Am I right?

Muitas vezes, sou acusado de não ser muito sociável e não me esforçar para manter amizades vivas.

Venho então contar uma história, muito recente, para elucidar a minha posição em relação à acusação.

Em tempos tive um colega de trabalho com quem me dei bastante, bem. Falávamos bastante nas nossas trocas de turno e até nos encontrámos uma vez fora do trabalho para tomar um café, coisa que raramente faço porque, normalmente, não gosto de grandes intimidades com colegas de trabalho.

Mas bem, com este colega senti que me dava bem e que poderia ser honesto em muitas das minhas opiniões controversas. Por exemplo, a minha teoria segundo a qual as pessoas só gostam de leite por pressão social.

De qualquer das maneira, a primeira coisa que me incomodou um pouco, foi este colega ter deixado o trabalho de forma extremamente repentina e sem aviso, deixando os colegas de secção em posição delicada. Pessoalmente, tive de adiar as minhas férias para fazer face à saída repentina. Mas o que me incomodou mais ainda foi o facto de não ter tido a simples atitude de mandar um sms ou falar pessoalmente e deixar-me a par da situação, em vez de me deixar ser surpreendido com a saída e consequentes consequências (por assim dizer).

Eu tinha emprestado um livro a este colega (vejam lá a confiança que eu não tinha). Um livro, que como todos os que são do Júlio Verne, é-me muito querido.

Após algum tempo da sua saída do meu trabalho contactei-o para marcarmos um café. Não vou dizer que não tinha interesse em reaver o livro, mas a verdade é que também gostaria de falar com ele e saber o que ele andava a fazer etc. Marcou-se um dia que foi desmarcado em cima da hora.

Após mais umas semanas largas, voltei a contactar, mas desta vez não havia possibilidade. Entre estas vezes não recebi nenhum contacto de volta.

Após mais umas semanas, contactei novamente, e desta vez ficou marcado novamente mas com um ponto de interrogação porque não sei o quê e ele poderia não ter tempo de ir ter comigo embora viesse até à minha cidade. Disse ok, e que se ele não pudesse vir ter comigo e quisesse entregar o livro que o deixasse no trabalho do meu pai que era fácil de chegar. Assim foi, o encontro foi cancelado e o livro entregue no meu pai.

Deixei passar mais de um ano e até hoje nem uma mensagem me chegou. Portanto ainda bem que pelo menos o livro voltou às minhas mãos.

E voltando à acusação inicial, eu não me esforço para manter amigos. Mas a verdade é que neste caso, por duas vezes tentei marcar algo e o problema para mim não é que tenha havido impossibilidade, mas sim que não tenha havido vontade. Porque se houvesse vontade tinham havido outros contactos e poderíamos ter arranjado uma situação qualquer em que fosse possível encontrar-nos e conversar e etc, aquilo que amigos fazem.

Posto isto, eu é que me devo esforçar, ou os outros não têm de se esforçar também? Que mais deveria fazer. Ir de joelhos até casa dele para que ele viesse tomar um café comigo. Nem pensar.

Para mim, amizade é recíproca e, neste caso, não fosse pelo livro ao fim da segunda tentativa deixava de tentar, porque obviamente para mim não funciona de todo ser só eu a ligar e tentar marcar coisas. Se me derem a entenderem que não estão interessados, eu não interessado estou, porque, francamente, algo melhor do que ficar em casa com a cara metade a ver os gatinhos fazerem parvoíces?

MH17

Não era para escrever nada acerca disto, mas vou escrever porque já irrita e vai continuar a irritar.

O voo MH17 que foi abatido/despenhou-se (sim, porque aparte das conclusões super rápidas dos EUA em assuntos que lhes convem, ainda não há assim tantas provas, daquelas em que se possa acreditar a 100%. Só gostava que os EUA fossem rápidos a esclarecer outras coisas, mas enfim) e desde então, como é perfeitamente natural, muitas mensagens de luto e lamentação apareceram.

Perfeitamente normal, volto a sublinhar.

O que não é perfeitamente normal é a exacerbação das mortes porque eram investigadores contra a Sida. Esta ideia de que as coisas são mais ou menos trágicas porque não sei quem ia no avião é ridícula e só serve, exactamente, para exacerbar o incidente através da sensibilidade da questão que é a Sida.

Curiosamente, muitas das pessoas que fazem este luto apalermado por investigadores que não conhecem, só porque eles eram investigadores, são muitas das mesmas pessoas que se queixam que a vida só vai mal para nós e os políticos é que estão bem, inferindo, e criticando, a ideia de que há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Contudo, na hora de lamentar as mortes de um desastre aéreo, lamentam sempre mais intensamente as mortes de uns quantos que iam lá e que eram assim e assado. Aqui já é ok haver cidadãos de primeira e de segunda.

Quanto ao acidente, não devemos crer em interpretações imaturas e precipitadas, diria mais, propositadamente precipitadas, acerca de um incidente ocorrido num local onde a informação é confusa e difícil de obter. Portanto, é estranho que em menos de 24 horas um país tenha vindo a terreiro dizer que já sabia tudo o que se tinha passado com 100% de certezas.

Mas bem, cada um acredita no que quer. Apesar de este ser considerado, por algumas pessoas, o incidente mais trágico envolvendo acidentes de aviões, para mim continuo a achar o do AF447 muito mais trágico a nível humano, por todas as vertentes do acidente.

