O outro lado da moeda

No outro dia escrevi um post acerca da desilusão que represente Lance Armstrong.

Enquanto mantenho a ideia de que não há heróis, a verdade é que há alguns heróis que não são, nem devem ser, cantados ou louvados. E são estes heróis que vale a pena valorizar. E muito.

A história de Lancer Armstrong revela-nos um desses heróis. David Walsh.

Walsh é, hoje, o editor chefe de desporto do jornal Sunday Times. Irlandês na época das vitórias de Armstrong era apenas jornalista do Sunday Times. Walsh, amante de ciclismo, nas primeiras férias que passou fora do país arranjou uma mota e foi para França para seguir o Tour de France como fan.
Passados uns tempos começou a cobrir a competição como jornalista e passou a cobrir outros eventos extra ciclismo.

Em 1998 dá-se o escândalo Festina no Tour. John Wilcockson, jornalista também do Sunday Times, deu pouca importância ao escândalo e continuou a escrever para Londres quase como se nada se tivesse passado. O jornal em 1999 decide que para além de Wilcockson iria enviar Walsh para certificar-se do que se passava e ter uma cobertura mais real e honesta da corrida.

O Tour of Renewal, como foi apelidado pelos organizadores da corrida, visava lavar a cara de uma competição que tinha sido gravemente afectada em termos de reputação no ano anterior. Os organizadores disseram que, como não iriam haver drogas na corrida a mesma iria ser mais lenta que as dos últimos anos.

Armstrong na etapa que termina em Sestriére, uma etapa de montanha com alto grau de dificuldade, faz um ataque, ganha a etapa e passa de ciclista irrelevante que em quatro edições apenas tinha chegado ao final da corrida uma vez e em 36º, a candidato à vitória com um ataque impressionante e do qual não seria capaz em condições normais. De acordo com Walsh, na sala de imprensa toda a gente riu sarcasticamente, numa clara demonstração de que era inacreditável que Armstrong estivesse limpo e a fazer aquele ataque. Armstrong ganhou e David Walsh na sua coluna escreveu

 “There are times when it is right to celebrate, but there are other occasions when it is equally correct to keep your hands by your sides and wonder… [and in this case] the need for inquiry is overwhelming.” 

Este Tour tinha sido o mais rápido de sempre e vencido por um ciclista improvável que era especialista em pequenas provas e nunca havia sido forte nem no contra-relógio nem nas montanhas.

David Walsh então prosseguiu na sua perseguição por provas que mostrassem que Armstrong havia dopado. Obteve testemunhos de várias pessoas que já tinham ouvido Armstrong admitir o uso de doping e a incentivar o mesmo, publicou artigos, publicou um livro, questionou Armstrong, foi ameaçado pelos agentes de Armstrong, sofreu discriminação por parte dos ciclistas que não falavam com ele por causa da sua activa posição anti doping, sofreu discriminação de jornalistas que se recusavam a comparecer publicamente com ele, com medo de serem associados com o jornalista com quem ninguém queria falar. No carro em que costumava seguir para acompanhar as provas os jornalistas a certo dia, sem aviso prévio, recusaram-se a levá-lo, deixando-o numa posição muito complicada, pois dadas as restrições só carros autorizados é que poderiam seguir até aos finais de etapa e para um jornalista é complicado não ter esse acesso.

A minha admiração por David Walsh, mais do que no final todos terem de lhe dar razão, é o facto de ele ter continuado a dizer, a escrever e a perseguir aquilo em que acreditava. Não cedeu aos contos de fadas. Não cedeu à necessidade de acesso aos ciclistas, que implicava que os jornalistas fossem favoráveis aos ciclistas nas suas peças para poder obter entrevistas com eles que, naturalmente, atraem sempre mais atenção do que artigos sobre doping.

Ao passo que Walsh escrevia aquilo em que acreditava outros, nomeadamente Wilcockson, escreviam livros acerca das grandes vitórias de Armstrong e exultavam este herói com pés de barro, apesar das provas apresentadas por Walsh. Porque era mais fácil acreditar no mito. Era o que toda a gente queria ler.

Vivemos a acreditar que os jornalistas nos trazem os factos mais verídicos das histórias. O relato mais preciso dos acontecimentos. Independente e conciso. Mas neste caso só um, das centenas de jornalistas que cobrem o Tour é que seguiu um caminho diferente. Os outros, todos escreveram que acreditavam, que era maravilhoso, fantástico. Digno de um conto de fadas. Porque era isso que toda a gente queria ler. No que me lembra de ver das transmissões da RTP do Tour, não me lembra de ouvir Marco Chagas ou o João Pedro Mendonça a referir estes casos. Não me lembro de ler em lado nenhum nada acerca do estranho que é um ciclista irrelevante, tornar-se um mítico vencedor do Tour, sete vezes consecutivas.

Afinal jornalismo é contar a verdade ou é um exercício de alimentação de sonhos de quem está no lado receptor das notícias?

Em relação a jornalistas desportivos David Walsh descreve na perfeição o que a maior parte deles são

"Fans with a typewriter"

É errado louvar Walsh só porque ele tinha razão. Afinal de contas, ele apenas fez o seu trabalho, que é para isso que lhe pagam. Ele próprio tem recusado aparências e pedido para que não estejam a tratá-lo como um herói, pois Armstrong também era um herói. E era um herói cada vez mais heróico na proporção em que as pessoas elevavam-no cada vez mais e quanto mais alto cada vez é menor a vontade e habilidade de questionarmos.

Mas nutro imenso respeito por David Walsh. Ele fez aquilo em que acreditava e não se desviou do seu caminho só porque seria mais fácil e mais bonito.

Aconselho quem tiver interesse em saber um pouco melhor a história de David Walsh a ver este vídeo que aqui deixo.


Não há heróis

Já foi há praticamente um ano que se provou que na vida não há heróis.

Cresci a gostar de ciclismo e a ver as várias voltas que eram transmitidas pela RTP. Naturalmente assisti a todas as vitórias de Lance Armstrong, agora comprovadamente e admitidamente conseguidas através do recurso a doping.

Na altura em que as alegações começaram, em 1999, eu nem sequer sabia que elas existiam. A primeira vez em que tive contacto com alegações de doping deve ter sido por volta de 2004 ou 2005, em que apareceram notícias que alegavam que amostras de urina de 1999 continham EPO.
Nesse momento, lembro-me perfeitamente de o dizer à minha mãe, pensei que já se tinha passado tanto tempo e que isto era basicamente uma caça e uma tentativa de desgraçar um campeão comprovado.

