Porque gosto de Rurouni Kenshin (Samurai X)?

Uma nota prévia:

Este blog não tem tido a regularidade (que nunca foi muita de resto) que teve em outros tempos.

Reflectindo, essencialmente tenho escrito aqui sobre coisas variadas e essencialmente criticado a hipocrisia e falta de senso comum das pessoas de Portugal.

Contudo, cada vez mais me falta a vontade de me preocupar com isso, porque, na verdade, quem é que quer saber do que eu tenho ou não para dizer? E, por outro lado, sinto cada vez menos necessidade de vir aqui proclamar a minha discordância ou opinião.

De qualquer das formas, isto é apenas uma pequena nota para qualquer leitor deste blog que eventualmente o acompanhe.

Quanto à critica. Há várias criticas que me apetecem fazer. Mas na verdade, como descrito acima, falta-me vontade de falar dessas coisas. Parece-me uma perda de tempo desnecessária.

Posto isto, passo à razão de ser deste post.

Porque gosto de Rurouni Kenshin? Há tantas razões...



Rurouni Kenshin é um animé, relativamente antigo (1996), mais conhecido para estes lados como Samurai X. Foi transmitido na TVI (ou se calhar ainda era a 4 na altura). Na altura da transmissão eu devia ter uns 11 anos, talvez, e lembrava-me vagamente dessa personagem que era um samurai chamado Kenshin e que tinha uma cicatriz em forma de cruz na face. Até há pouco tempo era apenas uma memória vaga, mas que sempre relembrei com algum carinho porque realmente gostava dessa personagem. Contudo, recentemente, a minha querida Efémera, falou-me de um animé sobre um samurai que, pela descrição, me chamava alguma atenção, toda ela confirmada pelo nome. Rurouni Kenshin. Foi assim com alegria que vimos os dois este animé de 95 episódios que passam a voar. E assim também relembrei o porquê do meu carinho pela personagem.

Este animé conta a história de um samurai que viveu durante o Bakumatsu (período correspondente à queda do Shogunato e passagem ao Império Meiji no Séc. XIX). Bakumatsu foi um período de lei marcial em que era cada um por si, basicamente. Kenshin era um hitokiri (traduzido no português como esquartejador, mas na verdade seria mais um assassino profissional) temido pela sua habilidade de espadachim e conhecido como Hitokiri Battousai (Battousai vem de Battoujutsu, que é o ataque  ao desembainhar a espada, no qual Kenshin é especialista). O animé passa-se 10 anos depois do Bakumatsu, no período Meiji de paz e Kenshim é um rurouni (wanderer em inglês que nas nossas traduções era vagabundo). É contudo um rurouni que tem um compromisso de não matar, após o período sangrento que havia atravessado, e que se comprometeu a defender as pessoas com que se cruzasse usando a sua espada com gume invertido (sakabato).

É neste contexto que se desenvolve o animé. Kenshin encontra pessoas das quais fica amigo, contudo no seu coração permanecem todos os problemas de ter sido um assassino temido durante o Bakumatsu. Tão característica cicatriz na cara, faz com que o seu passado nunca seja esquecido, aparecendo, sucessivamente, adversários com sede de derrotar o lendário hitokiri. O enredo desenvolve-se de forma bastante interessante, mas não vou descrever aqui porque vocês podem querer ver depois.

Apenas vou dizer que o que me faz gostar bastante deste animé são várias coisas.



A personalidade de Kenshin Himura é algo que me comove profundamente. Aqui está alguém que percorreu um caminho de sangue, que era um espadachim formidável e o mais temido, que deixou um rasto de sangue e que desapareceu após o Bakumatsu. Apesar disso é a personagem mais amável, razoável e compreensiva. Não obstante todos os conflitos entre ser um assassino ou não e todos os problemas e oportunidades que o seu passado lhe apresente, ele mantém-se fiel ao seu voto. Não matar. A generosidade desta personagem é enorme e, quando vejo, só tenho vontade que o deixem em paz e parem de o atormentar com o passado que já é de si um tormento constante.

A camaradagem neste animé é algo que também me satisfaz bastante. A forma como a lealdade é um princípio tão importante e tão indispensável para algumas personagens que se mantêm juntas, aconteça o que acontecer.

De entre as personagens há delas simplesmente apaixonantes, para além do próprio Kenshin.

Kaoru Kamiya, é a principal companheira de Kenshin durante o animé e a sua determinação junto com a sua atitude um tanto ou quanto desajeitada fazem com que esta seja uma personagem bastante magnética e com a qual simpatizo muito.



Sanosuke Sagara é o lutador que luta por lutar e que é um bocado (bastante) "reckless" mas que no seu âmago valoriza a lealdade pelos seus amigos, pelos seus princípios e pelo seu passado. E nunca desiste, nem rejeita uma boa luta, claro.



Saito Hajime. Um antigo capitão dos Shinsengumi (brigada especial de samurais pro-shogunato). Espadachim fantástico que segue o seu lema à risca. O seu lema é Aku Soku Zan (tradução livre seria "eliminar o mal imediatamente"). No período Meiji passa a ser um polícia especial mas o seu lema é o mesmo. A sua polaridade com Kenshin (eram inimigos durante o Bakumatsu) é bastante interessante de seguir e a luta que existe entre os dois durante o animé é memorável. Eu gosto da convicção desta personagem. A forma como não se desvia dos seus ideais por nada e como compreende que o mundo é diferente, mas os ideais dele são o mais importante. E a voz dele (em japonês) é algo por demais adequado ao personagem. De resto a voz é adequada em todas as outras personagens, mas aqui um pouco mais que no resto.



Hiko Seijuro. O mestre de Kenshin. Uma pessoa simplesmente demasiado espectacular para existir. Um homem extremamente forte e inteligente, mas que prefere estar afastado de tudo a fazer potes de cerâmica e a meditar, em vez de usar as suas capacidades em prol do que quer que seja. A sua leve arrogância e a perfeita consciência das suas super capacidades tornam esta personagem absolutamente irresistível.



Finalmente, e finda a parte das personagens, uma coisa que me agrada muito neste animé é a conexão com a história real do Japão.

O Bakumatsu foi de facto um período verdadeiro. Aconteceu de facto e neste período a luta nas ruas centrava-se entre Shinsengumi (pro-shogunato) VS Clãs pro-imperialistas.

Os Shinsengumi existiram de verdade e o comandante do 3º Esquadrão chamava-se Saito Hajime. Este era de facto um espadachim fora do normal temido entre todos e até mesmo pelos próprios Shinsengumi, pois Saito Hajime matou outros Shinsengumi por estes estarem a fugir aos ideais do grupo, daí provavelmente na versão ficcionada o autor do Manga lhe tenha dado o lema de Aku Soku Zan, porque o verdadeiro Saito Hajime guiava-se por essa directiva. O verdadeiro Saito Hajime também se tornou num agente especial da polícia japonesa, tal como no animé.

