Abril e o 1 de Maio.

O dia 25 de Abril tem, ou deveria ter, um significado muito especial para todos os portugueses. Foi o dia em que o povo foi libertado de uma ditadura que, apesar de boas finanças, não procurou avanço nem condições melhores para o seu povo.
O Movimento das Forças Armadas deve receber todo o mérito por esta acção. Presto-lhes aqui a minha homenagem e admiração por isso, a todos os Capitães de Abril e a todos os que não sendo Capitães contribuíram para o acontecimento.
Contudo estes protagonistas por uma razão ou outra rapidamente esqueceram o porquê de terem feito a revolução, pela qual todos os portugueses devem estar gratos.
Ao recusarem-se comparecer nas cerimónias do 25 de Abril obliteraram a liberdade porque tanto lutaram.
Esta recusa, em protesto pelas políticas do governo, é um erro lamentável pela parte dos Capitães de Abril e pela parte de algumas personalidades, nomeadamente Mário Soares e Manuel Alegre, que por não gostarem das políticas do governo decidiram não comparecer.
Não está em causa a razão ou não destas não comparências. Está em causa o facto de este grupo de pessoas acharem-se donas da verdade democrática.
O que está em causa é precisamente os direitos pelos quais os Capitães de Abril arriscaram as suas vidas. A liberdade. A liberdade de um povo que elegeu um governo e que agora para o bem ou para o mal está a lidar com as consequências. Mas há algo que é preciso não esquecer. Este governo, parecendo que não, foi endossado pelo povo. O povo que mais ordena, supostamente.

Contudo os Capitães de Abril, Mário Soares e Manuel Alegre recusaram-se a comparecer manchando a celebração do dia, que é o mais importante, e não passando de um fait-diver político do qual já ninguém se lembra. Esquecendo-se que lutaram pela liberdade do povo de eleger os seus representantes e lidar com as suas acções.

Hoje foi o dia 1 de Maio. Um dia de grande importância para o trabalhador, dado que, é a sua celebração.

Contudo hipócritas como Jerónimo de Sousa, João Proença e Arménio Carlos criticam hoje a cadeia de supermercados Pingo Donce pela sua decisão de lançar hoje uma promoção estrondosa onde quem levasse mais de 100€ em compras pagaria apenas metade.

Criticaram dizendo que o Pingo Doce se aproveitava do dia 1 de Maio para subverter o seu sentido e porque o Pingo Doce obriga os seus colaboradores a trabalhar. Pois bem.

Estes senhores comeram onde? Num banquete de Primeiro de Maio? E quem fez a comida? E quem serviu à mesa? E quem tratou de limpar as mesas? E quem tratou dos palcos? E quem tratou do som? E quem é que está arrumar os palcos agora? E quem é conduziu toda a gente a Lisboa para a manifestação? E quem é que recebeu muita gente nos hotéis? E quem é que limpou os quartos para que os trabalhadores em feriado pudessem descansar?

Será que foram Oompa-Loompas?

E quem é que foi fazer compras nesta promoção? Não terão sido muitos desempregados que têm de poupar todos os cêntimos? Ou também foram Oompa-Loompas?

E por falar em Dia da Liberdade, não tem o Pingo Doce liberdade para abrir quando quiser e fazer a promoção que quiser e como bem lhe apetecer?

É por estas e por outras que estes dias que muito significado deviam ter, pouco significado têm.

Estado de choque

Hoje só quero dizer que a estupidez e a cobardia das pessoas é fascinante.

É de lamentar que hoje em dia a palavra e honra de um individuo não valha nada. Para mim vale, mas devo ser dos últimos a sentir isto.

Enfim, era só isto que queria dizer.

Interview: Black Box Revelation

The Black Box Revelation (BBR) gathered in 2005 and became known at first in 2006 when they reached the second place in the Belgian band contest Humo Rock Rally.


(Nota para leitores portugueses: Podem ler esta entrevista em português AQUI.)  