Outra vez

Todos os anos pelo 25 de Abril a história repete-se. Cravos, liberdade, os heróis etc. etc.

Uma história que se repete e que não devia de se repetir é a proeminência que os Capitães de Abril assumem nesta altura.

Antes de começarem a perder massa encefálica à toa, quero dizer que, obviamente, estou grato à liberdade proporcionada pelos Capitães de Abril através das suas nobres e heróicas acções no dia 25 de Abril de 1974, mas também em todos os dias anteriores em que delinearam secretamente toda a estratégia, de forma clandestina e também aí arriscando a sua pele.

Mas, este é o único louvor que se deve atribuir aos Capitães de Abril. Um louvor digno das maiores apreciações, principalmente por esta altura, digno de monumentos, nomes de ruas e mais alguns louvores públicos.

Contudo as acções heróicas são invalidadas, tanto pelos Capitães, como pelos cidadãos, sempre que por esta altura a opinião dos Capitães torna-se demasiado relevante e demasiado reivindicativa.

Nestes dias fala-se dos Capitães que só estariam presentes se pudessem discursar no parlamento.

Eu concordo plenamente com o impedimento do discurso. Parece-me óbvio, aliás, independentemente do discurso que quisessem fazer, fosse ele a favor do governo, contra o governo, a favor da troika, contra a troika, a favor da inspecção automóvel, contra a inspecção automóvel, a favor dos arruamentos do São João, contra a cor das placas de sinalização rodoviária, parece-me óbvio que os Capitães de Abril não têm lugar a discursar no parlamento.

Até porque, não era a Revolução de Abril uma iniciativa para dar o poder ao povo? Eu não votei nos Capitães de Abril, nem lhes reconheço qualquer direito a expressarem-se no local onde os interesses do povo devem ser defendidos.

"Mas," ouço vozes clamorosas a dizer "eles defendem os interesses do povo".

Pode até ser, mas eu não poderei discursar no parlamento sob qualquer tipo de circunstância. Os militares que lutaram no ultramar também não podem. E os interesses do povo são algo de relativo.

Por esse argumento qualquer um poderia lá ir com o pretexto de defender os interesses do povo.

Depois também há aquele argumento de que os Capitães deveriam discursar porque foram eles que criaram as condições para que existisse democracia. Há aqui algumas coisas a apontar. É que, por exemplo os Capitães de Abril proporcionaram uma democracia na qual erradicou-se o poder de pessoas que estavam no poder por defeito. Os lugares como o parlamento são para ser ocupadas por representantes legítimos, através de eleições, pelo povo. Não para ser ocupados por este ou por aquele que apenas porque teve uma acção louvável já tem direito a falar.

Vejamos por exemplo o caso de Otelo Saraiva de Carvalho que teve um papel mais que duvidoso nos eventos do 25 de Novembro de 1975, deve ele ter assim tanto direito a uma intervenção no coração da democracia?

E mesmo que fosse o mais virtuoso, não há absolutamente nenhum voto do povo para lhe dar esse direito.

Eu sei que dirão que os que estão lá no parlamento também são duvidosos, mas, apesar de eu concordar em parte com isso, foram eleitos para lá estar. Eleitos pelo povo e não por uma circunstância.

A questão dos Capitães de Abril serem heróis é meramente circunstancial. A Revolução poderia nunca se ter consumado e daí a dez anos existirem outros revolucionários. Por muito valor que as acções dos Capitães de Abril  tenham, elas são frutos da circunstância e da mesma maneira que foram a elas a desencadear a Revolução, poderiam ter sido outros.

Finalmente, fico boquiaberto quando vejo pessoas que dizem/escrevem que a Presidente da Assembleia da República desrespeitou os Capitães e que se esquece que se exerce o cargo que exerce é porque alguém o proporcionou. Fantástico de ouvir numa país em que metade da população votante abstém-se, e orgulha-se disso, esquecendo que houveram esses mesmos Capitães a arriscar a vida deles para nos proporcionar esse direito.

Coerência não é, definitivamente, o forte dos portugueses.

Resumindo, os Capitães de Abril devem ser homenageados e devemos sempre lembrar que a nossa democracia poderia ser dez ou vinte anos mais nova do que é ou poderia até nem ser. Contudo, é mais que altura dos Capitães entregarem os frutos da Revolução à mercê do tempo e dos acontecimentos. Fizeram a Revolução mas a Revolução é de todos e como tal devemos todos respeitar da mesma maneira os princípios da mesma. Se não discursam no parlamento, discursam noutro sítio qualquer, com o direito que lhes assiste e toda a gente verá e toda a gente entenderá a mensagem.

O outro lado da moeda

No outro dia escrevi um post acerca da desilusão que represente Lance Armstrong.

Enquanto mantenho a ideia de que não há heróis, a verdade é que há alguns heróis que não são, nem devem ser, cantados ou louvados. E são estes heróis que vale a pena valorizar. E muito.

A história de Lancer Armstrong revela-nos um desses heróis. David Walsh.

Walsh é, hoje, o editor chefe de desporto do jornal Sunday Times. Irlandês na época das vitórias de Armstrong era apenas jornalista do Sunday Times. Walsh, amante de ciclismo, nas primeiras férias que passou fora do país arranjou uma mota e foi para França para seguir o Tour de France como fan.
Passados uns tempos começou a cobrir a competição como jornalista e passou a cobrir outros eventos extra ciclismo.