Todo o problema deste assunto não se pode resumir apenas a Lance Armstrong. Deve-se resumir também à imprensa. Mas primeiro, o vilão.

Ao longo da história o ciclismo tem sido recorrentemente manchado por escândalos de doping. É uma modalidade dura e o Tour de France é considerada por muitos a prova desportiva mais dura do mundo. Anfetaminas, testosterona, esteróides, entre outros, eram as drogas de escolha para melhorar a performance. Seria possível dizer que Eddie Merckx, Jacques Anquetil e outros campeões do passado, tenham tomado este tipo de medicamentos e suplementos no seu tempo. Eu não vou defender o uso destas drogas mas há uma distinção a fazer entre estas drogas e a EPO. Antes da EPO as drogas que existiam ajudavam os ciclistas a atingir os seus limites mais rapidamente e facilmente. A EPO tornava ciclistas medianos em ciclistas fenomenais. Lance Armstrong, nunca foi um ciclista de elite, até se comprometer com o doping sistemático e com a ideia de que se ele se dopasse melhor que os outros, ganharia. A EPO e as transfusões de sangue tornaram Lance Armstrong um ciclista de elite e quase extraterrestre.

Há muita gente que tem a opinião seguinte "Ah, o Armstrong dopava-se, mas toda a gente fazia o mesmo". Isto não é bem verdade, muitos ciclistas se recusaram a tomar drogas para melhorar a sua performance. O que aconteceu foi que simplesmente não tinham qualquer hipótese de competir num pelotão em que maioritariamente os ciclistas se dopavam e muito.
Christophe Bassons, um ciclista que em 1999 tinha 25 anos, escrevia uma coluna para o jornal Le Parisien durante o Tour de 99. Ele escreveu que era impossível competir no Tour sem recorrer a doping e que as coisas estavam iguais e que nada mudara em relação aos anos anteriores. (Convém assinalar que em 99o Tour foi nomeado o Tour of Renewal pois em 98 deu-se um escândalo Festina em que grandes quantidades de substâncias dopantes foram apreendidas nos carros das equipas que corriam o Tour. 1999 era supostamente um ano de renascimento e de mudança)
No dia seguinte a essa coluna ter saído Lance Armstrong dirigiu-se a Bassons e disse (tradução livre) "O que disseste não é verdade, o que disseste é mau para o ciclismo, não o devias ter dito e não mereces ser um ciclista profissional, devias desistir, abandonar a carreira" terminando com um "Fuck you".
Isto à frente de todo o pelotão que nos dias seguintes tratou de dar o mesmo tratamento a Bassons que mais tarde abandonaria o tour e dois anos depois abandonou a carreira de ciclista aos 27 anos. Bassons era considerado um promissor ciclista com capacidades físicas naturais acima da média. Bassons foi obrigado a desistir do seu sonho porque simplesmente se recusou a drogar-se.

Outra coisa que se diz é "Não interessa o que tomam, interessa é ver um bom espectáculo". Já morreram ciclistas em circunstâncias estranhas após tomarem EPO. Para explicar convém clarificar o que faz a EPO. A EPO quando injectada induz a multiplicação de glóbulos vermelhos.. Estes glóbulos são os que transportam oxigénio aos músculos e que permitem mais esforços físicos e mais capacidade de esforço por mais tempo. Contudo, o aumento dos glóbulos vermelhos pode ser demasiado tornando o sangue demasiado grosso forçando o coração a mais esforço para bombear o sangue e, consequentemente, provocar paragens cardíacas mortais. Histórias se contam de ciclistas a levantar-se a meio da noite para fazer exercício físico para reduzir o nível de glóbulos vermelhos no sangue e evitar que esse nível suba demasiado.
Portanto a essas pessoas que apenas se interessam com o espectáculo deveriam pensar que um dia poderá ser o filho deles a chegar a esse ponto e a ligar para casa a dizer "Pai, se eu quiser perseguir o meu sonho tenho de tomar drogas". É um pensamento bastante trágico e triste.

Em cima de tudo isto há que ter em conta a personalidade de Lance Armstrong. Não é só o doping. Toda a gente que acusava Armstrong era vítima de um homicídio de carácter.

Emma O'Reilly era uma massagista de US Postal que revelou que Armstrong falsificou uma receita médica para encobrir um teste positivo de cortisona. Em resposta basicamente insinuou que O'Reilly era uma mulher que tinha tido casos sexuais com ciclistas e que por essas razões havia sido dispensada e que agora estava ressabiada e decidiu inventar essa história. Toda a gente acreditou no campeão que recuperou de cancro.

Betsy Andreu mulher de Frankie Andreu, ex colega de Armstrong, revelou que quando visitou Armstrong no hospital quando ele estava a ser tratamente ao seu cancro, ouviu Armstrong dizer aos médicos que já tinha tomado hormonas de crescimento, cortisona, testosterona e EPO. Armstrong limitou-se a dizer que ela era louca, e estava ressabiada porque o marido tinha sido dispensado pela equipa. Acompanhado de intimidações verbais e por escrito a Betsy e Frankie Andreu. Toda a gente acreditou no campeão.

Floyd Landis, ex-ciclista que pertenceu a uma das equipas de Armstrong revelou muitos detalhes da cultura de doping no ciclismo e concretamente de Armstrong. Lance procedeu a dizer que Landis estava ressentido e que era um renegado que havia testado positivo para doping e negado e que agora afinal admitia apenas por vingança. Toda a gente acreditou em Armstrong, excepto alguns investigadores do FBI que começaram a investigar e acabariam por destapar o véu de todos os esquemas de Armstrong.

Estes episódios, e muitos outros que não vou descrever, mostram aquilo que é pior acerca de Lance Armstrong. A sociopatia deste homem é incrivelmente profunda e o controlo da narrativa era essencial para ele, não interessa quem é prejudicado. Para Lance não há lugar para escrúpulos. Tem de ser tudo consoante a sua vontade.