Os Clãs Imperialistas lutavam nas ruas e usavam Hitokiris para assassinatos especiais. Um Hitokiri era alguém com capacidades de espadachim fora do comum, capazes de matar os samurais "normais" de forma muito fácil e quase sem esforço. Estes Hitokiri eram então usados para assassinar figuras chave do Shogunato, durante a noite.

Kenshin Himura é baseado num Hitokiri que existiu chamado Gensai Kawakami. Kawakami foi um Hitokiri que se tornou conhecido pela sua estrutura franzina, quase efeminada (tal como Kenshin) e especializou-se no seu Battoujutsu (tal como Kenshin). Criou o seu próprio estilo chamado Shiranui que consistia em prever os movimentos do adversário e usar da rapidez que o seu corpo frazino proporcionava para atacar mais depressa. (Kenshin Himura usa o estilo fictício Hiten Mitsurugi, que podia ser descrito com as mesmas palavras que descrevi o Shiranui).

Esta conexão com a verdadeira história do Japão é fascinante. Muitas das temáticas da história do animé têm a ver com o ajuste que os samurais tiveram de fazer entre o Bakumatsu (período de guerra total) e o período Meiji (período de paz onde era proibido andar com espada). Muitos desses samurais foram presos ou assassinados e os Hitokiri tiveram na sua maior parte o mesmo destino. Em Rurouni Kenshin o problema do samurai inadaptado é constante e esse problema também foi constante durante os primeiros anos da era Meiji real.

Ao rever este animé percebo perfeitamente porque é que enquanto criança gostava tanto de o ver e hoje ainda gosto mais!

P.S. - Se houver alguma incorrecção nos termos japonês, não se preocupem em fazer notar, não escaparei impune de qualquer das maneiras. Há-de haver uma certa pessoa que se encarregará de me dar uma boa palestra acerca de qualquer erro que eu dê :)

25 de Abril de 2013

A todos os palhaços que há 39 anos dizem sempre a mesma merda e a todos os palhaços que desde então decidem dizer a mesma merda:

A memória é muito importante para o futuro de uma nação. É necessário relembrar tudo de mau e tudo de bom para que haja cada vez mais bom e cada vez menos mau. Contudo, a memória por si só, nada faz.

Desta forma entristece-me que em Portugal, ao fim de 39 anos ainda continuamos a viver o 25 de Abril de 1974 da mesma forma que o vivemos a 26 de Abril de 1974. Ainda estamos maravilhados com a revolução e com as promessas de uma nova era. Ainda estamos à espera que tudo se concretize num reflexo digno do Sebastianismo. Ainda elogiamos os Capitães de Abril como se não houvesse amanhã e legitimamos os mesmos a falar de coisas que não sabem e de forma arbitrária.

A única diferença é que agora queixam-se que o 25 de Abril não era suposto ser assim.

Francamente, já estou farto de celebrar o 25 de Abril (ou ver as celebrações). É sempre a mesma merda pomposa e de encher o peito. O orgulho do dia e não o orgulho da mudança. O relembrar de quem fez a revolução e o esquecer (e perdoar) de todas as pessoas que desde então esqueceram-se que também elas têm o dever de continuar essa mesma revolução. Todas as pessoas que batem no seu peito em lisonja e dão palmadas das costas de uma liberdade, da qual, na verdade, pouco querem saber a não ser que seja a sua liberdade posta em causa.

Toda a gente se esquece que a revolução acontece todos os dias e todos nós somos (ou deveríamos ser) parte dela. Todas as nossas acções contribuem para a construção de um país melhor e mais justo. Se é verdade que é importante relembrar o passado é também importante relembrar que é o presente que constroi o futuro e não o passado.

Hoje, mais importante que o 25 de Abril de 1974 é o 27 de Abril de 2013. É hoje que importa e é hoje que nos devemos comportar à altura daquilo que (supostamente) queremos atingir.

Já chega de falar de liberdades condicionadas quando muitas delas são condicionadas pelo próprio povo. Já chega de falar dos direitos que nos foram revogados, quando muitos deles nem sequer fazem o menor sentido.

Agora é hora das pessoas exercerem não só a sua liberdade em participar em manifestações inúteis e desprovidas de valor (e muitas vezes de sentido). É hora sim de exercer a liberdade de participar na vida pública. Se acham que podem fazer melhor, proponham-se a fazer melhor. É hora de todos no dia a dia actuarem como cidadãos de um país livre e não como cidadãos de um submundo onde apenas o nosso bem estar importa e onde apenas lutamos para estar melhor que os outros.

Agora é hora do presente e não de vangloriar um passado que não é nada mais do que isso, um passado. Importante mas apenas para ser recordado como factor a considerar em decisões futuras. E só lutando pelo presente conseguiremos atingir os ideais do 25 de Abril de 1974.

My Generation

Estou um tanto ou quanto cheio de ouvir a seguinte palermice.

"Eu sou da geração que brincava na rua! Não tinha telemóvel! Não tinha PS3! Jogava à bola na rua e sujava-me todo.. " etc etc

Por acaso, até pertenço a parte desta geração. Tendo nascido na segunda metade da década de 80 também brinquei na rua, também não tinha PlayStation (até certa altura), também não tinha telemóvel (o primeiro que tive foi aos quinze).

Jogava à bola onde calhava, improvisava jogos de ténis sem rede e sem raquetes e dava infindáveis voltas de bicicleta, desde que o tempo o proporcionasse. Brincava às escondidas e, passatempo preferido, era tentar atravessar o terreno do meu avô, composto por várias casas, sem ser visto. Até walkie talkies arranjei para poder comunicar nos meus parceiros de crime (leia-se, brincadeira).

Mas a pergunta que se coloca é:

E depois?

Tudo o que existia de bom na altura, continua a existir e tudo o que existia de mau, continua a existir. Quando muito, as coisas boas e as coisas más, são apenas amplificadas pela realidade de hoje em dia em que tudo é mais importante do que aquilo que realmente parece. As tragédias (uma maneira de dizer, porque refiro-me aos pequenos e irrelevantes dramas individuais) são mais trágicas e as comédias são mais cómicas.

A minha geração tem pouco de que se possa orgulhar. É a geração que ficou em cima da ponte e, por sua vez, entupiu o caminho para quem veio a seguir. É a geração daqueles que nunca decidiram se continuavam os estudos para além do 9º ano (sim, em 2000 era isso que se discutia) e mais tarde após terem feito o 12º nunca se decidiu realmente se ia para a universidade ou ficava-se por ali. Uns foram, outros ficaram.