Em 1998 dá-se o escândalo Festina no Tour. John Wilcockson, jornalista também do Sunday Times, deu pouca importância ao escândalo e continuou a escrever para Londres quase como se nada se tivesse passado. O jornal em 1999 decide que para além de Wilcockson iria enviar Walsh para certificar-se do que se passava e ter uma cobertura mais real e honesta da corrida.

O Tour of Renewal, como foi apelidado pelos organizadores da corrida, visava lavar a cara de uma competição que tinha sido gravemente afectada em termos de reputação no ano anterior. Os organizadores disseram que, como não iriam haver drogas na corrida a mesma iria ser mais lenta que as dos últimos anos.

Armstrong na etapa que termina em Sestriére, uma etapa de montanha com alto grau de dificuldade, faz um ataque, ganha a etapa e passa de ciclista irrelevante que em quatro edições apenas tinha chegado ao final da corrida uma vez e em 36º, a candidato à vitória com um ataque impressionante e do qual não seria capaz em condições normais. De acordo com Walsh, na sala de imprensa toda a gente riu sarcasticamente, numa clara demonstração de que era inacreditável que Armstrong estivesse limpo e a fazer aquele ataque. Armstrong ganhou e David Walsh na sua coluna escreveu

 “There are times when it is right to celebrate, but there are other occasions when it is equally correct to keep your hands by your sides and wonder… [and in this case] the need for inquiry is overwhelming.” 

Este Tour tinha sido o mais rápido de sempre e vencido por um ciclista improvável que era especialista em pequenas provas e nunca havia sido forte nem no contra-relógio nem nas montanhas.

David Walsh então prosseguiu na sua perseguição por provas que mostrassem que Armstrong havia dopado. Obteve testemunhos de várias pessoas que já tinham ouvido Armstrong admitir o uso de doping e a incentivar o mesmo, publicou artigos, publicou um livro, questionou Armstrong, foi ameaçado pelos agentes de Armstrong, sofreu discriminação por parte dos ciclistas que não falavam com ele por causa da sua activa posição anti doping, sofreu discriminação de jornalistas que se recusavam a comparecer publicamente com ele, com medo de serem associados com o jornalista com quem ninguém queria falar. No carro em que costumava seguir para acompanhar as provas os jornalistas a certo dia, sem aviso prévio, recusaram-se a levá-lo, deixando-o numa posição muito complicada, pois dadas as restrições só carros autorizados é que poderiam seguir até aos finais de etapa e para um jornalista é complicado não ter esse acesso.

A minha admiração por David Walsh, mais do que no final todos terem de lhe dar razão, é o facto de ele ter continuado a dizer, a escrever e a perseguir aquilo em que acreditava. Não cedeu aos contos de fadas. Não cedeu à necessidade de acesso aos ciclistas, que implicava que os jornalistas fossem favoráveis aos ciclistas nas suas peças para poder obter entrevistas com eles que, naturalmente, atraem sempre mais atenção do que artigos sobre doping.

Ao passo que Walsh escrevia aquilo em que acreditava outros, nomeadamente Wilcockson, escreviam livros acerca das grandes vitórias de Armstrong e exultavam este herói com pés de barro, apesar das provas apresentadas por Walsh. Porque era mais fácil acreditar no mito. Era o que toda a gente queria ler.

Vivemos a acreditar que os jornalistas nos trazem os factos mais verídicos das histórias. O relato mais preciso dos acontecimentos. Independente e conciso. Mas neste caso só um, das centenas de jornalistas que cobrem o Tour é que seguiu um caminho diferente. Os outros, todos escreveram que acreditavam, que era maravilhoso, fantástico. Digno de um conto de fadas. Porque era isso que toda a gente queria ler. No que me lembra de ver das transmissões da RTP do Tour, não me lembra de ouvir Marco Chagas ou o João Pedro Mendonça a referir estes casos. Não me lembro de ler em lado nenhum nada acerca do estranho que é um ciclista irrelevante, tornar-se um mítico vencedor do Tour, sete vezes consecutivas.

Afinal jornalismo é contar a verdade ou é um exercício de alimentação de sonhos de quem está no lado receptor das notícias?

Em relação a jornalistas desportivos David Walsh descreve na perfeição o que a maior parte deles são

"Fans with a typewriter"

É errado louvar Walsh só porque ele tinha razão. Afinal de contas, ele apenas fez o seu trabalho, que é para isso que lhe pagam. Ele próprio tem recusado aparências e pedido para que não estejam a tratá-lo como um herói, pois Armstrong também era um herói. E era um herói cada vez mais heróico na proporção em que as pessoas elevavam-no cada vez mais e quanto mais alto cada vez é menor a vontade e habilidade de questionarmos.

Mas nutro imenso respeito por David Walsh. Ele fez aquilo em que acreditava e não se desviou do seu caminho só porque seria mais fácil e mais bonito.

Aconselho quem tiver interesse em saber um pouco melhor a história de David Walsh a ver este vídeo que aqui deixo.


Não há heróis

Já foi há praticamente um ano que se provou que na vida não há heróis.

Cresci a gostar de ciclismo e a ver as várias voltas que eram transmitidas pela RTP. Naturalmente assisti a todas as vitórias de Lance Armstrong, agora comprovadamente e admitidamente conseguidas através do recurso a doping.