Estas são as razões pelas quais é impróprio continuar a considerar Armstrong um campeão. A desilusão que ele provocou em muitos fans, como eu, e em muitos que sofrem de cancro, para quem ele era um exemplo, é maior do que se possa imaginar. Durante sete anos da minha juventude eu tive um herói que me fazia todos os dias pegar numa bicicleta e ir pedalar com tudo o que tinha. Tudo isso é basicamente apagado. Muito pior será para as vítimas de cancro que perdem uma pessoa para quem olhavam para ter esperança num futuro melhor.

Mas a cada um se dá o direito de julgamento, mas para mim a queda de Lance Armstrong apenas mostra que os heróis não o são.

Parvoices

Estava a ler coisas na internet quando me deparei com alguns comentários que me fizeram rir genuinamente pela parvoíce associada aos mesmos.

Passo a citar!

"Sim é verdade!!! Espantem-se os bolcheviques e os nacionalistas do protocolo, que o traje académico tem como missão basilar igualar toda a classe estudantil, independentemente de raças, credos, contas bancárias, partidos políticos, associativismos, cursos e filiações.

E assim dá-se o milagre social de o menino que usa t-shirt da Tommy, e a menina de blusão "Gap" não serem distinguíveis, quando bem trajados, dos manos "Batista" que apenas podem usar a T-shirt com publicidade à “auto-reparadora” da família!

Como estive lá, voluntariamente, a participar como caloiro e posteriormente como trajado, num período superior a “um bom par de anos”, falo com legitimidade, conhecimento de causa e espantem-se os activistas do MPRTMP (Movimento a Praxe Razão de Todos os Males de Portugal) serei imparcial, como poderão constatar, se se derem ao trabalho de ler o texto até ao fim, pois apontarei defeitos e virtudes, bons agentes e parasitas desta actividade.

Importa saber então, quem pode falar sobre este assunto. A saber… Praxistas e praxados em actividade, “ex-praxistas”, actuais e ex-alunos anti praxe e é aqui que há uma condição eliminatória para a discussão, DESDE QUE ESTES tenham ido a uma praxe mais que uma vez e tenham sido praxados por mais que uma pessoa!!! Quem apenas lá foi uma hora para ver se gostava, quem apenas lá andou um dia enquanto” não arranjava casa”, quem nunca participou activamente numa actividade de praxe, quem possa ter tido o azar de ser mal praxado UMA ÚNICA VEZ, por algum troglodita (que os há e muitos a contaminar a praxe) e decidiu, em consciência, não participar, não tem absolutamente voto nesta matéria.

Posto isto mais ridículo é quem nunca frequentou o ensino superior vir questionar ou defender isto ou aquilo que ocorre no meio académico. Não seria sensato, “ desancar” toda a população de Arraiolos pelo seu método de confecção de tapetes, quando nunca lá se esteve nem se percebe patavina de métodos artesanais de tapeçaria !!!!"


Isto anda para aí em Facebooks etc, eu queria só apontar algumas coisas. O traje serve para igualar toda a classe estudantil. Essa é bastante interessante. Porque então eu só posso ser um igual se tiver 250€ para gastar no traje. Palmas.
Dado que não estamos no Séc. XIX é um bocado palerma defender com esta veemência um simples pedaço de pano e proclamar aos céus a virtude do traje. Tendo ainda mais em conta esta situação muito simples, muitos praxistas tentam impedir os que não são praxados de trajar, portanto, bela teoria de merda, essa do traje para "igualar".

Mais engraçado ainda esta afirmação de que só pode falar da praxe quem já foi praxado, mas atenção, têm que ter sido praxados mais do que uma vez e por pessoas diferentes.

Eu conheço apreciadores de restaurantes para o Guia Michelin que foram despedidos porque não conseguiram ir ao restaurante a a avaliar e comer o mesmo prato feito por pessoas diferentes. Está lá escrito nos estatutos.

Para uma pessoa que brada tanto à igualdade que existe na necessidade de trajar, está a mostrar também um lado diferenciador. Eu só posso falar se experimentei duas vezes e com duas pessoas diferentes. Não interessa se eu vi alguém a levar um tiro, não posso falar porque nunca fui praxado.
Enfim, um rigor digno de um ditador que deseja diminuir o espectro de opinião para obter conclusões mais previsíveis.
Fico então a aguardar essas sondagens em que as pessoas que dão a opinião têm que ter estado em cada um dos partidos, pelo menos duas vezes e com sercretários gerais/presidentes de partido diferentes. Ou então aquela opinião informada que as pessoas têm sobre economia e finanças e que certamente se baseia em não uma, mas duas profundas participações nesse mundo. P-A-T-É-T-I-C-O

Depois este pequeno doce que encontrei na internet e que tive de ler porque de imediato quis verificar estes assuntos com os quais tenho de me identificar porque eu deito-me sempre às 8h30 da manhã. Um post chamado: 10 coisas que só quem se deita tarde é que percebe.

1- Percebe como é acolhedor o silêncio da madrugada; - Quando muito percebo como é sinistro o silêncio e a escuridão da madrugada. 

2- Percebe o que é ter muita fome e conseguir deixar a preguiça de lado e ir até à cozinha; - Como antes de dormir e só me ponho a pé em casos de extrema necessidade. Fome não é uma dessas necessidades.
3- Gosta de ter a companhia de uma televisão ligada, mesmo que não esteja a ver o que lá está a dar; - Esta deve ser só para palermas que não conseguem viver a sua própria vida
4- Não fica surpreendido por de repente ter uma enorme vontade de colocar todos os objectivos e projectos em prática de uma só vez; - Piada do Século. Eu quando me deito tarde não me surpreendo é por adormecer tão depressa.
5- Fica irritado quando alguém lhe manda bocas por dormir demasiado, quando apenas dorme 6 a 8 horas por dia e por vezes menos; - Trata-se de uma questão mais simples. Se estiveres rodeado por parvalhões recebes essas bocas. Eu nunca recebi.
6- Percebe a alegria de saber que um estabelecimento está aberto 24 horas por dia; - Percebo a tristeza de saber que há pessoas que têm de estar a trabalhar a horas em que é normal estar a descansar e nas quais há maior exigência física e psicológica.
7- Fica orgulhoso quando lê pesquisas que provam que quem se deita tarde é mais inteligente; - Meu deus. Há pesquisas claramente enviasadas no objectivo e essencialmente focadas em comunidades estudantis. Também dizem que quem fuma drogas é mais inteligente. Bem, boa sorte com o cancro.
8- Não compreende como há pessoas que conseguem acordar às 7h da manhã com bom humor; - Eu compreendo, mas os que não compreendem devem ser os que recebem o tratamento do ponto 5.
9- Tem inveja de quem se deita e adormece logo; - Já não tenho unhas de tanta inveja.
10- Sabe, verdadeiramente, o quão doloroso é acordar antes do meio-dia. - "Whatever"

Afinal não me identifico.