Os que foram acharam que com um canudo a vida era um mar de rosas e que emprego seria garantido. Os que ficaram acharam que iam trabalhar e finalmente atingiriam a emancipação. Eu fui dos que fiquei pelo 12º. Mas nunca tive grande desejo de emancipação. E também não é que tivesse grande escolha. Devido às condições financeiras da minha família (bastante carenciada nessa altura) a minha opção era trabalhar e mais nada. Não havia cá dinheiro para sustentar um filho na universidade. É claro que quem foi para a universidade acabou por descobrir que o tempo dos pais deles já tinha passado. O tempo em que bastava ser licenciado para ter emprego já passara e agora um licenciado é apenas mais um. Os que não foram, descobriram que afinal era melhor estar na escola, naquela altura em que toda a gente se queixava de já ter estudado muitos anos.

Obviamente, hoje em dia, gostaria de ter um curso universitário e já me candidatei com sucesso a um. Contudo pelo trabalho fui impossibilitado de ir e, lá no fundo, ainda não decidi o que quereria estudar. História? Estudos Culturais? Estudos Clássicos? Línguas? Enfim, há muita coisa que eu gostaria de saber e em fases diferentes sinto vontades diferentes, por isso, e por não ter grande possibilidade de tempo de ir para a universidade, vou adiando a decisão de lá entrar e em que área. Tenho, porém, a certeza que quando quiser entrar em alguma área de interesse entrarei com 100% de certeza. Não sinto qualquer temor pela fase de acesso.

De qualquer das formas, voltando à minha geração. O que foi que ganhamos em brincar na rua? Nada. Burros vão ser burros e há burros em todas as gerações. O problema não são os burros em si. No mundo animal os mais fortes são quem sobrevive, mas no mundo humano os burros por vezes têm sorte e é desses que reza a história porque foram esses que nos colocaram em condições péssimas.

Tantos os da minha geração como os das gerações anteriores.
Não quero fazer a apologia dos mais fortes sobre os mais fracos. Nunca o faria, porque uma coisa é ser frágil e outra é ser palerma. Uma pessoa frágil e inteligente deve ser protegida.

Todas as gerações sofrem do mesmo mal. Todas as gerações são geradas e geram humanos. E onde há humanos há borrada na certa. Portanto que é que interessa se eu jogava Atari e agora se joga Xbox? Que é que interessa se há telemóveis ou telefones? Eu respondo. Não interessa absolutamente nada.

Por isso deixem-se lá de tentativas de superiorização porque são de 80 ou de 70 ou o que quer que seja. E ganhem juízo, porque só um palerma abestado para ter este argumento.

P.S - Quero esclarecer que o problema da afirmação da geração que fazia coisas diferentes, reside no facto de ser uma tentativa de superiorização. Não estamos a falar de pessoas que querem apenas recordar os bons velhos tempos. São pessoas que acham que brincar apenas na rua. E que crescer apenas sem telemóvel e sem computadores ou consolas. Se a intenção fosse recordar os velhos tempos, por mim não haveria problema nenhum. O problema reside na ideia que por ser diferente era, necessariamente, melhor.

O silêncio

Hoje falo de um tema com o qual convivo bastante. O silêncio.

Em consequência da minha convivência com o silêncio, tenho obviamente mais que tempo para pensar nele e na importância do silêncio.

E porque convivo eu muito tempo com o silêncio? Basicamente a minha rotina diária resume-se ao seguinte: levantar às cinco/seis da tarde; comer algo; passar tempo; jantar; passar tempo; trabalhar com entrada à meia noite; sair às oito; ir ao ginásio; dormir. Em passar tempo leia-se internet (facebook NÃO NÃO), ouvir música, tocar música, ler, etc.

O meu trabalho nocturno significa que, muitas vezes, entre a saída do meu colega que venho substituir e a chegada do que me vem substituir, não vejo praticamente ninguém. Consequentemente, não falo para ninguém. Os reflexos físicos desta condição são a dificuldade em aclarar a voz, quando finalmente falo com alguém. Mas obviamente, não estou aqui para falar das dificuldades físicas (que são insignificantes, já agora) que sinto quando vou falar com alguém.

Posto isto, se estou acordado à volta de 17 horas por dia, oito delas são preenchidas por um silêncio sepulcral. Não há música, não há filmes e não há sequer barulhos distantes de carros que passam em direcção a destinos incertos. Isto não é uma queixa, é apenas um facto para enquadrar o ponto seguinte.

Dediquei, e continuo a dedicar, muito tempo a pensar sobre a importância do silêncio. Quão importante é o silêncio? Eu diria que é extremamente importante, embora muita gente, se calhar, nunca sequer pensou nisso.

Conviver com o silêncio não é fácil, muitas vezes. Lembro-me perfeitamente que quando comecei a trabalhar neste horário nocturno frequentemente dava por mim a responder a diálogos imaginários que nunca tive nem terei com ninguém. Dei por mim muitas vezes a rir-me, não sei bem do quê. Obviamente estes problemas não têm apenas a ver com o facto de estar em silêncio, mas têm também haver com o Ciclo Circadiano que, no caso das pessoas que trabalham de noite, fica severamente perturbado.

Quero acrescentar também que o facto de estar a trabalhar em nada influi a questão do silêncio. Se bem que é um trabalho mentalmente exigente (até certo ponto, claro está, não sou nenhum cientista) é um trabalho que faço perfeitamente sem pensar muito nele.

Então, porque é que o silêncio é importante? Importa perceber o que acontece quando estamos em silêncio.
Quando em silêncio total e ausente de acções distractivas estamos na companhia de nós próprios. Pessoalmente, sinto nestes momentos que sou duas pessoas diferentes. Uma que questiona e outra que responde, numa espécie de jogo de ténis. Há muita gente que fala com muita gente e que evita ficar sozinha, talvez pelo receio (ainda que distante ou não admitido) de se auto-confrontarem. Não é de todo o meu caso, dado que não sou de falar muito e, na verdade, estando a trabalhar não posso sair ou estar aqui a ligar para não sei quem. Também não o faria, de qualquer das formas. Vivo perfeitamente bem comigo mesmo e aprecio bastante o meu silêncio.

Enquanto em silêncio posso pensar em tudo o que me apetece, tecer todas as teorias que me apeteçam, imaginar todos os cenários possíveis e impossíveis. Obviamente, há momentos perturbadores. Há momentos em que a angústia facilmente envolve todo o silêncio e transforma-o num poço de ansiedades e essa angústia é praticamente impossível de afastar nesses dias. E nesses dias pensa-se em tudo o que há de mau. Auto estima atinge valores negativos, as soluções parecem todas demasiado distantes e falíveis, tudo o que parecia certo parece errado e todas as convulsões se precipitam. Desde o choro à hipótese de morrer. E é nestes momentos que custa mais estar em silêncio, num lugar ermo, no meio de uma montanha com vista para um vale onde as luzes brilham lá em baixo. Estáticas como o gelo. Sintetizando, é desesperante.