Na altura em que as alegações começaram, em 1999, eu nem sequer sabia que elas existiam. A primeira vez em que tive contacto com alegações de doping deve ter sido por volta de 2004 ou 2005, em que apareceram notícias que alegavam que amostras de urina de 1999 continham EPO.
Nesse momento, lembro-me perfeitamente de o dizer à minha mãe, pensei que já se tinha passado tanto tempo e que isto era basicamente uma caça e uma tentativa de desgraçar um campeão comprovado.

Todo o problema deste assunto não se pode resumir apenas a Lance Armstrong. Deve-se resumir também à imprensa. Mas primeiro, o vilão.

Ao longo da história o ciclismo tem sido recorrentemente manchado por escândalos de doping. É uma modalidade dura e o Tour de France é considerada por muitos a prova desportiva mais dura do mundo. Anfetaminas, testosterona, esteróides, entre outros, eram as drogas de escolha para melhorar a performance. Seria possível dizer que Eddie Merckx, Jacques Anquetil e outros campeões do passado, tenham tomado este tipo de medicamentos e suplementos no seu tempo. Eu não vou defender o uso destas drogas mas há uma distinção a fazer entre estas drogas e a EPO. Antes da EPO as drogas que existiam ajudavam os ciclistas a atingir os seus limites mais rapidamente e facilmente. A EPO tornava ciclistas medianos em ciclistas fenomenais. Lance Armstrong, nunca foi um ciclista de elite, até se comprometer com o doping sistemático e com a ideia de que se ele se dopasse melhor que os outros, ganharia. A EPO e as transfusões de sangue tornaram Lance Armstrong um ciclista de elite e quase extraterrestre.

Há muita gente que tem a opinião seguinte "Ah, o Armstrong dopava-se, mas toda a gente fazia o mesmo". Isto não é bem verdade, muitos ciclistas se recusaram a tomar drogas para melhorar a sua performance. O que aconteceu foi que simplesmente não tinham qualquer hipótese de competir num pelotão em que maioritariamente os ciclistas se dopavam e muito.
Christophe Bassons, um ciclista que em 1999 tinha 25 anos, escrevia uma coluna para o jornal Le Parisien durante o Tour de 99. Ele escreveu que era impossível competir no Tour sem recorrer a doping e que as coisas estavam iguais e que nada mudara em relação aos anos anteriores. (Convém assinalar que em 99o Tour foi nomeado o Tour of Renewal pois em 98 deu-se um escândalo Festina em que grandes quantidades de substâncias dopantes foram apreendidas nos carros das equipas que corriam o Tour. 1999 era supostamente um ano de renascimento e de mudança)
No dia seguinte a essa coluna ter saído Lance Armstrong dirigiu-se a Bassons e disse (tradução livre) "O que disseste não é verdade, o que disseste é mau para o ciclismo, não o devias ter dito e não mereces ser um ciclista profissional, devias desistir, abandonar a carreira" terminando com um "Fuck you".
Isto à frente de todo o pelotão que nos dias seguintes tratou de dar o mesmo tratamento a Bassons que mais tarde abandonaria o tour e dois anos depois abandonou a carreira de ciclista aos 27 anos. Bassons era considerado um promissor ciclista com capacidades físicas naturais acima da média. Bassons foi obrigado a desistir do seu sonho porque simplesmente se recusou a drogar-se.

Outra coisa que se diz é "Não interessa o que tomam, interessa é ver um bom espectáculo". Já morreram ciclistas em circunstâncias estranhas após tomarem EPO. Para explicar convém clarificar o que faz a EPO. A EPO quando injectada induz a multiplicação de glóbulos vermelhos.. Estes glóbulos são os que transportam oxigénio aos músculos e que permitem mais esforços físicos e mais capacidade de esforço por mais tempo. Contudo, o aumento dos glóbulos vermelhos pode ser demasiado tornando o sangue demasiado grosso forçando o coração a mais esforço para bombear o sangue e, consequentemente, provocar paragens cardíacas mortais. Histórias se contam de ciclistas a levantar-se a meio da noite para fazer exercício físico para reduzir o nível de glóbulos vermelhos no sangue e evitar que esse nível suba demasiado.
Portanto a essas pessoas que apenas se interessam com o espectáculo deveriam pensar que um dia poderá ser o filho deles a chegar a esse ponto e a ligar para casa a dizer "Pai, se eu quiser perseguir o meu sonho tenho de tomar drogas". É um pensamento bastante trágico e triste.

Em cima de tudo isto há que ter em conta a personalidade de Lance Armstrong. Não é só o doping. Toda a gente que acusava Armstrong era vítima de um homicídio de carácter.

Emma O'Reilly era uma massagista de US Postal que revelou que Armstrong falsificou uma receita médica para encobrir um teste positivo de cortisona. Em resposta basicamente insinuou que O'Reilly era uma mulher que tinha tido casos sexuais com ciclistas e que por essas razões havia sido dispensada e que agora estava ressabiada e decidiu inventar essa história. Toda a gente acreditou no campeão que recuperou de cancro.

Betsy Andreu mulher de Frankie Andreu, ex colega de Armstrong, revelou que quando visitou Armstrong no hospital quando ele estava a ser tratamente ao seu cancro, ouviu Armstrong dizer aos médicos que já tinha tomado hormonas de crescimento, cortisona, testosterona e EPO. Armstrong limitou-se a dizer que ela era louca, e estava ressabiada porque o marido tinha sido dispensado pela equipa. Acompanhado de intimidações verbais e por escrito a Betsy e Frankie Andreu. Toda a gente acreditou no campeão.