Finalmente. 


"Aquele momento onde acabas de ler um livro do Nicolas Sparks e estás a chorar como uma desalmada... — a sentir-se emocionada."
Não tenho grande comentário. Mas devo confessar que cagalhões nunca me emocionaram.

Lição sobre sinónimos - Praxe=Merda

Eu não queria falar disto, pois, tudo isto, vem na sequência de um acontecimento que até em mim me deixa um peso, quanto mais aos envolvidos.

Contudo, não posso deixar de me surpreender com todas estas questões das praxes e com a feroz defesa que é montada à volta das mesmas, só porque há indícios que toda a tragédia possa ter sido causada por um ritual de praxe.

Há algumas coisas em particular que me incomodam muito na posição de defesa da praxe.

Uma delas é aquela velha balela de que a praxe serve para integrar os novos alunos. Vivendo no Séc. XXI, seria, talvez, fácil de entender que nem toda a gente reage da mesma maneira aos mesmos estímulos e, por sua vez, a realização de rituais em que a humilhação disfarçada é o mote não é propriamente a maneira mais consensual. Seria muito mais consensual promover actividades de um carácter mais lúdico onde cada aluno pudesse escolher qual a actividade mais apropriada para si e para os seus gostos e que lhe daria a melhor possibilidade de conhecer pessoas que se encaixem no seu "mundo" por assim dizer. Portanto num ambiente em que o essencial é ter e providenciar escolhas às pessoas, a ideia de integração daqueles que são a favor das praxes é, precisamente, não dar escolha.

Mas, ouço os clamores a articular, mas as pessoas têm escolha, se não quiserem ser praxadas não são. Isto é a maior falácia que se pode dizer e, do fundo do meu coração, desejo que quem diz isso seja decapitado pelo mais fulminante machado.

É uma falácia porque eu já assisti a um caso e vivi de perto com outro caso em que ambos não quiseram ser praxados.
No primeiro um colega, que viria a tornar-se um grande amigo, recusou-se a ser praxado no recinto comum da escola. Foi perseguido até à sala de aula por um grupo de galinhas que insistia que ele não podia recusar-se porque toda a gente tinha sido praxada e porque ele estava a ser "má onda", até a professora interviu em favor da praxe interpelando esse colega a deixar-se praxar. Uma aula de história interrompida durante 30 minutos (sim, 30) porque houve uma ovelha negra que exerceu o seu direito de se recusar a ser praxado. Eu nesse dia fui praxado e nesse dia decidi que tinha sido a última vez que a praxe se relacionou comigo.
No fim o colega não foi praxado mas foi olhado de lado. Pelos praxantes e pelos praxados que não aceitavam que alguém se recusasse a ser humilhado como eles tinham sido.

No segundo caso, a posição de não ser foi recebida e depois motivo de uma pequena conversa aparte onde mais uma vez se não aceitas a praxe és má onda, estás a desrespeitar os teus colegas, estás a desrespeita as tradições da tua universidade (nem sei se hei-de rir ou chorar), é isso mesmo que queres? À manutenção da posição tomada em não ser praxada foi então declarada como aluna antipraxe. Porque não podes ser indiferente. Se não queres és anti. E os olhares de lado prolongaram-se durante toda a licenciatura.

Paralela nestes dois momentos é a coacção. A pressão para que te encaixes, a rotulação se não te encaixares, etc, etc. E nem adianta vir com fábulas (sim, fábulas no sentido de só nas fábulas é que porcos e burros falam*) de pessoas que se recusaram mas que depois se vieram a dar bem com toda a gente. Pois bem, remetendo para o que disse acima, as pessoas não reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Mais uma vez, trata-se de reduzir oportunidades e liberdade de escolha. É só a praxe, mas não é por isso que deixa de ser algo que pode afectar negativamente ou positivamente as pessoas.

Finalmente, a hipocrisia geral que são os seguintes factos.
-Quando há um livro que os professores revelam obrigatório de comprar, é imediata a aparência de carpideiras que, meu deus, não têm dinheiro. Mas têm traje que têm, quando comprados nas lojas, um valor pornográfico. Já para não falar dos jantares de curso ou, pelos vistos, de casas alugadas até, só para passar uns dias com vista a evoluir na vida.
-Têm o trabalho de justificar faltas para poder comparecer nas praxes, porque, obviamente, pagam as propinas para ir à praxe.
-Farto-me de ouvir rapazes a dizer "Eu?! Fato e gravata?! Nunca!". Mas quando se trata de envergar o traje, faça frio ou calor, aí andam eles. A escorrer suor pela focinheira abaixo.
-Farto-me de ouvir raparigas a dizer "Eu uso o que quiser, liberdade e não à objectificação das mulheres. Eu visto o que quiser independentemente da opinião dos meus pais ou do meu namorado, pensem o que quiser. Eu sou assim e não vou mudar". Chega à altura de andar de traje, em que são obrigadas a andar sem brincos, sem pulseiras, com sapatos simples em que até definem a altura do salto, e a resposta delas? Não há problema. São nestes momentos em que por um segundo a minha visão treme e apenas vejo um borratado da realidade, tal impulso de repugnância para com este mundo.

E a lista de coisas que eu poderia enumerar é extensa. Mas nem sequer vale a pena. Apenas fica aqui a minha opinião. E qualquer defesa destes factos é, desde logo, inexequível.

*Os porquinhos e os burrinhos que me perdoem, pois como animais não tenho defeito a apontar-lhes, bem pelo contrário.

Preencher título

Um destes dias surpreendia-me com o facto de José Pedro Vasconcelos apresentar o 5 para a Meia Noite. Ainda gostava de saber como se evolui de Batanete para apresentador de um programa, supostamente, representante da cultura jovem portuguesa que surge por estas alturas.

Quando vi reparei também que o convidado dele ia ser o Ricardo Araújo Pereira, assim sendo e por curiosidade fui ao youtube ver se existia algum snippet da sua aparição. O que encontrei foi isto, publicado pelo próprio programa no Youtube.


