O Inexistente Conflito de Gerações - Parte 3

Muitos, que tenham lido os dois posts anteriores, estarão a imaginar, "mas o que tem uma coisa a ver com a outra?" É uma pergunta legítima. Passamos de um vídeo "feel good" para um cenário dantesco de morte e vingança.

Mas este cenário dantesco aconteceu num local onde as pessoas pouco mais têm do que a ligação à natureza. Onde as pessoas apenas podem sair de casa para procurar diversão. Onde não há computadores como cá. Onde não há telemóveis como cá. E em que é que isso melhora a vida deles?

Se equacionarmos o vídeo anteriormente referido, deveriam ser mais as vantagens do que as desvantagens. A oportunidade de brincar no meio da floresta. Sem carros a passar constantemente, sem casa para incomodar. Não é isto que é bom?

Contudo, com isto vêm outras questões. O isolamento. A inacessibilidade à educação. A inacessibilidade à tecnologia. A inacessibilidade a certos confortos, etc.

A verdade é que tudo tem os seus prós e os seus contras. E é uma condição irreversível da condição humana, achar que a nossa situação e o que nós fazemos era melhor do que o que outros fazem agora. É fácil eu pegar numa criança e deixá-la dizer que joga duas ou três ou quatro horas por dia e retratá-la como um viciado, obcecado que não sai de casa para nada porque fica em casa a jogar. Mas há jogos e jogos. Há jogos incipientes e há jogos que são marcantes nas vidas das pessoas, não só pela experiência mas também, como pela mensagem. Pensemos em jogos como um filme, até porque muitos têm argumentos que nada ficam a dever em relação a argumentos de grandes filmes. Não é essa influência positiva?

O facto de as crianças hoje viverem de forma diferente dos seus antepassados não é nada que mereça reflectir. É o que é. E daqui a vinte anos será diferente. E somos melhores ou piores por isso? Claro que não. Só mentes distorcidas é que perdem tempo a reflectir profundamente sobre tal disparate. O meu pai aos 10 anos já trabalhava. Devíamos voltar a esse tempo? Não. Tal como o meu pai agora aprendeu a mexer basicamente num computador e agora quando chego a casa ele, volta e meia, está lá a mexer e a passar o seu tempo no youtube a encontrar as raridades que ele quer ver e ouvir.

As coisas más que acontecem raramente vêm de um comportamento estilizado. Vêm sim de incidentes. O árbitro do jogo tinha perdido a mãe num atropelamento que ele nunca conseguira assimilar e entender e no jogo tudo isso foi despoletado. Enquanto atado ao poste perguntaram-lhe "Porque fizeste isto" e ele respondeu "Para vingar a morte da minha mãe". Não faz sentido para nós que vemos de fora e podemos raciocinar com a calma do nosso sofá. Mas são sempre pequenos incidentes.
Agora há pouco houveram três mortos por causa de um cão. Há uns anos lembro-me de uma história em que na auto estrada um rapaz apitou a um carro à sua frente porque o mesmo ia a fazer muito fumo. O condutor desse carro perseguiu o rapaz até casa e matou-o a tiro à porta de casa. Qual é a explicação para isto?

Nenhuma. Há-de existir algo por onde se pegue, mas nunca será o suficiente para ser explicado ou aceite apesar da situação.

Finalizando. Não há qualquer correlação entre o modo de vida das pessoas de hoje ou de antigamente, e a forma como elas serão melhores ou piores no futuro. É uma conversa inócua. Esvaziada de interesse e que nada contribui para o nosso avanço. E se por um lado tolero ouvir os meus pais ou familiares e conhecidos mais velhos a dizer "no meu tempo é que era", porque a nostalgia existe em todos, nunca aceitarei estas teorias de bolso, que para nada servem a não ser para empatar a nossa evolução.

O inexistente Conflito de Gerações - Parte 2

No dia 30 de Junho de 2013 aconteceu algo que só se soube uma semana mais tarde.

No Brasil, nomeadamente numa localidade chamada Centro do Meio, no Maranhão, durante um jogo de futebol, um jogador foi morto e o árbitro foi esquartejado e a sua cabeça enfiada numa estaca. A notícia em Portugal foi ligeira. Dada pelo JN e pelo CM de resto, nada se falou em Portugal e as notícias que foram dadas, fruto de serem "frescas" muito escondem e muito mal informam sobre o que realmente se passou. Para saber o que se passou foi preciso esperar até Outubro de 2013 por esta peça do NY Times.