Felizmente esses momentos são poucos, mas, na maior parte das vezes, são consequências da perturbação do silêncio que somos vítimas. Seja na forma de ouvirmos demasiado o exterior ou seja na forma de um evento qualquer que nos causa reacções negativas.

O silêncio é importante porque as piores e mais difíceis lutas são as que travamos dentro de nós. É quando não podemos chamar ninguém para vir resolver o nosso conflicto. É quando estamos constantemente a dizer para nós próprios que não vamos pensar mais nisso, apenas para segundos depois pensarmos ainda com mais força. Ao longo dos anos aprendi a lidar com isso. Aprendi a confrontar-me constantemente. E continuo a confrontar-me. Ainda ontem escrevi aqui um post bem maior do que este, apenas para o apagar no fim, por não sentir que fosse adequado (por uma miríade de motivos).

O que fiz? Como fiz? O que faço? Como faço? O que farei? Como farei? Seis perguntas que resumem muito daquilo que penso, quando me confronto a mim próprio.

Obviamente penso também em muitas coisas externas. Situações, pessoas, objectos etc. Penso no que está a acontecer à minha volta. Socialmente, politicamente e historicamente.

Penso noutras pessoas. O exercício de imaginar o que estão a fazer a certa hora da madrugada é demasiado tentador para lhe resistir, embora certamente que a maior parte está a dormir, mas bem, penso em tudo isso na mesma e nos momentos em que concluo que estarão a dormir sinto-me como um supervisor do sono dessas pessoas. Sinto-me como se estivesse a velar pelo sono delas. E sinto isso relativamente a muito mais pessoas do que aquelas que provavelmente devia. Esse sentimento de estar a velar o sono dos outros é ainda maior quando me encontro a observar a paisagem implacável e sinistra que a noite provoca, paisagem essa que consiste em vales e montanhas tão distantes quanto a vista consegue alcançar. Eu vejo aquelas luzes lá no fundo, que estarão a cerca de 40km de mim e sinto um misto de conforto e compaixão pois essas pessoas existem lá longe, mas não passam de um ponto no escuro, sem qualquer tipo de esperança na vastidão da noite. E do silêncio. Pois se eu estivesse com mais alguém, nunca iria ter tempo para reflectir sobre todas essas hipóteses, cenários e congeminações da minha consciência.

O silêncio permite-me ver tudo ao contrário. E se fosse tudo ao contrário? Seria provavelmente tudo o mesmo, num estranho equilíbrio cósmico (contudo,não mais estranho que o actual).

O silêncio é importante para que todas as dimensões de um ser humano se revelem da forma mais profunda. É importante para que se pense, para que se reflicta, até para que filosofemos um pouco (ou muito). Sem esse silêncio nunca nos encontraremos com nós próprios. Provavelmente maior parte das pessoas nunca se irá encontrar com ela própria, porque simplesmente, não há espaço para pensar. Não há silêncio para reflectir.

A invasão deste silêncio é algo que prolifera hoje em dia. Se o meu ritmo de vida propicia o silêncio, vejamos o hipotético ritmo de vida normal. De um estudante universitário por exemplo.

Levantar às sete/oito; Aulas às nove: almoçar; aulas; ir para casa; estudar (vamos ser crentes); jantar; estudar mais um bocado; passar tempo; dormir.
Note-se que neste caso, passar tempo é certamente estar no facebosta.

Obviamente quando é que esta pessoa poderá estar em silêncio? Pouco tempo, porque voluntariamente ninguém vai para um canto reflectir (Eu iria, e alguns mais também, mas somos uma percentagem tão pequena que pronto, ninguém é ok). E também não se trata de ir para um canto reflectir. Trata-se apenas de pensar ainda que alguém possa estar a fazer um alto nível de decibéis. Mas bem, o que quero dizer é que é simplesmente uma rotina com demasiados momentos de distracção desse silêncio.

Mais do que estar calado, silêncio é pensar. É abstrair a nossa cabeça de todas as tentações e distracções que existem e pensar com a NOSSA cabeça. Não deixar que ele seja invadido.

Se deixarmos o nosso silêncio ser invadido, passaremos a vida a viver pelos outros. E não por nós. A partir do momento em que perdemos o nosso silêncio interior tudo vai ser dependente do exterior.

Por isso é que o silêncio é importante. Passar todos os dias oito horas sozinhos, sem passatempos, todos os dias, é se calhar pedir de mais, mas um dia é certamente algo que toda a gente deveria tentar, pois muita gente, apenas assim conseguiria sentir tudo aquilo que é estar em silêncio e ter dificuldades em falar ao fim dessas oito horas. A dificuldade física em nada se compara à dificuldade intelectual de sermos nós próprios com nós próprios durante esse tempo.

Mas bem, no fim de tudo, sinto que este post é um bocado incipiente, mas paciência. Só hoje ainda terei mais quatro horas de silêncio para pensar nisto.

Estupidez portuguesa Vol MCLXIII

Ultimamente a minha vontade de escrever no blog é pouca. Francamente, estou um bocado cansado de ventilar as minhas opiniões em direcção a um vasto mar que não quer ouvir.

Assim sendo, a minha solução tem sido ignorar, praticamente tudo, o que passa nas notícias e tudo o que vejo em caixas de comentários e outros blogues e facebooks etc.

O meu fastio para com as pessoas vai muito para além de manifestarem opiniões estúpidas hoje em dia. Não sou muito bom a decorar citações mas diria que "as pessoas não têm direito a ter opinião, têm direito a ter opinião informada, porque ninguém tem direito a ser ignorante". Não sei se a citação seria exactamente assim e também não me lembro quem é que a fez, mas eu revejo-me completamente nesse ponto de vista.

Mas, como disse, não é a ignorância das pessoas que me incomoda mais nestes dias. O que me incomoda é a hipocrisia da liberdade que as pessoas defendem hoje em dia.

A liberdade que te permite exprimir uma opinião, desde que a mesma seja conivente com a opinião da maioria. Maioria essa comprovadamente ignorante.