Já me ri bastante com o humor dos Gato Fedorento quando era mais novo, diga-se há cerca de cinco ou seis anos atrás e não posso dizer que tenha deixar de encontrar graça em muitas das coisas que eles fizeram, contudo não mais consigo encontrar a frescura e originalidade que tantas vezes lhes é, de forma errada, imputada.

De qualquer das formas, algo mais incrível me saltou à vista no vídeo publicado. Basicamente, este vídeo consiste de várias personalidades que falam de Ricardo Araújo Pereira de forma altamente elogiosa em geral. Então o que é que me saltou à vista?

Aparte dos dois senhores que aparecem no início do vídeo, praticamente todos os outros falam mais de si próprios do que do Ricardo Araújo Pereira.

Mário Soares - "... e além disso, uma pessoa que é amigo de Portugal e sabe o que é ser português." Isto é um texto que me soa recorrente do Mário Soares hoje em dia.

Paula Moura Pinheiro - "... o que ele faz é perturbar tudo o que está instituido, nomeadamente, aquelas verdades indiscutíveis..." e depois procede para falar do aborto e do discurso do Marcelo Rebelo de Sousa, resumindo tudo aquilo que ele possa ter feito (convém não esquecer que os Gato Fedorento não são só o Ricardo Araújo Pereira) a um ponto com o qual, implicitamente, ela está mais de acordo. De cabeça, sem ser fan, lembro-me de meia dúzia de sketchs onde não há verdades indiscutíveis a serem "desmontadas". Ainda diz mais umas parvoíces perdendo todo o capital de simpatia que tinha por ela.

Jerónimo de Sousa - "... ele hoje representa também a capacidade de transformar o humor numa arma carregada de alegria contrariando a ideia do povo fatalista do povo conformado, antes pelo contrário..." "Need we say more?" nas palavras imortais de John Cleese n' O Sentido da Vida. De qualquer das formas discurso à PCP uma coisa qualquer que é afinal uma arma contra a mentalidade insituida do povo fatalista e conformado.

Luís Filipe Vieira - "...Sei que já tens mais alguma experiência que eu, pelo menos já estiveste no Estádio da Luz a jogar (talvez a ver jogar, mas bem) com grandes craques como Rui Costa, Aimar e outros, por isso, é algo que nunca tive essa felicidade..." Ironia em favor próprio.


Obviamente, estas pessoas não estão a falar de si próprios. Estão sim a veicular uma mensagem através de algo que se identificam e não foram objectivas. Supostamente era para falar do Ricardo Araújo Pereira e das suas qualidades. Não para dizer "ah gostei muito de x porque reflecte bastante aquilo que quero dizer" que foi, basicamente o que as pessoas fizeram. 

Mas isto é uma sina que Ricardo Araújo Pereira terá de viver enquanto não se transformar num anónimo. Veja-se, por exemplo, o riso desmedido e completamente artificial do etc Vasconcelos no final do vídeo. É a sina das pessoas acharem o que querem achar e não aquilo devem. É rirem-se o que querem, por pré-definição, em vez de se rirem adequadamente. Eu, por motivos profissionais já "convivi" com o Ricardo Araújo Pereira e, sendo ele uma pessoa bastante bem educada, quem o rodeia não perde oportunidade de se rir excessivamente de pequenas piadas, o que constitui um hábito de pequenez desprezível. Ele, se for tão inteligente como aparenta, sabe e percebe isso. Contudo, se ele for mesmo inteligente também compreenderá o falhanço que o coiso Vasconcelos representa, ainda assim compareceu no programa dele.

Saber e não querer saber

Qualquer pessoa que acompanhasse este blog com relativa regularidade poder-se-á perguntar se os autores do Taste of Orange ainda estão vivos.

A verdade é que estamos, neste caso, estou. A razão de prolongado silêncio tem um motivo, bem válido, que provavelmente se arrastará durante algum tempo.

A convivência humana é um poço infinito de estupidez e palermice. Sempre que me entrego à indulgência de ler, ouvir e até debater invariavelmente deparar-me-ei com essa estupidez, salvo em alguns casos excepcionais em que vale a pena estimular essa convivência, contudo esses casos não são mais que excepções que comprovam a regra.

A minha descrença na humanidade fez com que ao longo dos anos a minha convivência pessoal fosse diminuindo. Estou pouco disponível para conversas e quando estou sou um cavalo sem freio no que às minhas opiniões e inabaláveis convicções diz respeito, o que faz que as outras pessoas fiquem indisponíveis para conversas, pois parece haver muito pouca gente que queira ter uma boa discussão acerca do que quer que seja, limitando-se apenas a dar respostas genéricas como "pois.." ou "sim, realmente..." mas nunca preenchendo as reticências dado que as suas mentes abafadas e bafientas não o permitem.
Vem-me à cabeça um evento em que alguém após uma pergunta acerca da sua opinião sobre certo assunto disse que "as pessoas não simpatizaram muito" nem dando a sua opinião, nem reconhecendo a sua hipocrisia no assunto concreto. Pensar que alguma vez simpatizei com a pessoa em questão cria um coágulo sanguíneo na parte do meu cérebro que avalia a minha própria inteligência, pois simpatizar com tal baixo nível intelectual é chocante.
Ainda assim, este afastamento dessa convivência pessoal não me blinda de ter contacto com palermices. Basta ler uma notícia e ver os comentários da mesma, ouvir outras pessoas a falar, ouvir pessoas a falar no comboio, no trabalho, ler comentários no youtube, ver blogues, observar perfis de facebook etc etc etc.

Lembro-me do jornalista David Walsh, um dos mais persistentes em afirmar que Lance Armstrong usava doping desde a altura da sua primeira vitória no Tour, que sempre que via alguém com a pulseira Livestrong não se conseguia conter em dizer a essa pessoa que ao usar essa pulseira suportava não apenas a luta contra o cancro mas também uma fraude. As pessoas afastavam-se dele após ouvirem as suas teorias, na altura mirabolantes, agora confirmadas com variadas provas.

Eu sou um pouco assim, ou melhor, era. Tenho muita dificuldade em me conter quando ouço/vejo certas estupidezes. Isso era essencialmente aquilo que me motivava mais a escrever no blog, um ventilar do incómodo que me causava o simples facto de certas pessoas simplesmente existirem.