Originalmente as notícias inferiam uma espécie de multidão enfurecida que invadiu um campo para procurar vingança de um árbitro que acabara de agredir mortalmente um jogador. Mas na verdade não foi isso que aconteceu.

Como muito bem descrito no New York Times, tratava-se de um jogo entre conhecidos. Aliás, o árbitro que fora assassinado, tinha jogado durante a primeira parte até se ter magoado e trocar lugares com o árbitro inicial. Diz-se até que árbitro e jogador eram conhecidos e davam-se bem, tendo jogado juntos muitas vezes sem qualquer problema. Resumindo, estas mortes, foram tudo menos acerca de futebol, como as notícias iniciais quiseram inferir (e reforço que sem culpa nenhuma dada a proximidade de tal acontecimento).

Se não é sobre futebol, então sobre o que é?

Todos sabemos, com mais ou menos detalhe, que o Brasil é um país de desequilíbrios muito acentuados. Um em particular, mencionado em páginas sobre este incidente é o do Índice de Desenvolvimento Humano que no local do incidente é 0.541 ao passo que nas cidades mais desenvolvidas é de 0.800. Este índice é medido através do PIB per capita, condições de acesso ao ensino e expectativa de vida. Sendo que 0.541 é um valor muito baixo, indicando que as condições de vida nesta localidade são más.

E então sobre o que é? Porque aconteceu o incidente. Segundo a reportagem, muito bem auxiliada pelas fotografias, trata-se de um local que pouca gente em Portugal conseguirá imaginar que ainda existe. É um lugar remoto, com um avanço tecnológico minúsculo e onde reina uma vida esvaziada de tudo o que nós temos. Seja internet, automóveis, boas estradas, bons telemóveis etc.

Trata-se de um jovem, com problemas, que assassinou um igual, mais velho, porque uma discussão chegou à palavra mais grave que se diz sobre as nossas mães. O mais velho chamou puta à mãe do mais novo. Acontece que a mãe do mais novo havia sido mortalmente atropelada uns meses antes e essa cicatriz acompanhava o árbitro desde então, não só pela morte, mas pela incapacidade em assimilar tamanha tragédia que, aleatoriamente, ceifou a sua mãe. No meia da acalorada discussão, motivada por um cartão amarelo, e após ser também agredido o árbitro puxou de uma faca e esfaqueou o jogador duas vezes. O jogador, Josemir Abreu, viria a falecer a caminho do hospital, enquanto os jogadores chamaram a polícia e prenderam, o árbitro Otávio Cantanhede, a um poste para que ele não fugisse.

Tudo normal, excepto que quatro pessoas, relacionadas de uma forma ou outra com o jogador assassinado, espancaram, primeiro com uma garrafa de cachaça, depois com um pau, depois passaram com uma mota por cima do árbitro três vezes, esfaquearam-no na garganta e finalmente um último, com uma foice, cortou a cabeça e as pernas e enfiou-as em estacas à volta do campo, tendo ainda tentado cortar os braços, contudo, não finalizando o trabalho deixando-os, basicamente, pendurados do resto do corpo.

E isto foi em 2013. Não foi em 1513. Foi em 2013 no nosso "país irmão". E vamos ser francos, no Séc. XX já passamos por fases em que o desenvolvimento das nossas zonas rurais era do género desta que vemos agora. Aliás, diria até que a certa altura todos os países enfrentaram ou enfrentarão este nível de vida.  Não se ouvem ainda hoje, em Portugal, casos de mortes por causa de um curso de água. Ou por causa de cães?

Há, contudo, um factor a salientar, que foi a demora da chegada das autoridades. Se as mesmas tivessem chegado mais cedo, talvez nada disto tivesse acontecido. Mas aconteceu.

E agora, o que tem isto a ver com a Parte 1?

O inexistente Conflito de Gerações - Parte 1

Já todos nos cruzamos com esta lengalenga com frases chave do género:

"Dantes é que era bom"
"A juventude de hoje já não é o que era"
"Agora só querem é jogar computador"
"etc.etc.etc."