Há uns tempos, houve uma celeuma qualquer por causa de um problema num comboio. O tipo que tinha um cão e que não tinha bilhete para o animal. Aparte da verdadeira "verdade" do assunto, isto é, aparte de sabermos se o revisor e a polícia tinham razão ou se o tipo é que tinha razão, importa ressaltar o seguinte:
No vídeo do YouTube ler a secção dos comentários era penoso porque maior parte das pessoas limitava-se a dizer banalidades e a bater no ceguinho. Mas é preciso observar todos os comentários escondidos por reportes de spam ou por demasiados votos negativos. Esses comentários eram os comentários contrários à opinião da maioria. E enquanto a questão dos votos negativos até compreendo, a questão do spam é simplesmente a tentativa estúpida de esconder aquilo que não nos interessa. É uma forma de desvalorizar a outra opinião sem que tenhamos uma resposta para mesma. E é um grande exemplo de como a versão de liberdade da maior parte das pessoas está deturpada.

E repito, mais uma vez, que a questão não é quem tem razão, mas sim, porque é que as pessoas acham que podem definir nos seus próprios termos a liberdade que a tão fundos pulmões proclamam.

Em Portugal (e se calhar noutros sítios também, mas esta é que é a minha realidade) só se pode ser pelo rebanho, de contrário não percebemos nada e não sabemos o que estamos a dizer.
Podemos aclamar a coragem do povo português em se manifestar, mas não podemos falar de algumas imagens em que se viam os cafés cheios de gente a beber a sua cerveja, porque afinal queixam-se que não há dinheiro, mas podem pôr a tão importante manifestação em espera, para poderem saciar a sua sede, não com água, mas com finos e tremoços.

É irónico, hilariante e triste. Tudo ao mesmo tempo, mas é uma verdade dos portugueses. Nunca nos conseguimos pôr noutro ponto de vista. Apenas o nosso. Um português que ganhe 2000€ não abdicaria sem problemas de 50€ do seu salário nem que isso curasse a fome no mundo. A luta continua, pena que não lutem contra aquilo que devem.

Cinema e estupidez

É recente a notícia de que a Castello Lopes vai fechar 40 e não sei quantas salas de cinema.

Para mim, não me faz grande diferença, francamente, vou ao cinema de meio em meio ano e não me importa de andar mais um bocado, principalmente porque, normalmente vou ver filmes que quase garantidamente vão ser bons.

Contudo é sempre hilariante observar a quantidade de diarreia que flui da boca de certos parvalhões. Aliás, reescreverei esta frase da mesma forma que a diria na realidade.

Contudo é sempre hilariante constatar a quantidade de merda que certas cabeças de unto sem coluna vertebral dizem.

A ACAPOR, essa associação subterrânea, que até ao fecho de uns sites famosos na internet, nunca ninguém tinha ouvido falar, veio já dizer merda acerca daquilo que parece saber muito, mas que na verdade, não parece saber nada.

Citando o Correio da Manha (pun intended)

Para a Associação do Comércio Audiovisual de Obras Culturais (ACAPOR), a causa para estes fechos é a partilha ilegal de conteúdos na internet e endereçou às exibidoras – menos a Zon – o convite para avançarem com uma queixa contra o Estado. Em causa, está a “gritante inércia no combate à pirataria na internet” e a ausência de respostas legais.
Sobre o tema, fonte a Zon diz que a pirataria “tem-se agravado” e está a atingir “volumes que colocam em risco a própria sobrevivência do negócio de distribuição de conteúdos”.

A minha reacção em imagens.

Eu posso ser um simples bastardo inculto por não ir ao cinema. Mas bem, vamos virar um bocado os papéis e eu vou imaginar que sou director da ZON, ou da Castello Lopes, ou macaco (huehue) treinado da ACAPOR.

Ora então, se eu estivesse no lugar dessas pessoas pensava o seguinte. Qual é o atractivo de ir ao cinema? É ver um filme. Obviamente, mas hoje em dia, isso é o suficiente para sair de casa? Quando sabemos que pelo preço de dois bilhetes podemos comprar na internet os filmes um pouco mais tarde?

Eu penso que não. O valor de um bilhete normal é 6 a 7€. Por dois bilhetes, 12 a 14, compram-se DVDs na Amazon. DVDs esses que poderemos ver e rever e voltar a ver quantas vezes quisermos.

Portanto, daqui se deduz que a motivação de ir ao cinema não é ver o filme apenas. Afinal qual é a motivação de ir ao cinema, então?

Eu quando vou ver um filme, normalmente janto fora, faço um "programa" diferente. Não há nenhum cinema onde eu tenha ido que tivesse um agradável restaurante incorporado. Se eu tivesse uma cadeia de cinemas, trataria de efectuar contratos de exploração de espaços para restaurantes abertos ao público mas com predominância e favorecimento daqueles que vão ver filmes. E podem dizer que normalmente os cinemas estão em centros comerciais. o que é verdade, mas poucos centros comerciais têm um restaurante digno desse nome. Daqueles fechados onde nós entramos e sentamos tranquilamente sem a agitação das praças de alimentação. Tenho a certeza que se houvesse um restaurante em que o preço médio para duas pessoas ficasse por 25-30€ (sem bebidas e já com o bilhete incluído) haveria muita gente a ir. Era preciso era ser um bom restaurante no sentido tradicional da palavra. Obviamente não poderia ser um McDonalds.

Outro ponto em que os cinemas portugueses dormem forte e feio. Não nenhum tipo de cartão de cliente realmente válido para aqueles que gostam muito de cinema. E isto é daquelas coisas que até os detentores de ginásio se aperceberam, ganha-se mais dinheiro ao vender um cartão de visitas mensal do que a vender uma visita de cada vez. Fideliza-se mais e cria-se um hábito no espectador de cinema. Cria-se um hábito em ver o filme quando sai que, devo dizer, para quem gosta deve ser bastante agradável. Se uma pessoa for duas vezes por semana ao cinema a 6€ cada bilhete, gasta 48€. É dinheiro que muita gente não pode gastar. Agora, se houvesse um cartão em que por 30€ fosse possível ver dois filmes por semana, aí tínhamos logo mais cinéfilos interessados em ir ao cinema regularmente.

O ponto anterior leva a outro ponto importante que é o facto de os cartazes dos cinemas mais populares (ZON Lusomundo e Castello Lopes) serem a monotonia geral. São os mesmos filmes em todas as salas ainda que haja mais do que um complexo de cinemas em certas cidades, porém, dão todos a mesma coisa. 
Se os cinemas querem atrair clientes fiéis têm que entender que as comédias românticas não vão chamar esses fiéis admiradores de cinema. Obviamente o efeito imediato desses filmes mais popularuchos é maior, mas a longo prazo não é. São apenas uma faísca que leva muita gente sem gosto algum pelo bom cinema a ir gastar o seu dinheirinho, porque muitas vezes não têm mais que fazer. Não vou estar aqui a fazer a apologia deste ou daquele filme porque nem sequer sou muito entendido, apenas falo do que vejo.