Então, no final de umas saudáveis férias em Julho tomei a decisão de não entrar mais em qualquer rede social, não ler mais os comentários das notícias ou do youtube, usar religiosamente o leitor de MP3 quando vou no comboio e até algumas vezes quando vou a pé para não ter que ouvir as pessoas a falar, basicamente abstraindo-me de ouvir opiniões, excepto aquelas que eu quero ouvir.

Poderão dizer "Ah, mas assim andas apenas a não ouvir e nunca saberás o que se passa à tua volta". Para ter este pensamento é preciso ter já de si uma boa dose de palermice, porque é por saber o que se passa que eu não quero saber mais. Não quero mais ler futilidades em páginas de facebook em que as pessoas cozem a sua vida com linhas de ouro e a sua intelectualidade com linhas de merda resultando num espectáculo macabro de superficialidade. Não quer mais ouvir pessoas a falar do que não sabem, nem quer mais saber daquelas pessoas que usam as opiniões dos outros sem nunca se preocuparem em cimentar a sua própria opinião. Eu sei que isso acontece e não preciso de recalcar isso nem quero.

A necessidade que tenho de contrapor as opiniões absurdas dos outros nunca me causou mal estar. Continuo a ter esse ímpeto quando algo que não posso evitar acontece e tenho de me deparar com essas opiniões, mas pelo menos também sabe bem concentrar-me noutros assuntos. Só tenho pena de não ler muito ultimamente, porque de resto comecei a apreciar coisas que não apreciava dantes e a ter interesse em assuntos que não tinha dantes. E isso é bom e eu sinto-me bem.

Leituras (continuação)

Continuando o post de ontem.

A minha reacção quando vejo as notas de tradutora nos livros do Murakami

Harry Potter and The Deathly Hallows - JK Rowling

O livro final da série, que li toda, obviamente, antes de ver os filmes.

Creio que meio mundo avalia Harry Potter pela qualidade dos filmes que é, diga-se, horrível. Contudo, os filmes não são os livros. Ninguém pode dizer que Harry Potter é um clássico da literatura mundial ou que é algo de transcendente. Não é, se pensarmos como adultos, mas para um livro concebido para jovens é um excelente livro. Creio que a tradução em português não faz jus ao original. Do quarto livro para a frente li sempre em inglês e a escrita torna-se bastante mais envolvente.
A capacidade de Rowling em criar enigmas e de tricotar uma história com vários pormenores que se vão cruzando e descruzando de forma natural é de louvar e não admira que ela tenha enveredado por escrever um policial pois esse tipo de escrita é ideal para os policiais.
Quanto à saga, gostei bastante de ler. É algo que se lê bastante bem e é cativante, sem cair na mediocridade de linguagem ou estilística. Este é o pormenor que para mim diferencia este livro de Twilights e Sherrilins e o diabo a sete.


O Estrangeiro - Albert Camus

Gostei bastante deste livro. A edição que eu li tinha um prefácio de Jean Paul Sartre que me preparou bastante bem para a leitura do livro. Não é difícil de ler e não é aborrecido. É, aliás, bastante ilustrativo do absurdo que Camus defende. Gostei do facto da escrita ser muito simples e descrever um personagem que embora não se possa dizer que seja complexo, era uma personagem suis generis.
De resto tenho por hábito volta e meia dizer que estou a entrar em modo Mersault sempre que me deparo com humanos apalermados.

Underground - Haruki Murakami

Um livro documentário acerca dos atentados de Tóquio com gás Sarin.
Um documento interessantíssimo acerca daquilo que acontece quando há atentados, do ponto de vista humano. Para nós que apenas vemos as notícias, são apenas números, mas para os familiares das vítimas são pessoas que deixaram de ser e que deixaram um vazio impossível de preencher. Impressionaram-me particularmente os testemunhos de um homem cuja irmã ficou em estado quase vegetativo (à altura do livro estava a fazer progressos, mas nunca poderia ter uma vida independente) e que necessitava de cuidados permanentes, e o testemunho de uma mulher cujo marido morreu quando ela estava para dar à luz um filho. É por este tipo de realidade que me repugna quando ouço pessoas a dizer que "isto precisava era de um atentado" ou coisas do género, bastante comuns de se ouvirem.
O livro está dividido em duas partes. O testemunho das vítimas e familiares das vítimas e o testemunho de pessoas que integravam a Aum Shinrikyo, seita responsável pelo atentado. A segunda parte é um testemunho incrível daquilo que o fanatismo é capaz.
Creio que alguma ficção de Murakami é altamente influenciada pelos relatos deste atentado. Não vou estar aqui a dissecar isso, porque não quero dar spoilers, mas a verdade é que Murakami ficou profundamente impressionado com estes testemunhos, por isso seria completamente normal que a ficção dele reflectisse um pouco esses acontecimentos.

E bem, acho que estes foram mesmo os livros que li este ano. Assim de repente não me ocorre mais nenhum, embora talvez seja uma falha de memória.

Leituras

Nunca fui muito de manter diários de leitura.

Não tenho nem paciência nem persistência para manter um diário de leitura nem para ter um perfil de goodreads, como muita gente tem.

Assim sendo, e dado que hoje me apetece falar dos livros que li este ano, que me lembro, venho aqui deixar este post.

Ora então cá vai, sendo que certamente me esquecerei de alguns. Vou começar pelo último que li, desfrutem.






Polikuchka - Tolstoi

Este acabei de ler anteontem. Gostei bastante. Tolstoi é um escritor que me envolve bastante bem nas suas obras. É um conto e é bastante leve e fácil de ler. Se há coisa que não compreendo é algumas pessoas que dizem que a escrita de Tolstoi é muito pesada. Se calhar na Guerra e Paz (que ainda não li) até é, mas em livros como este, Felicidade Familiar, Hussardos, A Morte de Ivan Ilitch ou a Sonata de Kreutzer o estilo é bastante fácil de ler. Talvez o ambiente seja pouco positivo e até um bocado negro em alguns, mas o estilo não é assim tão pesado. Não é pesado de todo, diria.