Para ilustrar melhor, fica aqui um vídeo.



O que se pode tirar deste vídeo, é que a evolução tecnológica leva-nos para pior enquanto pessoas. Seja porque saímos menos de casa, ou porque damos menos atenção ao mundo que nos rodeia, ou ainda, porque nos relacionamos menos uns com os outros.
As gerações anteriores cultivavam mirtilos e melancias e bananas. Cuidavam de peixes e eram perseguidos por ursos. Jogava às escondidas e faziam fortes e brincavam com os amigos.

Depois, pegam nas crianças, e fazem delas autênticas bandeiras ridículas, que nada têm para se defender, e obviamente elas limitam-se a responder "Videogames", "Telemóvel", "Conversar e mandar emails", "Ver vídeos de pessoas a jogar videojogos", três horas e meia, cinco horas, vinte e três episódiso em quatro dias.
Eu esqueço-me de tudo quando estou a jogar, esqueço-me que estou em casa. Etc..

Este tipo de vídeos é engraçado. Porque na primeira parte, colher mirtilos e cuidar de peixes é giro (na parte dos mirtílos até vem acompanhado de "Que fofo"). Nada é quantificado. É algo que é intangível. Eles brincavam a isto e àquilo e era maravilhoso. Ninguém lhes perguntou quantas horas passavam nisso. Na segunda parte tudo é quantificado. Respostas sintéticas e inócuas, típicas de crianças que, de resto, pouco mais têm a dizer, o que é natural. ("Eu morreria se ficasse sem o tablet!!!!!!!!")

A seguir vem o vaticínio. O inferno descerá à terra porque eles nunca sairão de casa, o que os meus netos fazem hoje é de fritar os miolos, eles estão a perder o que está lá fora.
E depois a chave de ouro. A natureza faz parte do crescimento das crianças e devemos lutar para que nunca deixe de fazer.

Basicamente, está tudo perdido.

Bem sei, que este vídeo é de uma companhia de produtos alimentares e não é mais do que publicidade. Mas eu encontrei isto numa página pessoal que dizia "Para reflectir..." e após ter dado umas boas risadas (porque eles não saem de casa, e por isso dei-lhe um tablet para as mãos) reflecti, de facto, e cheguei a algumas conclusões. Mas antes das conclusões, há a parte 2.

JM Coetzee - A Desgraça

*Spoilers*

Nunca fui muito de fazer reviews de livros, e, digo desde já, que não se trata de um review mas sim de uma reflexão acerca deste livro de John Maxwell Coetzee.

Li-o há coisa de um mês e, francamente, o livro deixou-me extremamente impressionado. Não posso dizer que tenha uma história fantástica, não é nenhum thriller. Não posso dizer que tenha gostado particularmente de nenhum dos personagens. Mas há algo de extremamente magnético no livro.

O quê? Não sei bem, mas talvez uma mistura de factores que inclui o facto da história não ser incrível e os personagens serem apenas pessoas normais. O realismo é tão premente ao longo do livro e a evolução é tão constante que faz parecer tudo normal como se fosse a história do nosso vizinho do lado. É um pouco difícil de explicar, mas neste livro a impressão da vida que é normal, rotineira, com os "Guilty pleasures" do personagem principal leva-nos atrás dessa linha até sermos esbofeteados na cara com um acontecimento extraordinário que, ao não ser descrito, é descrito na perfeição. A cena do assalto e da violação nunca são descritas em pormenor. Ficam os detalhes no ar o que torna tudo muito mais horrível e asqueroso, pois é deixado à imaginação do leitor decidir os detalhes sórdidos. Tal como na vida real. Quando ouvimos estórias de alguém a quem aconteceu qualquer coisa, costuma ser assim, uma imagem borratada da qual nunca teremos a percepção exacta. E onde muitos autores descreveriam a cena em detalhe (o que não tem mal nenhum, realce-se), aumentando o conteúdo de choque, Coetzee ao não detalhar nada recorre ao realismo mais cortante. Nós não estivemos lá e, por isso, nunca saberemos a verdade do que se passou, mas nunca deixaremos de imaginar e formular a nossa verdade.