In 2007 they released the EP Kill For Peace (And Peace Will Die) and started playing regularly live shows in Belgium. In 2007 they also released their first LP, Set Your Head On Fire. A presentation of a band featuring pure, simple and fun Hard Rock. I Think I Like You, Love, Love Is On My Mind and Never Alone Always Together were some of the singles that came out of that first album.

BBR made some tours as supporting act with bands like dEUS, Iggy Pop, Eagles Of Death Metal, Raveonettes and others, also playing in some important Summer Festivals as Werchter, Pinkpop and Pukkelpop.


2010 saw the release of a new record entitled Silver Threats, showing psychedelic influences in songs like Love Licks and keeping the Hard Rock vein in songs like High On A Wire.

On February 2011 BBR released a single in a heart-shaped red vynil. The single was Lust Or Love, a song that isn't featured in any of the records of the band.


Rattle My Heart was released in June 2011 and was the single of the fortcoming album My Perception, their newest one, which was published in September 2011. A very consistent album (maybe the more consistent of the three) with a lot of ambience methamorphoses, that promise to make you listen again and again.

What more can we say? Jan Paternoster is the guitar player, singer and songwriter, and Dries Van Djick is the drummer. Yes, you read that right, they are only two, however, and despite being influenced by bands like The White Stripes and Black Keys, BBR deconstructed the idea that being a two piece band means having a thin and (too) simple sound. BBR songs are well constructed and sound thick and anyone who listens will be convinced that they are a "complete" band. BBR is a band willing to cross barriers. Tours with other bands through the USA have granted them good reviews and acclaim from the American audience, rare thing for minor European bands mainly coming from outside of the UK.

Assuming themselves as a genuine live band, BBR don't lack energy whatsoever and they look like they want to conquer the world. And Jan has only 22 and Dries 20. Fantastic, right?

For more information about BBR go to the Official Site, and to see their videos go to their Official Youtube Account.

It is with pleasure that we present you here on The Taste Of Orange the first and exclusive interview to a Portuguese site, in English so everyone can enjoy.



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Taste Of Orange: According to the CD's leaflets, Jan writes all the songs, so how is the creative process when the two get together to actually build the song?
Jan Paternoster: As you mentioned already I'm the one who comes up with new songs in demo version. I record new ideas, vocals, guitars, riffs, whatever, .. on electric or dobro guitar via a 4 track cassette recorder. Once I have enough bricks to build our wall of sound, I go to Dries and most of the time I just try to introduce those new tunes without mentioning them. Our rehearsals mainly exist out of long jams and improvisation. In between I shoot some new tunes or ideas in there and we just see what kind of results it brings. When we like it, it most of the times turns out into a very long stretched jam. It's all about gut feelings and 'magic' then.

TO: What’s your main inspiration when writing songs? Do you get it from books, real life or any other thing?
J.P.: I always get inspired by loads of things while traveling. You see so many places and meet new people, and if we compare our lives to that of our friends it just differs so much. Love and Death are the two most fascinating things in life. Without life we couldn't even die or make love, haha. Fear can be an influential factor in writing as well, mainly cuz those themes are all so fascinating. While writing our new album 'My Perception' I got influenced by a lot of art as well. In particular by the New York artist Jean-Michel Basquiat. You'll see the same themes coming back, and I just love to try translating paintings into words. Exactly the reverse of what happens with books, where the reader tries to translate words into fantasy and visuals.

TO: Since most of the generally heard bands are from the UK and USA, being from Belgium do you feel any difficulty taking your music abroad? Why?
J.P.: Since English isn't our mother tongue there will always be a small language barrier. But this doesn't have to be a negative thing. We're proud of our music and we've played loads of concerts and tours for English native people already. Reactions couldn't be better, Americans like it so much we almost can't believe it. We toured the States with Liam Gallagher's Beady Eye, toured with Eagles of Death Metal, and are going back to the States next month with Jane's Addiction. I bet people's reactions are different then when they hear American bands, it might give 'em a more exotic feeling, which they like in a more curious way I guess.