Calígula e o Equívoco - Albert Camus

Li este livro porque estava a passar férias na casa da minha querida namorada e não queria começar a ler um livro que se arrastasse depois do fim das férias. (essa foi a mesma razão pela qual peguei no Polikuchka para ler, de resto) Já sei que depois das férias o meu ritmo de leitura abranda e, por isso, se pegasse num livro muito grande iria dar um avanço nas férias e depois do fim delas iria arrastar até o acabar.
De qualquer das formas, são duas peças de teatro no mesmo cumprimento de onda de O Estrangeiro. O absurdo continua em evidência, contudo, não achei que as peças fossem assim tão dramáticas (no sentido teatral) nem achei que mostrassem assim tão explicitamente o absurdo da vida. Tudo bem, que ele está lá, mas não parece o assunto central, por assim dizer. Talvez o maior defeito é que quando lemos as primeiras páginas o final já se torna demasiado previsível.

Billy Budd - Herman Melville

Escolhi aqui mais um livro curto. Já tentei ler o Moby Dick e acabei por desistir a meio. Decidi dar segunda chance num livro muito mais pequeno, em que Herman Melville conta mais uma história acerca de marinheiros.
Eu gosto da escrita de Melville. Há algo de suis generis na forma de ele escrever que me agrada. Não sei se são as analogias que ele volta e meia usa para descrever algo, ou se será a sensação de oralidade no livro. Isto é, muitas vezes é como se ele nos estivesse a contar a história de boca numa taberna qualquer e até de certa forma ao sabor daquilo que a memória lhe traz.

1Q84 - Haruki Murakami

Li este livro em inglês porque obviamente a tradução em português é a maior palhaçada e estupidez que já vi em termos de traduções para português. Em cima de uma tradução medíocre acrescentem a tempestade convulsiva de notas extemporâneas e descabidas, gentileza da nossa querida Maria não sei quê (desculpem lá, mas fico tão ultrajado que nem me apetece ir procurar o nome da senhora. Já sei que irei dar a um certo clube de fans que masturba o ego da senhora e agora não me apetece).
Eu li os três livros em inglês e não vi uma única nota (NENHUMA). Folheei o livro na fnac em português e encontrei notas que até me fizeram tremer as pernas.
De qualquer das formas, a edição que eu li é uma belíssima edição em capa dura em que vêm os três livros juntos, portanto para mim o 1Q84 livros um, dois e três, são para mim apenas um, apesar de vir mencionada no livro a separação entre livros.
Demorei bastante tempo para o ler e isso acabou por prejudicar a apreciação do livro. Achei que, ao contrário de outros livros dele, nada de espantoso acontece e a narrativa segue um caminho calmo e, diria mesmo até, previsível. As personagens são muito boas, como de costume nos livros dele, e a história tem muito de surreal. A escrita, bem, é a escrita de Murakami, que só lendo é que se poderá explicar. Penso que a minha impressão do livro poderia ser melhor se o tivesse lido num menor espaço de tempo, mas bem, talvez numa próxima.

Pole to Pole - Michael Palin

O meu Python favorito também faz documentários de viagens. Esta é uma viagem feita em 1991 desde o Polo Norte até ao Polo Sul e é um belo documento ao estado do mundo nessa altura. A viagem é feita junto à linha de 30º de longitude, que atravessa a maior parte em terra. Para chegar de um ponto ao outro é utilizado essencialmente transportes públicos, terrestres sempre que possível e marítimos ou aéreos nas restantes ocasiões.
Gosto neste livro do mesmo que gostei quando li Nova Europa. É a simplicidade com que a viagem se faz e o facto de na maior parte das vezes Palin comunicar com as pessoas e não com as grandes personalidades ou com presidentes das localidades onde passa. Normalmente acaba por falar com um artesão ou motorista ou feirante e, dessa forma, é possível ter uma perspectiva bastante simples e realista da verdadeira realidade em cada um dos lugares. O livro não é muito grande, mas quando lido as terras europeias atravessadas no início parecem muito distantes quando nos aproximamos do fim. A travessia de África é um documento acerca do estado de abandono desse continente, que muita gente gosta de ignorar. Li em inglês, dado que nem sequer existe edição deste livro em português.

E bem, hoje fico por aqui, talvez amanhã continue, dado que ainda li mais alguns livros este ano.

Porque gosto de Rurouni Kenshin (Samurai X)?

Uma nota prévia:

Este blog não tem tido a regularidade (que nunca foi muita de resto) que teve em outros tempos.

Reflectindo, essencialmente tenho escrito aqui sobre coisas variadas e essencialmente criticado a hipocrisia e falta de senso comum das pessoas de Portugal.

Contudo, cada vez mais me falta a vontade de me preocupar com isso, porque, na verdade, quem é que quer saber do que eu tenho ou não para dizer? E, por outro lado, sinto cada vez menos necessidade de vir aqui proclamar a minha discordância ou opinião.

De qualquer das formas, isto é apenas uma pequena nota para qualquer leitor deste blog que eventualmente o acompanhe.

Quanto à critica. Há várias criticas que me apetecem fazer. Mas na verdade, como descrito acima, falta-me vontade de falar dessas coisas. Parece-me uma perda de tempo desnecessária.

Posto isto, passo à razão de ser deste post.

Porque gosto de Rurouni Kenshin? Há tantas razões...



Rurouni Kenshin é um animé, relativamente antigo (1996), mais conhecido para estes lados como Samurai X. Foi transmitido na TVI (ou se calhar ainda era a 4 na altura). Na altura da transmissão eu devia ter uns 11 anos, talvez, e lembrava-me vagamente dessa personagem que era um samurai chamado Kenshin e que tinha uma cicatriz em forma de cruz na face. Até há pouco tempo era apenas uma memória vaga, mas que sempre relembrei com algum carinho porque realmente gostava dessa personagem. Contudo, recentemente, a minha querida Efémera, falou-me de um animé sobre um samurai que, pela descrição, me chamava alguma atenção, toda ela confirmada pelo nome. Rurouni Kenshin. Foi assim com alegria que vimos os dois este animé de 95 episódios que passam a voar. E assim também relembrei o porquê do meu carinho pela personagem.

Este animé conta a história de um samurai que viveu durante o Bakumatsu (período correspondente à queda do Shogunato e passagem ao Império Meiji no Séc. XIX). Bakumatsu foi um período de lei marcial em que era cada um por si, basicamente. Kenshin era um hitokiri (traduzido no português como esquartejador, mas na verdade seria mais um assassino profissional) temido pela sua habilidade de espadachim e conhecido como Hitokiri Battousai (Battousai vem de Battoujutsu, que é o ataque  ao desembainhar a espada, no qual Kenshin é especialista). O animé passa-se 10 anos depois do Bakumatsu, no período Meiji de paz e Kenshim é um rurouni (wanderer em inglês que nas nossas traduções era vagabundo). É contudo um rurouni que tem um compromisso de não matar, após o período sangrento que havia atravessado, e que se comprometeu a defender as pessoas com que se cruzasse usando a sua espada com gume invertido (sakabato).