Resumindo o que é que os cinemas em Portugal têm para oferecer? Nada, para além de uma sala com boa projecção e com grande qualidade de som. De resto, nada. N-A-D-A. 

Os cinemas deveriam ser muito mais dinamizados. Pelo contrário quem promove os cinemas parece tratar aquilo como aquele mal necessário. Não há uma experiência associada à ida ao cinema. 

Por exemplo, fui ver o Hobbit. Jantei fora. Se o cinema tivesse um restaurante em condições, mais ou menos sossegado, eu iria lá jantar e depois sairia directamente para sala de cinema, onde de preferência iniciariam o filme a horas. Eu gostei bastante do filme e sou daquele tipo de pessoas que, à saída se visse no cinema uma pequena loja de merchandise com t-shirs, action figures, bobbleheads, pins etc, era bem capaz de comprar alguma coisa, contudo, essas lojas não existem em parte alguma. E depois do cinema, é possível ficar um pouco numa sala comum a tomar uma bebida e a conversar, quem sabe, com outras pessoas que tenham visto o filme e partilhar a opinião? Não, normalmente as saídas dos cinemas são aquele momento de caos em que as pessoas vão para a saída aos empurrões porque, para além de pipocas e pepsi, não há nada para fazer.

Posto isto, só um burro pode vir com a desculpa da pirataria como razão para os cinemas estarem vazios, porque os cinemas oferecem algo exclusivo, que é um filme novo com uma qualidade de exibição fora do normal. Contudo, está mais que visto que isso não basta. Está para se ver se algum dia os gestores dos cinemas vão entender isso.

Ben X

Hoje venho falar de um filme. Não por ser um filme. Não pelo seu valor artístico (que por acaso, na minha opinião, é acima da média) mas sim pelo seu significado. E aconselho bastante a visualização deste filme.


Ben X é um filme acerca de um jovem autista que é vítima de bullying. Não vou entrar muito mais na descrição do filme porque o que eu gostaria mesmo era que vissem o filme (baseado em factos reais).
O meu ponto neste post é manifestar o meu desgosto pela raça humana. Como é que é possível existir tanta crueldade para com alguém apenas porque esse alguém aparenta fragilidade? 

Eu já fui gozado por outras pessoas (não na extensão do Ben X, muito felizmente), principalmente na escola, e na verdade apesar de saber os motivos por detrás disso a verdade é que não sei os verdadeiros motivos. Qual é a crueldade que motiva crianças, jovens e adultos a espezinharem alguém enquanto, muitas vezes, fingem-se amigos “do peito”. 

Não estamos aqui a falar de alguém que fez coisas más a ser punido por isso. Estamos a falar de pessoas, supostamente, normais. Iguais a nós. Só que, muitas vezes, são pessoas que gostam de estar no seu cantinho a pensar nas suas coisas (que era o meu caso, por exemplo) e isso é motivo para bandalhos invadirem o nosso espaço com dissimulações e acções que nos levam à humilhação.
Na minha experiência do assunto, o melhor a fazer é queixar-nos a alguém. Mas a verdade é que muita gente opta por refugiar-se ainda mais. No que quer que seja. E é complicado. Quando uma pessoa é vítima de bullying ouve sempre dois tipos de conselho. Ou ouvem “não leves a sério” ou então “dá-lhes porrada”. Nenhuma das duas está certa, mas nenhuma das duas está errada também. Os sintomas de uma sociedade podre como a de hoje em dia, revelam-se nestes casos pequenos (na escala global). Uma sociedade em que, muitas vezes, pode ver alguém a ser espancado e não faz nada. A base da sociedade podre está na imensa falta de respeito mútuo. Na imensa falta de compreensão das diferenças. “Todos diferentes, mas todos iguais” era o lema no meu tempo, relativamente às várias raças. Mas, no fundo, porque é que achamos que vamos respeitar outras raças quando nem os da nossa própria conseguimos respeitar? 

Se eu fosse enumerar razões pelas quais já vi pessoas a serem gozadas isto daria uma lista muito estúpida. Já vi pessoas serem gozadas pelo seu sotaque, por terem o nariz torto, por serem demasiado altas, por serem gorduchas, por serem caladas (o meu caso), por serem de opinião oposta (o meu caso), por usarem uma certa roupa etc etc. Na prática tudo coisas irrelevantes e estúpidas. Na maior parte delas nem se trata de uma escolha consciente das pessoas. Condições físicas são inevitáveis. E ser-se calado é tão irritante como falar-se muito, no entanto não se vê ninguém a gozar com as pessoas que falam muito. Porque essas pessoas não parecem tão fracas.

E é por isto que eu, apesar de saber as razões de ser gozado, ao mesmo tempo não as sei.
O que eu sei é que na maior parte das vezes as vítimas são os que aparentam ser os mais fracos. Pura e simplesmente. É mais fácil para esses orcs pegarem com os mais fracos. É “sucesso garantido”. Por isso é que, francamente, me enoja esta sociedade. Porque temos professores nas escolas que se estão bem nas tintas para estes problemas (sim eu sei que há deles que se preocupam). Temos funcionárias que dormem em serviço nos corredores. Temos pais que defendem os filhos que na verdade são uns valentes cabrões, mas os pais não querem nem permitem que alguém, sem serem eles, chame a atenção de um filho deles. 

Da mesma maneira que os professores não admitem que um pai lhes diga como fazerem o seu trabalho.

Porque temos uma sociedade que às vítimas dizem para não levarem a peito, e aos perpetradores concedem benevolência no julgamento (é preciso averiguar com atenção blá blá blá).
Se um filho meu fosse vítima de maus tratos psicológicos constantes, não sei quanto tempo ficaria sem entrar em modo psicopata e tenta fazer justiça com as próprias mãos. Mais uma vez, não é certo, mas também não é errado.

Por vezes, através das circunstâncias normais da vida, já é difícil fazer sentido daquilo que é a nossa existência. Nunca considerei suicidar-me mas mentiria se dissesse que nunca pensei no acto e nas suas consequências. Mas nestas situações, é um pouco difícil para mim não compreender a vontade de pôr um fim à vida. 

Para mim próprio é muito difícil compreender esta realidade. Bullying é um estrangeirismo utilizado de forma bastante vaga e gratuita hoje em dia. Acabou por se tornar num substantivo quase abstracto, para dar nome a um fenómeno, que, na verdade, ninguém quer enfrentar seriamente. Ninguém quer acabar com ele. Os pais das crianças que o fazem foram eles próprios, em tempos, bullys. São eles próprios muitas vezes que instalam nos filhos sensações de superioridade que os fazem achar que podem fazer tudo à sua vontade. Como é que se resolve o problema assim? Nem com mortes. Um morto não é mais que uma quantidade. É como dizer 50kg. Ou 30 litros. Um morto é apenas um saco, uma mortalha, um caixão e um buraco no chão, adornado com belas flores e pedras bonitas. É só um número. Que causa choque, mas que é esquecido quase imediatamente pela população em geral.
As coisas só vão mudar, quando a sociedade mudar.
Enquanto ela não muda, e apesar de ser obrigado, eu não quero fazer parte desta sociedade.