TO: In 2008 you toured with dEUS. Do you feel influenced by those 90's bands, dEUS, Evil Superstars and others, that took Belgian music throughout Europe?
Dries Van Djick: We like dEUS and Evil Superstars, but we're not really influenced by Belgian bands, but we are influenced by some bands like Nirvana from the 90's. We're really thankful that dEUS took us on tour with them, this was the first European tour for us. In general we're more influenced by bands from the sixties and seventies like The Rolling Stones and Neil Young.

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TO: What made you begin a band without any other instrument besides drums and guitar?
D.V.D.: Before Black Box Revelation we were both playing in a four piece band with Jan's younger brother and another friend. The genre was rather pop rock. After a while, Jan wrote a song ("Love In Your Head" from our first album "Set Your Head On Fire") which didn't really fit with the music of that band so we tried that one with just the two of us, and it worked out well! After writing more bluesy songs and some rehearsals we decided to go on with the two of us and started a new band: Black Box Revelation.

TO: Do you feel any restriction in songwriting and construction because of the limitation to those two instruments?
D.V.D.: Not at all, being just the two of us gives us a lot of freedom! When we're jamming we don't miss any other instruments. With Jan's three amp's and different guitar pedals, he brings a lot of dimensions into solo's, riffs and gives an extra boost in certain parts. I'm always trying to combine a groovy pattern, with my two floor toms and tom instead of the basic hi-hat, snare, kick beats, in that way it replaces a bass guitar. While recording we do use some overdubs, for example in "Sealed With Thorns" there's a small piano part that fits so good at that moment. Overdubs are making some parts more interesting for sure, but you won't miss those when you see us live!

TO: How do you feel when playing live and what do you like most about it?
D.V.D.: It feels great to play live shows! We agree that we're more a live band, and we really convince people when they see us live, because when people hear our albums, most of them can't believe we're a duo. What we really love about it is the interaction between us and the crowd, especially in the smaller venues. We always give as much energy as we can, once we see the crowd is getting wilder and crazy, it gives us even more energy. Sweaty basements, always fun! On the bigger stages it's quit different. Then it's more the huge crowd which gives us adrenaline and a lot of energy.

TO: Do you feel amazed when you look back and realise you already have three well accomplished albums under your belt? Especially when you are such young people?
D.V.D.: We never really think about it because we're always on tour, making new songs, videoclips,... But sometimes when we do think about it we're proud of what we've already accomplished the past six years. Our ambition is always growing. Now we're touring a lot in the States, It's amazing that bands like Beady Eye and Jane's Addiction want to take us on tour with them. Our ambition: Beady Eye and Jane's Addiction supporting for BBR:)! When an album is finished and we're back home, putting the record on is really satisfying. That moment we're really proud and happy with our brand new album!



TO: Do you have any influence on the video’s conception or you just let the directors take care of it? Because they are very cool, being quite different from the usual.
J.P.: I really like this question! There indeed is a big evolution in our videos. The first ones, from 5 years ago till a year or two ago, were always made by different directors, most of 'em by Joris Rabijns. We're always really excited to work on new videos, which goes along with a close involvement. We created the idea together with the director, giving him enough room to work it out in his own personal way. After making a dozen videos with directors we wanted to try make them ourselves. We had loads of time to see their working methods and ask them tips and tricks. Lust or Love was our first self directed video. We made it with my girlfriend and a couple of friends. Amazing what possibilities you have with those current DSLR cameras. We make all our videos ourselves now. For Rattle My Heart we worked together with fashion designer Walter Van Beirendonck, and for My Perception we had a cooperation with FC Bergman, a Flemish theater collective. When you write a song, you have certain visuals in your head and we try to bring those visuals to the listeners in our videos. There's no one else who can achieve visuals so close to your own fantasy than yourself. That's probably the reason why our videos differ so much to usual videos made by directors. I guess we look at it in a more musical way than non musicians.

TO: It’s going to be Black Box Revelation for life? Or are you looking forward for different projects?
D.V.D.: For now it's only Black Box Revelation. Maybe someday, who knows what the future brings? No plans yet! We just love what we're doing: making music, recording albums, touring around the world. We're working hard to get our name out there. We like jamming with some other musicians but in BBR we will always stay the two of us.