Floyd Landis, ex-ciclista que pertenceu a uma das equipas de Armstrong revelou muitos detalhes da cultura de doping no ciclismo e concretamente de Armstrong. Lance procedeu a dizer que Landis estava ressentido e que era um renegado que havia testado positivo para doping e negado e que agora afinal admitia apenas por vingança. Toda a gente acreditou em Armstrong, excepto alguns investigadores do FBI que começaram a investigar e acabariam por destapar o véu de todos os esquemas de Armstrong.

Estes episódios, e muitos outros que não vou descrever, mostram aquilo que é pior acerca de Lance Armstrong. A sociopatia deste homem é incrivelmente profunda e o controlo da narrativa era essencial para ele, não interessa quem é prejudicado. Para Lance não há lugar para escrúpulos. Tem de ser tudo consoante a sua vontade.

Estas são as razões pelas quais é impróprio continuar a considerar Armstrong um campeão. A desilusão que ele provocou em muitos fans, como eu, e em muitos que sofrem de cancro, para quem ele era um exemplo, é maior do que se possa imaginar. Durante sete anos da minha juventude eu tive um herói que me fazia todos os dias pegar numa bicicleta e ir pedalar com tudo o que tinha. Tudo isso é basicamente apagado. Muito pior será para as vítimas de cancro que perdem uma pessoa para quem olhavam para ter esperança num futuro melhor.

Mas a cada um se dá o direito de julgamento, mas para mim a queda de Lance Armstrong apenas mostra que os heróis não o são.

Parvoices

Estava a ler coisas na internet quando me deparei com alguns comentários que me fizeram rir genuinamente pela parvoíce associada aos mesmos.

Passo a citar!

"Sim é verdade!!! Espantem-se os bolcheviques e os nacionalistas do protocolo, que o traje académico tem como missão basilar igualar toda a classe estudantil, independentemente de raças, credos, contas bancárias, partidos políticos, associativismos, cursos e filiações.

E assim dá-se o milagre social de o menino que usa t-shirt da Tommy, e a menina de blusão "Gap" não serem distinguíveis, quando bem trajados, dos manos "Batista" que apenas podem usar a T-shirt com publicidade à “auto-reparadora” da família!

Como estive lá, voluntariamente, a participar como caloiro e posteriormente como trajado, num período superior a “um bom par de anos”, falo com legitimidade, conhecimento de causa e espantem-se os activistas do MPRTMP (Movimento a Praxe Razão de Todos os Males de Portugal) serei imparcial, como poderão constatar, se se derem ao trabalho de ler o texto até ao fim, pois apontarei defeitos e virtudes, bons agentes e parasitas desta actividade.

Importa saber então, quem pode falar sobre este assunto. A saber… Praxistas e praxados em actividade, “ex-praxistas”, actuais e ex-alunos anti praxe e é aqui que há uma condição eliminatória para a discussão, DESDE QUE ESTES tenham ido a uma praxe mais que uma vez e tenham sido praxados por mais que uma pessoa!!! Quem apenas lá foi uma hora para ver se gostava, quem apenas lá andou um dia enquanto” não arranjava casa”, quem nunca participou activamente numa actividade de praxe, quem possa ter tido o azar de ser mal praxado UMA ÚNICA VEZ, por algum troglodita (que os há e muitos a contaminar a praxe) e decidiu, em consciência, não participar, não tem absolutamente voto nesta matéria.

Posto isto mais ridículo é quem nunca frequentou o ensino superior vir questionar ou defender isto ou aquilo que ocorre no meio académico. Não seria sensato, “ desancar” toda a população de Arraiolos pelo seu método de confecção de tapetes, quando nunca lá se esteve nem se percebe patavina de métodos artesanais de tapeçaria !!!!"


Isto anda para aí em Facebooks etc, eu queria só apontar algumas coisas. O traje serve para igualar toda a classe estudantil. Essa é bastante interessante. Porque então eu só posso ser um igual se tiver 250€ para gastar no traje. Palmas.
Dado que não estamos no Séc. XIX é um bocado palerma defender com esta veemência um simples pedaço de pano e proclamar aos céus a virtude do traje. Tendo ainda mais em conta esta situação muito simples, muitos praxistas tentam impedir os que não são praxados de trajar, portanto, bela teoria de merda, essa do traje para "igualar".

Mais engraçado ainda esta afirmação de que só pode falar da praxe quem já foi praxado, mas atenção, têm que ter sido praxados mais do que uma vez e por pessoas diferentes.

Eu conheço apreciadores de restaurantes para o Guia Michelin que foram despedidos porque não conseguiram ir ao restaurante a a avaliar e comer o mesmo prato feito por pessoas diferentes. Está lá escrito nos estatutos.

Para uma pessoa que brada tanto à igualdade que existe na necessidade de trajar, está a mostrar também um lado diferenciador. Eu só posso falar se experimentei duas vezes e com duas pessoas diferentes. Não interessa se eu vi alguém a levar um tiro, não posso falar porque nunca fui praxado.
Enfim, um rigor digno de um ditador que deseja diminuir o espectro de opinião para obter conclusões mais previsíveis.
Fico então a aguardar essas sondagens em que as pessoas que dão a opinião têm que ter estado em cada um dos partidos, pelo menos duas vezes e com sercretários gerais/presidentes de partido diferentes. Ou então aquela opinião informada que as pessoas têm sobre economia e finanças e que certamente se baseia em não uma, mas duas profundas participações nesse mundo. P-A-T-É-T-I-C-O

Depois este pequeno doce que encontrei na internet e que tive de ler porque de imediato quis verificar estes assuntos com os quais tenho de me identificar porque eu deito-me sempre às 8h30 da manhã. Um post chamado: 10 coisas que só quem se deita tarde é que percebe.