Until then, Include me out.

Where have I seen this before?
When will I feel it again?
Somebody opened a door
I'm afraid to walk in
Imagination stands still
I read it in open book
Read it in open book

Oh man, I read it in books of laughter
Oh man, I read it in books of pain

What are you talking to me
Cause I'm not really there
Like a spirit that's free
I'm as light as the air

Oh man, as light as the air and floating
Oh man, as light as the air and floating

Take me on
Where the fire winds blow
Or where a fallen leaf stays
for days
on your shoulder

Cause all I need
Is to find my own
And that summering drone
Illicit and golden

Oh lord where have is seen this before
Oh lord when will I feel it again

Read it in every move
Read it in every game
Read it in what you do
Read it in everything

Oh man, as light as the air and floating
Oh man, as light as the air and floating
Take me on
Where the fire winds blow
Cause when time stands still
I wait until
It's over
And all I need
Is to find my own
And that summering drone
Illicit and golden

Include Me Out, dEUS

Fado não é Portugal

Hoje, ou ontem, fez um ano da elevação do fado a património da humanidade.

Desta forma venho aqui expressar o que eu penso sobre isso.

Antes de mais queria fazer umas anotações prévias.
Primeiro, não gosto especialmente de fado. Não tenho nada contra e, por vezes, é até agradável ouvir as composições de alguns fados (mais concretamente, os instrumentais).
Segundo, também não tenho nada contra a distinção em si.

Posto isto há várias coisas que passam na tv e nos jornais que me desagradam profundamente.

É com alma cheia que os fadistas e guitarristas e especialistas na matéria falam no fado como identidade da nação, contudo, é também com naturalidade que afirmam que passa-se tudo em Lisboa.

São as ruas de Lisboa que são cantadas no fado e o fado é cantado nas ruas de Lisboa. E é verdade, o fado de que toda a gente fala e que toda a gente elogia é o fado de Lisboa. Daí que é extremamente errado afirmar que o fado represente a cultura portuguesa. Afirmações deste género servem apenas para formatar uma opinião acerca de um substantivo que represente a nacionalidade. Fado não representa a nacionalidade.Nem nunca representará. Pode, efectivamente, vir a ser conhecido por ser a música de Portugal, à custa da forte publicidade à volta do mesmo, mas nunca o será verdadeiramente e muito menos representará Portugal.

E porquê? Perguntam as pessoas. Porque fora de Lisboa poucos são os lugares em que as pessoas realmente se interessam pelo fado. Basta ir, sei lá, à Serra da Estrela, e perguntarem-se acerca da importância do fado lá. O mesmo no Porto, Braga, Guimarães, Aveiro, Vila Real, Bragança, Viana do Castelo etc etc. Não implica isto que o fado não seja cantado nestas cidades ou que não hajam concertos de fado nestas cidades. Implica é que não tem nada a ver com a raíz cultural de 99% do país.

O fado, diz-me tanto a mim, em termos de matriz cultural, que não sou de Lisboa, como me diz o Jazz. É uma música passa ocasionalmente na rádio e vê-se ocasionalmente em concertos. E cabe na cabeça de alguém dizer que o Jazz é a identidade de Portugal? Ou que o rock é a identidade de Portugal?

As origens do fado são portuguesas e vêm do cancioneiro medieval, segundo uns. As origens do fado vêm de uma musiquinha brasileira, segundo outros. Há muitas teorias acerca da origem,
A verdade é que o fado, como o conhecemos hoje, apenas é popularizado no Séc XIX em Lisboa. Alguém me sabe dizer porque é que não consideram o fado uma música de Lisboa? Uma identidade de Lisboa. Porque é que tem de ser uma coisa para todo o país, quando, claramente, não faz a mais pequena diferença no resto do país?

Apresenta-se no fado a mesma questão que se apresenta com a Lusitânia. O mito de que somos todos lusitanos. Os substantivos abstractos que nos levam a formar uma identidade nacional. Por mim, eles são normais, até certo ponto. Contudo, estes são uma aberração.

Nós não somos todos Lusitanos. Nós não somos todos personagens que aparecem no fado. Ainda para mais quando o fado é considerado algo do litoral e até citadino (por momentos, deixei de ouvir o choro daqueles que supostamente se preocupam com a desertificação do interior).

Há milhares de tradições esquecidas por aí. Muito mais antigas que o fado e muito mais significativas das nossas origens. Daí que me oponha, e sempre me irei opôr, a esta generalização do fado como canção nacional. Não é, nunca foi e nunca será.

A manif

No meio da enchurrada de merda que veio dos dois lados da manifestação encontra-se pouca coisa que valha a pena realçar.

Uns levaram na cara, outros deram na cara. Uns insultaram, outros foram insultados. Uns criticaram a polícia por bater em pais com crianças e outros levaram crianças para esse ambiente completamente saudável que é uma manifestação.

E aqueles que falaram muito durante a manifestação, calaram e consentiram quando meia dúzia de orcs decidiu que era fixe atacar a polícia e depois queixaram-se que a polícia devia ter encetado uma perseguição à "Knight Rider" aos desordeiros.

Assim que a violência começou a escalar, com arremesso de objectos às forças de segurança, a manfestação deixou de estar controlada pela multidão pacífica que tem todo o direito a manifestar-se e a opôr-se ao que quer que lhes apeteça, e passou a ser controlada por grupos tudo menos pacíficos. Talvez anarquistas, talvez nacionalistas. Ambos grupos profundamente desprezíveis (os anarquistas e nacionalistas), mas ninguém arredou pé.

Obviamente, as coisas iam acabar dessa forma, porque esses movimentos que agem pela calada devem ser pontualmente reprimidos de forma autoritária. É claro que 99% dos manifestantes não se associam (espero eu) a essas causas, mas como poderia ser feita uma intervenção autoritária sem que se reprimisse toda a gente? Não se podia.

De qualquer das maneiras, a ignorância e irreflexão das pessoas é algo que também já é de esperar. E já era de esperar que muita gente se viesse queixar quando o seu pequeno mundo foi invadido de cenas de pancadaria. Naturalmente, ninguém gosta de levar porrada, mas qualquer pessoa razoável vê que era o que, inevitavelmente, iria acontecer.

Contudo, a mim o que mais me incomoda é algo que tenho lido por aí pela blogosfera e comentários nos jornais online.