TO: Individual question. Jan, what or who influenced your guitar playing style and guitar choice?
J.P.: My main influences are blues singers like Howlin' Wolf, R L Burnside, Muddy Waters, Johnny Winter etc. Next to those Mississippi legends I really dig the early Stones and especially Neil Young on his 'On The Beach' record. I guess the reason why I like all those guys is cuz they all play their guitars with so much attitude. It's not about the most fancy solo, but about the way they put soul and freshness in their music. It's all about attitude!

TO: Dries, what or who influenced your drum playing style?
D.V.D.:John Bonham is my biggest influence, the way he controls his drums, the way he grooves, amazing. Also Dave Grohl really inspires me. When I was young, I was always watching video's where he's hitting his drums so hard. I guess that made me do the same. The drummer from Yeah Yeah Yeah's also inspires. He also use his toms a lot, he created his own sound.

TO: Do you like to combine different guitars, different amplifiers and effects in search of a different sound or is it just always basically the same?
J.P.: I basically use 1 specific setup, a rig of 3 guitar amps running through 3 different effect channels on my pedal board, all controlled by foot and my guitar.. I must say that setup has changed a lot over the years. Always in search for a better or thicker sound. It kinda evolved together with my way of playing the guitar and playing concerts. More experience enriched my knowledge on effects and amps. Not that I am a guitar geek, not at all. Once I found that right sound I stopped looking for more. Funny thing, cuz the new pedals and amps keep on coming. We played together with so many bands already and there's always something that attracts your attention like a new sound or pedal.. In the early BBR days, I just played a Chinese version of the AC30, nothing more, no pedals, straight plugged into the amp. Nowadays, it's a 60ies Selmer Zodiac Thirty and two Dr. Z's, running through a pedal board with a dozen of pedals. Funny how things evolve, isn't it? Speaking of guitars, I just LOVE guitars. Always up for a new one.. I mainly play James Trussart's guitars, a French luthier living in Los Angeles and a good friend of mine. He's actually building a crazy new model for me right now, and I can't wait to play it.

TO: Having a band and published albums was a long-awaited dream come true or an unexpected and sudden thing?
D.V.D.: For me, playing in a band and playing shows was absolutely a dream coming true. I started playing drums when I was seven years old, from that moment I knew what I wanted to do the rest of my life. We started playing together when we were 12 and 14 years old. From the beginning, it was our dream to go on tour! Two years ago we headlined the marquee at Rock Werchter which is the biggest festival in Belgium. Seven years ago we couldn't even imagined this.


TO: How have you come up with the idea for the Lust or Love song, video and heart-shaped vinyl? Because it’s an unusual release.
J.P.: I'm really happy this release drew your attention. The song was recorded during the 'Silver Threats' sessions, but we didn't want to put it on the album cuz of the different vibe. We thought the theme of this song was great to release it on Valentine's day. Wouldn't you like to get a Valentine's gift like that from your girlfriend? That's why we pressed the vinyl heart-shaped. Super cool isn't it? It was the perfect opportunity for us to try shooting the video ourselves. A no-budget production which is one of my favorite BBR videos.. The blue beard idea in the video came from my girlfriend, referring to the Bluebeard fairytale. What a hassle to paint that beard blue, hahaha. We had great fun shooting the video, but it was super cold. I even remember it was the coldest night of the year.. about - 15 degrees celsius. But hey, we needed the snow landscape!

TO: Are you planning on playing in Portugal someday?
J.P.: We'd LOVE to play Portugal this summer. We've been touring around Europe for 5 years now, played great shows in nearly every European country except Portugal. We had super cool shows in Spain with the Raveonettes. We just can't wait to play some Portuguese festivals. That would be so exciting. I think the Portuguese crowd would love our music, especially live on stage.

The Taste Of Orange would like to thank The Black Box Revelation for giving us this great interview so kindly. We would also like to give our thanks to Christen for allowing the contact with BBR and for the photos. Thank you very much!


Limited Edition of Lust Or Love as referred in the interview, offered to João X by his girlfriend :)