Coetzee trata o leitor como um igual. Não condescende interpretações ou explicações. Segue em frente com o seu personagem sem contemplação, sem explicações alongadas. Nâo sou especialista literário mas na minha humilde opinião este livro é o mais realista que já li. Talvez A Morte de Ivan Illitch se lhe equipare, mas A Desgraça é cortante. O ritmo do livro é incrível, lento o suficiente para nos dar a sensação de tempo a passar com as peripécias de Lurie, que nos envolvem até ao momento em que (tal como na vida real) quando menos se espera, há um acontecimento extraordinário a pôr tudo em perspectiva que acontece a uma velocidade que nos deixa indecisos sobre o que pensar. E o realismo continua, com os motivos escondidos dos personagens. Lucy que não quer falar sobre o assunto e escolhe estranhos caminhos diferentes, Petrus críptico em relação a tudo a deixar mil e uma dúvidas no ar, o aparecimento de Pollux, tudo coisas difíceis de entender, mas lá está, de forma realista, nós nunca saberemos o que vai na mente de outra pessoa, por muito próxima que ela nos seja e Coetzee verga o leitor a ter de se resignar que a vida assim funciona. Por vezes, até Lurie, é difícil de entender apesar de narrar e expressar muito do seu pensamento.

E a realidade é que é tudo assim. Tudo vai e tudo vem, de forma inevitável ao sabor do tempo, sempre a contar e que nunca vai parar. E no meio de tudo, muito fica por compreender e pouco é linear. E temos de lidar com isso da melhor forma, imaginando as nossas verdades e as nossas conclusões ou deixando as coisas no ar, aceitando que nunca poderemos decifrar os verdadeiros motivos. No final, A Desgraça está no que não sabemos e não compreendemos.

O cuco que não quis comer as couves

Ontem, surgiu este artigo no The New York Times que foi prontamente contrariado por este utilizador do LinkedIn.

O artigo do NYTimes fala de vários pontos, sendo que, alguns deles estão potencialmente exagerados. Mas o que me chama mais a atenção é a pressão aparente sobre os funcionários e isto é uma questão recorrente em qualquer local de trabalho, dos que eu frequentei até hoje.

A parte mais impressionante do artigo é quando são contadas as histórias de pessoas que passaram por uma tragédia pessoal, abortos involuntários, cancro (no trabalhador e num familiar) e que foram tratados de forma completamente sub-humana.
Na resposta do LinkedIn, aparentemente de um actual trabalhador, o mesmo fala de todos os pontos do artigo do NYTimes mas passa completamente ao lado desta questão da desvalorização e desumanização do trabalhador, limitando-se a dizer que se aconteceu não devia acontecer.

Da minha experiência profissional e da experiência profissional daqueles que me são próximos o tema é recorrente e é o seguinte: Está tudo bem até deixar de estar tudo bem,

O actual trabalhador da Amazon conta como no primeiro dia de trabalho a Amazon oferece um laptop, um pequeno-almoço entre outras coisas relativamente sem importância. Quer ele dizer que as condições que a Amazon oferece são boas e adoça-nos essa percepção com os brindes dados exclusivamente no primeiro dia de trabalho. Mais à frente no artigo conta como têm "Nerf wars" e jogam uns com os outros etc. Aparentemente, o trabalho perfeito.

Contudo, este tipo de recepção é comum. Trata-se daquela questão que as empresas modernas querem levar muito a sério acerca da motivação dos funcionários, mas é nesta questão, precisamente, que a maior parte delas falha e, devo eu dizer, muito. E porquê? Porque, digo eu, a motivação de uma pessoa não é nem nunca poderá ser um trabalho part-time. Não é algo que se possa discernir quando acaba e onde começa. A motivação deve ser sempre considerada em todas as partes do dia, pois, de outra forma, não faz sentido absolutamente nenhum.

De que é que adianta na Amazon darem tudo isso no primeiro dia e nas primeiras semanas é tudo ouro sobre azul, mas chegar à primeira dificuldade e ouvir um "desenrasca-te"? Isto não aconteceu na Amazon (pelo menos, não que se saiba). É apenas um exemplo prático. De que é que adianta dar o litro e estar motivado se quando eu ou um familiar meu tiver cancro (ou outro problema qualquer de menor valor, que também têm impacto, por vezes) vierem dizer que os meus problemas pessoais estão a prejudicar o trabalho? Acham que o trabalhador pensa "pois, mas aqueles brindes no primeiro dia...". Não, não pensa, para o trabalhador isso já lá vai, porque na maior parte dos trabalhos, os brindes nem sequer são coisas propriamente tangíveis. São normalmente coisas que têm um significado mais simbólico do que propriamente material, e, dessa forma, só fazem sentido num contexto de motivação. Se o trabalho de motivação parar a qualquer ponto essas coisas simbólicas, nada significam.