1- Percebe como é acolhedor o silêncio da madrugada; - Quando muito percebo como é sinistro o silêncio e a escuridão da madrugada. 

2- Percebe o que é ter muita fome e conseguir deixar a preguiça de lado e ir até à cozinha; - Como antes de dormir e só me ponho a pé em casos de extrema necessidade. Fome não é uma dessas necessidades.
3- Gosta de ter a companhia de uma televisão ligada, mesmo que não esteja a ver o que lá está a dar; - Esta deve ser só para palermas que não conseguem viver a sua própria vida
4- Não fica surpreendido por de repente ter uma enorme vontade de colocar todos os objectivos e projectos em prática de uma só vez; - Piada do Século. Eu quando me deito tarde não me surpreendo é por adormecer tão depressa.
5- Fica irritado quando alguém lhe manda bocas por dormir demasiado, quando apenas dorme 6 a 8 horas por dia e por vezes menos; - Trata-se de uma questão mais simples. Se estiveres rodeado por parvalhões recebes essas bocas. Eu nunca recebi.
6- Percebe a alegria de saber que um estabelecimento está aberto 24 horas por dia; - Percebo a tristeza de saber que há pessoas que têm de estar a trabalhar a horas em que é normal estar a descansar e nas quais há maior exigência física e psicológica.
7- Fica orgulhoso quando lê pesquisas que provam que quem se deita tarde é mais inteligente; - Meu deus. Há pesquisas claramente enviasadas no objectivo e essencialmente focadas em comunidades estudantis. Também dizem que quem fuma drogas é mais inteligente. Bem, boa sorte com o cancro.
8- Não compreende como há pessoas que conseguem acordar às 7h da manhã com bom humor; - Eu compreendo, mas os que não compreendem devem ser os que recebem o tratamento do ponto 5.
9- Tem inveja de quem se deita e adormece logo; - Já não tenho unhas de tanta inveja.
10- Sabe, verdadeiramente, o quão doloroso é acordar antes do meio-dia. - "Whatever"

Afinal não me identifico.

Finalmente. 


"Aquele momento onde acabas de ler um livro do Nicolas Sparks e estás a chorar como uma desalmada... — a sentir-se emocionada."
Não tenho grande comentário. Mas devo confessar que cagalhões nunca me emocionaram.

Lição sobre sinónimos - Praxe=Merda

Eu não queria falar disto, pois, tudo isto, vem na sequência de um acontecimento que até em mim me deixa um peso, quanto mais aos envolvidos.

Contudo, não posso deixar de me surpreender com todas estas questões das praxes e com a feroz defesa que é montada à volta das mesmas, só porque há indícios que toda a tragédia possa ter sido causada por um ritual de praxe.

Há algumas coisas em particular que me incomodam muito na posição de defesa da praxe.

Uma delas é aquela velha balela de que a praxe serve para integrar os novos alunos. Vivendo no Séc. XXI, seria, talvez, fácil de entender que nem toda a gente reage da mesma maneira aos mesmos estímulos e, por sua vez, a realização de rituais em que a humilhação disfarçada é o mote não é propriamente a maneira mais consensual. Seria muito mais consensual promover actividades de um carácter mais lúdico onde cada aluno pudesse escolher qual a actividade mais apropriada para si e para os seus gostos e que lhe daria a melhor possibilidade de conhecer pessoas que se encaixem no seu "mundo" por assim dizer. Portanto num ambiente em que o essencial é ter e providenciar escolhas às pessoas, a ideia de integração daqueles que são a favor das praxes é, precisamente, não dar escolha.

Mas, ouço os clamores a articular, mas as pessoas têm escolha, se não quiserem ser praxadas não são. Isto é a maior falácia que se pode dizer e, do fundo do meu coração, desejo que quem diz isso seja decapitado pelo mais fulminante machado.

É uma falácia porque eu já assisti a um caso e vivi de perto com outro caso em que ambos não quiseram ser praxados.
No primeiro um colega, que viria a tornar-se um grande amigo, recusou-se a ser praxado no recinto comum da escola. Foi perseguido até à sala de aula por um grupo de galinhas que insistia que ele não podia recusar-se porque toda a gente tinha sido praxada e porque ele estava a ser "má onda", até a professora interviu em favor da praxe interpelando esse colega a deixar-se praxar. Uma aula de história interrompida durante 30 minutos (sim, 30) porque houve uma ovelha negra que exerceu o seu direito de se recusar a ser praxado. Eu nesse dia fui praxado e nesse dia decidi que tinha sido a última vez que a praxe se relacionou comigo.
No fim o colega não foi praxado mas foi olhado de lado. Pelos praxantes e pelos praxados que não aceitavam que alguém se recusasse a ser humilhado como eles tinham sido.

No segundo caso, a posição de não ser foi recebida e depois motivo de uma pequena conversa aparte onde mais uma vez se não aceitas a praxe és má onda, estás a desrespeitar os teus colegas, estás a desrespeita as tradições da tua universidade (nem sei se hei-de rir ou chorar), é isso mesmo que queres? À manutenção da posição tomada em não ser praxada foi então declarada como aluna antipraxe. Porque não podes ser indiferente. Se não queres és anti. E os olhares de lado prolongaram-se durante toda a licenciatura.