Quando as pessoas se estão a queixar que a intervenção policial foi injusta e vêem a sua opinião contraposta, por vezes, saem-se com este lindo "soundbite".

"Nós estávamos a lutar pelos vossos direitos!"

E a questão é a seguinte. Eu não pedi a ninguém para se ir manifestar, aliás, francamente, aquela greve foi uma grande perda de tempo. E mais, nesse dia estava num estado tão febril e gripal que nem as notícias vi direito, quanto mais preocupar-me com a manifestação.

Mas a ideia é esta. Eu não pedi, nem pedirei, nem irei a qualquer tipo de manifestação como aquela que aconteceu. É uma perda de tempo. E é um exercício de demagogia surreal, digna da maior ficção científica. Toda a gente quer mudança, só não sabe para o quê (a não ser que se seja o Manuel Londreira, claro).
O que as pessoas querem é, basicamente, que se rasgue o memorando de entendimento com o FMI e com a UE e tudo será rosas e seda. Nem vou perder tempo a explicar que sairmos da UE seremos um país de terceiro mundo num piscar de olhos etc. Ou que as nossas poupanças se reduzirão em metade, ou que segundo estudos cada português perderia 11 000€ num ano em que se voltasse ao escudo etc etc etc.
Tudo o que implique um afastamento da UE eu sou contra, e como tal, sou, ou melhor, fui contra a manifestação.

Por isso não me venham dizer que lutaram pelos meus direitos. Não façam das vossas palavras de ordem as palavras de ordem de Portugal inteiro. Lutaram pelos vossos direitos e por aquilo que acham justo, mais nada. Se levaram na tromba foi porque estavam a lutar por vós próprios e não por mim. Basicamente, não se armem em mártires.

Eu participaria numa manifestação e até num movimento cívico/partidário onde se denunciassem as ineficiências do estado, entre as quais muitas coisas que os manifestantes em geral criticam acerca dos políticos que gastam muito dinheiro, eu estou de acordo nessa matéria, mas isso não é suficiente. Estaria de acordo em que se revogassem todos os benefícios que um funcionário público tem que um privado não tem (muitos já não gostam desta conversa não é?). Estaria de acordo em que um funcionário público fosse movido para onde o estado precisasse (obviamente com racionalidade, não se ia mandar ninguém do Algarve para Trás-Os-Montes) sem sequer ter possibilidade de apelar em contrário. E se recusasse essa mudança, ia para a rua que é o que acontece em qualquer empresa normal. Numa manifestação dessas eu até estaria. Limitar todas as reformas a 1300€. Ninguém ganha mais do que isso, o resto fica para aumentar as pessoas que ganham 200€ de reforma. E não haveria subsídios de natal e de férias para quem está reformado, nunca. Mas aí há um problema. Muitos reformados foram para a manifestação porque coitados ganham mais que 1500€ e vão perder parte da reforma. Realmente, pobreza.

Já disse aqui noutro post que o problema do estado é o problema do português e o problema do português é o problema do estado. O português endividou-se para comprar casa (normal), carro (supérfluo), férias (supérfluo) e agora não tem dinheiro. O estado endividou-se para compensar os bancos pelos créditos que não conseguem cobrar. E endividou-se para pagar subsídios às pessoas que ficaram sem emprego porque os seus patrões não souberam gerir os seus negócios. E agora pagamos todos. Tal como na manifestação, pagou o justo pelo pecador.

Mas os justos não têm o direito de fazer da sua causa a causa de toda a gente.

Afinal, liberdade. Não é?

Frases motivacionais

Faz-me confusão como algumas pessoas parecem depender de frases motivacionais. Quando se navega por aí em páginas pessoais, é frequente ver aquelas imagens partilhadas milhares de vezes, com dizeres escritos num português, por vezes, um bocado amacacado.

"Não se arrependa do que não fez"
"Não diga palavras permanentes para pessoas temporárias" (Pessoas temporárias são aquelas que se apagam naquela pasta do windows.Temp.)
"Um amigo de verdade distrai a amiga feia e gorda para que você possa ficar à vontade (com a outra que deve ser magra e com dentes de contraplacado)
"Trair? Não obrigada...Não troco uma vida por um momento. Não troco uma certeza por uma ilusão. Não troco o certo pelo duvidoso. Não troco uma felicidade por uma aventura"

Ou então a "punchline"
"Only God can judge me"

Independentemente de concordar, ou não, com as coisas que estão escritas nestas e noutras frases, tenho que dizer que acho bastante deprimente e problemático as pessoas terem de ler este tipo de frases fáceis e baratas para compreender ou afirmarem o que quer que seja.

Isto é, para mim, um problema muito grave. Parece que as pessoas têm de ter alguém que lhes diga o que é certo e o que é errado. O que devemos acreditar e o que devemos duvidar.

Na minha opinião devíamos antes questionar constantemente aquilo que fazemos. Não é preciso esperar pela frase que está no fakebook de alguém para percebermos o que quer que seja. Não é preciso ouvir aqueles amigos com a mania de psicólogos com frases feitas para percebermos o que quer que seja.
Na verdade as pessoas é que devem pensar e questionar-se sobre o que fizeram, o que fazem e o que farão no futuro.

Contudo, convenço-me que vivemos cada vez mais numa sociedade em que as pessoas esperam que as coisas lhes cheguem. Temos internet, tv, rádio e etc. Podemos ter acesso a todo o mundo sem sairmos da cama, mas a vantagem transforma-se em desvantagem quando apenas deixamos que a informação chegue até nós. Esse é o momento em que corremos o risco de sermos manipulados. Manipulados por notícias facciosas ou enviesadas. Manipulados por frases motivacionais com as quais concordamos, mas acerca das quais nunca sequer pensamos bem. Obviamente ninguém vai descobrir a sua personalidade na internet, mas pode certamente cultivá-la fortemente e, acima de tudo, independentemente.

Não estamos a falar daquela frase que queremos partilhar de uma música ou de um filme ou de um poema/livro. Estamos a falar de coisas ditas por um labrego qualquer que sabe tanto ou menos do que nós. E é nessas pessoas que devemos acreditar? E é nessas frases inócuas que devemos revelar o nosso ser?

Francamente, acho que não. Há uma música dos dEUS que começa por dizer "Want to know about my philosophy? MY Philosophy... You gotta be your own dog. Don't let anybody put a leash on you"

É hipócrita de cima abaixo eu estar a criticar as pessoas que partilham frases à toa e estar agora a fazer uma citação, mas a questão engraçada é que quando a voz diz my philosophy a verdade é que a filosofia dele é cada um ter a sua filosofia. You gotta be your own dog.

Há alguém que queira ser apenas ele próprio?