É neste contexto que se desenvolve o animé. Kenshin encontra pessoas das quais fica amigo, contudo no seu coração permanecem todos os problemas de ter sido um assassino temido durante o Bakumatsu. Tão característica cicatriz na cara, faz com que o seu passado nunca seja esquecido, aparecendo, sucessivamente, adversários com sede de derrotar o lendário hitokiri. O enredo desenvolve-se de forma bastante interessante, mas não vou descrever aqui porque vocês podem querer ver depois.

Apenas vou dizer que o que me faz gostar bastante deste animé são várias coisas.



A personalidade de Kenshin Himura é algo que me comove profundamente. Aqui está alguém que percorreu um caminho de sangue, que era um espadachim formidável e o mais temido, que deixou um rasto de sangue e que desapareceu após o Bakumatsu. Apesar disso é a personagem mais amável, razoável e compreensiva. Não obstante todos os conflitos entre ser um assassino ou não e todos os problemas e oportunidades que o seu passado lhe apresente, ele mantém-se fiel ao seu voto. Não matar. A generosidade desta personagem é enorme e, quando vejo, só tenho vontade que o deixem em paz e parem de o atormentar com o passado que já é de si um tormento constante.

A camaradagem neste animé é algo que também me satisfaz bastante. A forma como a lealdade é um princípio tão importante e tão indispensável para algumas personagens que se mantêm juntas, aconteça o que acontecer.

De entre as personagens há delas simplesmente apaixonantes, para além do próprio Kenshin.

Kaoru Kamiya, é a principal companheira de Kenshin durante o animé e a sua determinação junto com a sua atitude um tanto ou quanto desajeitada fazem com que esta seja uma personagem bastante magnética e com a qual simpatizo muito.



Sanosuke Sagara é o lutador que luta por lutar e que é um bocado (bastante) "reckless" mas que no seu âmago valoriza a lealdade pelos seus amigos, pelos seus princípios e pelo seu passado. E nunca desiste, nem rejeita uma boa luta, claro.



Saito Hajime. Um antigo capitão dos Shinsengumi (brigada especial de samurais pro-shogunato). Espadachim fantástico que segue o seu lema à risca. O seu lema é Aku Soku Zan (tradução livre seria "eliminar o mal imediatamente"). No período Meiji passa a ser um polícia especial mas o seu lema é o mesmo. A sua polaridade com Kenshin (eram inimigos durante o Bakumatsu) é bastante interessante de seguir e a luta que existe entre os dois durante o animé é memorável. Eu gosto da convicção desta personagem. A forma como não se desvia dos seus ideais por nada e como compreende que o mundo é diferente, mas os ideais dele são o mais importante. E a voz dele (em japonês) é algo por demais adequado ao personagem. De resto a voz é adequada em todas as outras personagens, mas aqui um pouco mais que no resto.



Hiko Seijuro. O mestre de Kenshin. Uma pessoa simplesmente demasiado espectacular para existir. Um homem extremamente forte e inteligente, mas que prefere estar afastado de tudo a fazer potes de cerâmica e a meditar, em vez de usar as suas capacidades em prol do que quer que seja. A sua leve arrogância e a perfeita consciência das suas super capacidades tornam esta personagem absolutamente irresistível.



Finalmente, e finda a parte das personagens, uma coisa que me agrada muito neste animé é a conexão com a história real do Japão.

O Bakumatsu foi de facto um período verdadeiro. Aconteceu de facto e neste período a luta nas ruas centrava-se entre Shinsengumi (pro-shogunato) VS Clãs pro-imperialistas.

Os Shinsengumi existiram de verdade e o comandante do 3º Esquadrão chamava-se Saito Hajime. Este era de facto um espadachim fora do normal temido entre todos e até mesmo pelos próprios Shinsengumi, pois Saito Hajime matou outros Shinsengumi por estes estarem a fugir aos ideais do grupo, daí provavelmente na versão ficcionada o autor do Manga lhe tenha dado o lema de Aku Soku Zan, porque o verdadeiro Saito Hajime guiava-se por essa directiva. O verdadeiro Saito Hajime também se tornou num agente especial da polícia japonesa, tal como no animé.

Os Clãs Imperialistas lutavam nas ruas e usavam Hitokiris para assassinatos especiais. Um Hitokiri era alguém com capacidades de espadachim fora do comum, capazes de matar os samurais "normais" de forma muito fácil e quase sem esforço. Estes Hitokiri eram então usados para assassinar figuras chave do Shogunato, durante a noite.

Kenshin Himura é baseado num Hitokiri que existiu chamado Gensai Kawakami. Kawakami foi um Hitokiri que se tornou conhecido pela sua estrutura franzina, quase efeminada (tal como Kenshin) e especializou-se no seu Battoujutsu (tal como Kenshin). Criou o seu próprio estilo chamado Shiranui que consistia em prever os movimentos do adversário e usar da rapidez que o seu corpo frazino proporcionava para atacar mais depressa. (Kenshin Himura usa o estilo fictício Hiten Mitsurugi, que podia ser descrito com as mesmas palavras que descrevi o Shiranui).

Esta conexão com a verdadeira história do Japão é fascinante. Muitas das temáticas da história do animé têm a ver com o ajuste que os samurais tiveram de fazer entre o Bakumatsu (período de guerra total) e o período Meiji (período de paz onde era proibido andar com espada). Muitos desses samurais foram presos ou assassinados e os Hitokiri tiveram na sua maior parte o mesmo destino. Em Rurouni Kenshin o problema do samurai inadaptado é constante e esse problema também foi constante durante os primeiros anos da era Meiji real.

Ao rever este animé percebo perfeitamente porque é que enquanto criança gostava tanto de o ver e hoje ainda gosto mais!

P.S. - Se houver alguma incorrecção nos termos japonês, não se preocupem em fazer notar, não escaparei impune de qualquer das maneiras. Há-de haver uma certa pessoa que se encarregará de me dar uma boa palestra acerca de qualquer erro que eu dê :)