Paralela nestes dois momentos é a coacção. A pressão para que te encaixes, a rotulação se não te encaixares, etc, etc. E nem adianta vir com fábulas (sim, fábulas no sentido de só nas fábulas é que porcos e burros falam*) de pessoas que se recusaram mas que depois se vieram a dar bem com toda a gente. Pois bem, remetendo para o que disse acima, as pessoas não reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Mais uma vez, trata-se de reduzir oportunidades e liberdade de escolha. É só a praxe, mas não é por isso que deixa de ser algo que pode afectar negativamente ou positivamente as pessoas.

Finalmente, a hipocrisia geral que são os seguintes factos.
-Quando há um livro que os professores revelam obrigatório de comprar, é imediata a aparência de carpideiras que, meu deus, não têm dinheiro. Mas têm traje que têm, quando comprados nas lojas, um valor pornográfico. Já para não falar dos jantares de curso ou, pelos vistos, de casas alugadas até, só para passar uns dias com vista a evoluir na vida.
-Têm o trabalho de justificar faltas para poder comparecer nas praxes, porque, obviamente, pagam as propinas para ir à praxe.
-Farto-me de ouvir rapazes a dizer "Eu?! Fato e gravata?! Nunca!". Mas quando se trata de envergar o traje, faça frio ou calor, aí andam eles. A escorrer suor pela focinheira abaixo.
-Farto-me de ouvir raparigas a dizer "Eu uso o que quiser, liberdade e não à objectificação das mulheres. Eu visto o que quiser independentemente da opinião dos meus pais ou do meu namorado, pensem o que quiser. Eu sou assim e não vou mudar". Chega à altura de andar de traje, em que são obrigadas a andar sem brincos, sem pulseiras, com sapatos simples em que até definem a altura do salto, e a resposta delas? Não há problema. São nestes momentos em que por um segundo a minha visão treme e apenas vejo um borratado da realidade, tal impulso de repugnância para com este mundo.

E a lista de coisas que eu poderia enumerar é extensa. Mas nem sequer vale a pena. Apenas fica aqui a minha opinião. E qualquer defesa destes factos é, desde logo, inexequível.

*Os porquinhos e os burrinhos que me perdoem, pois como animais não tenho defeito a apontar-lhes, bem pelo contrário.

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Um destes dias surpreendia-me com o facto de José Pedro Vasconcelos apresentar o 5 para a Meia Noite. Ainda gostava de saber como se evolui de Batanete para apresentador de um programa, supostamente, representante da cultura jovem portuguesa que surge por estas alturas.

Quando vi reparei também que o convidado dele ia ser o Ricardo Araújo Pereira, assim sendo e por curiosidade fui ao youtube ver se existia algum snippet da sua aparição. O que encontrei foi isto, publicado pelo próprio programa no Youtube.


Já me ri bastante com o humor dos Gato Fedorento quando era mais novo, diga-se há cerca de cinco ou seis anos atrás e não posso dizer que tenha deixar de encontrar graça em muitas das coisas que eles fizeram, contudo não mais consigo encontrar a frescura e originalidade que tantas vezes lhes é, de forma errada, imputada.

De qualquer das formas, algo mais incrível me saltou à vista no vídeo publicado. Basicamente, este vídeo consiste de várias personalidades que falam de Ricardo Araújo Pereira de forma altamente elogiosa em geral. Então o que é que me saltou à vista?

Aparte dos dois senhores que aparecem no início do vídeo, praticamente todos os outros falam mais de si próprios do que do Ricardo Araújo Pereira.

Mário Soares - "... e além disso, uma pessoa que é amigo de Portugal e sabe o que é ser português." Isto é um texto que me soa recorrente do Mário Soares hoje em dia.

Paula Moura Pinheiro - "... o que ele faz é perturbar tudo o que está instituido, nomeadamente, aquelas verdades indiscutíveis..." e depois procede para falar do aborto e do discurso do Marcelo Rebelo de Sousa, resumindo tudo aquilo que ele possa ter feito (convém não esquecer que os Gato Fedorento não são só o Ricardo Araújo Pereira) a um ponto com o qual, implicitamente, ela está mais de acordo. De cabeça, sem ser fan, lembro-me de meia dúzia de sketchs onde não há verdades indiscutíveis a serem "desmontadas". Ainda diz mais umas parvoíces perdendo todo o capital de simpatia que tinha por ela.

Jerónimo de Sousa - "... ele hoje representa também a capacidade de transformar o humor numa arma carregada de alegria contrariando a ideia do povo fatalista do povo conformado, antes pelo contrário..." "Need we say more?" nas palavras imortais de John Cleese n' O Sentido da Vida. De qualquer das formas discurso à PCP uma coisa qualquer que é afinal uma arma contra a mentalidade insituida do povo fatalista e conformado.

Luís Filipe Vieira - "...Sei que já tens mais alguma experiência que eu, pelo menos já estiveste no Estádio da Luz a jogar (talvez a ver jogar, mas bem) com grandes craques como Rui Costa, Aimar e outros, por isso, é algo que nunca tive essa felicidade..." Ironia em favor próprio.


Obviamente, estas pessoas não estão a falar de si próprios. Estão sim a veicular uma mensagem através de algo que se identificam e não foram objectivas. Supostamente era para falar do Ricardo Araújo Pereira e das suas qualidades. Não para dizer "ah gostei muito de x porque reflecte bastante aquilo que quero dizer" que foi, basicamente o que as pessoas fizeram. 

Mas isto é uma sina que Ricardo Araújo Pereira terá de viver enquanto não se transformar num anónimo. Veja-se, por exemplo, o riso desmedido e completamente artificial do etc Vasconcelos no final do vídeo. É a sina das pessoas acharem o que querem achar e não aquilo devem. É rirem-se o que querem, por pré-definição, em vez de se rirem adequadamente. Eu, por motivos profissionais já "convivi" com o Ricardo Araújo Pereira e, sendo ele uma pessoa bastante bem educada, quem o rodeia não perde oportunidade de se rir excessivamente de pequenas piadas, o que constitui um hábito de pequenez desprezível. Ele, se for tão inteligente como aparenta, sabe e percebe isso. Contudo, se ele for mesmo inteligente também compreenderá o falhanço que o coiso Vasconcelos representa, ainda assim compareceu no programa dele.

Saber e não querer saber

Qualquer pessoa que acompanhasse este blog com relativa regularidade poder-se-á perguntar se os autores do Taste of Orange ainda estão vivos.

A verdade é que estamos, neste caso, estou. A razão de prolongado silêncio tem um motivo, bem válido, que provavelmente se arrastará durante algum tempo.

A convivência humana é um poço infinito de estupidez e palermice. Sempre que me entrego à indulgência de ler, ouvir e até debater invariavelmente deparar-me-ei com essa estupidez, salvo em alguns casos excepcionais em que vale a pena estimular essa convivência, contudo esses casos não são mais que excepções que comprovam a regra.

A minha descrença na humanidade fez com que ao longo dos anos a minha convivência pessoal fosse diminuindo. Estou pouco disponível para conversas e quando estou sou um cavalo sem freio no que às minhas opiniões e inabaláveis convicções diz respeito, o que faz que as outras pessoas fiquem indisponíveis para conversas, pois parece haver muito pouca gente que queira ter uma boa discussão acerca do que quer que seja, limitando-se apenas a dar respostas genéricas como "pois.." ou "sim, realmente..." mas nunca preenchendo as reticências dado que as suas mentes abafadas e bafientas não o permitem.
Vem-me à cabeça um evento em que alguém após uma pergunta acerca da sua opinião sobre certo assunto disse que "as pessoas não simpatizaram muito" nem dando a sua opinião, nem reconhecendo a sua hipocrisia no assunto concreto. Pensar que alguma vez simpatizei com a pessoa em questão cria um coágulo sanguíneo na parte do meu cérebro que avalia a minha própria inteligência, pois simpatizar com tal baixo nível intelectual é chocante.
Ainda assim, este afastamento dessa convivência pessoal não me blinda de ter contacto com palermices. Basta ler uma notícia e ver os comentários da mesma, ouvir outras pessoas a falar, ouvir pessoas a falar no comboio, no trabalho, ler comentários no youtube, ver blogues, observar perfis de facebook etc etc etc.

Lembro-me do jornalista David Walsh, um dos mais persistentes em afirmar que Lance Armstrong usava doping desde a altura da sua primeira vitória no Tour, que sempre que via alguém com a pulseira Livestrong não se conseguia conter em dizer a essa pessoa que ao usar essa pulseira suportava não apenas a luta contra o cancro mas também uma fraude. As pessoas afastavam-se dele após ouvirem as suas teorias, na altura mirabolantes, agora confirmadas com variadas provas.

Eu sou um pouco assim, ou melhor, era. Tenho muita dificuldade em me conter quando ouço/vejo certas estupidezes. Isso era essencialmente aquilo que me motivava mais a escrever no blog, um ventilar do incómodo que me causava o simples facto de certas pessoas simplesmente existirem.

Então, no final de umas saudáveis férias em Julho tomei a decisão de não entrar mais em qualquer rede social, não ler mais os comentários das notícias ou do youtube, usar religiosamente o leitor de MP3 quando vou no comboio e até algumas vezes quando vou a pé para não ter que ouvir as pessoas a falar, basicamente abstraindo-me de ouvir opiniões, excepto aquelas que eu quero ouvir.

Poderão dizer "Ah, mas assim andas apenas a não ouvir e nunca saberás o que se passa à tua volta". Para ter este pensamento é preciso ter já de si uma boa dose de palermice, porque é por saber o que se passa que eu não quero saber mais. Não quero mais ler futilidades em páginas de facebook em que as pessoas cozem a sua vida com linhas de ouro e a sua intelectualidade com linhas de merda resultando num espectáculo macabro de superficialidade. Não quer mais ouvir pessoas a falar do que não sabem, nem quer mais saber daquelas pessoas que usam as opiniões dos outros sem nunca se preocuparem em cimentar a sua própria opinião. Eu sei que isso acontece e não preciso de recalcar isso nem quero.

A necessidade que tenho de contrapor as opiniões absurdas dos outros nunca me causou mal estar. Continuo a ter esse ímpeto quando algo que não posso evitar acontece e tenho de me deparar com essas opiniões, mas pelo menos também sabe bem concentrar-me noutros assuntos. Só tenho pena de não ler muito ultimamente, porque de resto comecei a apreciar coisas que não apreciava dantes e a ter interesse em assuntos que não tinha dantes. E isso é bom e eu sinto-me bem.