O que as pessoas, e as empresas, não entendem, é que os brindes e os dias dedicados a algo como acontece noutras empresas, ou noites grátis em hotéis, no caso da hotelaria, não aliviam o fardo do trabalho. Na Amazon, como em qualquer outro trabalho, há pressão. Mas sendo a Amazon uma empresa de serviço ao público há sempre um sector que tem mais pressão e esse sector é aquele que lida directamente com o cliente, sendo que a pressão está completamente no soldado raso que tem de atender as chamadas e lidar com o cliente pessoalmente. E podem perguntar: porquê? Porque é o único funcionário que lida não só com as expectativas do superior como com as expectativas do cliente. É o único que está emparedado, muitas vezes, em situações em que não pode satisfazer o cliente e, consequentemente, não pode satisfazer a chefia porque não pôde satisfazer o cliente tornando o cliente num mau cliente. E onde entra a motivação no meio disto?

Eu trabalho na hotelaria, hoje em dia. A certa altura na empresa onde trabalho foi imposto uma classificação alvo a ser recebida por parte dos funcionários até final de determinado mês. Essa classificação, gerida por um famoso site de reservas ao qual recuso fazer publicidade, sendo que a classificação dos funcionários era, à data, a mais alta, e por isto depreende-se dos funcionários se são prestáveis ou não etc.
E agora eu deixo esta simples questão. Se há várias áreas de classificação, como funcionários, limpeza, localização etc. e os funcionários são os que têm a pontuação mais alta, o que é que isto nos diz? Diz-nos que, obviamente, o problema não está nos funcionários mas sim em outros pontos de condição intrínseca à unidade hoteleira. Um exemplo prático. Eu recebo um check-in. Faço o check-in com a maior das simpatias e o cliente nesse momento vai muito satisfeito. Quando ele encontra lixo no balde do quarto (que supostamente deve estar vazio), quando encontra um quarto cheio de humidade, quando quer usar algo que está avariado, como é que acham que ele reage? Eu diria que 80% dos clientes ficam muito aborrecidos e a partir daí não há nada a fazer. Esse cliente está perdido e vai classificar tudo mal. Porque a má imagem é contagiante. Já tive clientes que se vieram queixar porque não tinham cama de casal e depois escreveram uma reclamação e aí os horrores iam ao ponto de cabelos na banheira.

Isto para explicar que aquilo que em inglês é o tão apregoado "Costumer Satisfaction" não depende nunca só da pessoa que atende o cliente porque é uma questão subjectiva e não objectiva. Como é que é possível tornar maus clientes em bons clientes? Nem sempre o é, e devo eu ser criticado e punido por causa disso? Não, não devo, porque circunstâncias são circunstâncias e nada as pode mudar. Há pessoas que simplesmente querem chatear-se. Se eu for criticado, como já fui e muitos outros já foram em questões que não têm culpa nenhuma, o que é que quer dizer as noites grátis que me oferecem? Nada. Porque a partir daí qualquer trabalhador fica com a sensação que é tudo apenas para inglês ver, porque está tudo bem até deixar de estar. E porque quando esperamos por vezes compreensão relativamente a algum erro esporádico ou algo que simplesmente correu mal, não temos compreensão mas sim repressão à base do medo.

O que move o mundo do trabalho é o medo. É o medo de perder o emprego. É o medo de ser deslocado. É o medo de ser repreendido. Medo.

Aqui é que entra a estória do cuco que não quis comer as couves. Começa assim:
Era uma vez um Cuco
Que não gostava de couves.
Mandou-se chamar o pau
Para vir bater no cuco
O pau não quis bater no cuco
O cuco não quis comer as couves
Ele ia sempre a dizer: “Couves não hei-de eu comer!


E acaba assim:
Mandou-se chamar a morte
Para vir matar o polícia
A morte quis matar o polícia
(Substituir morte por patrão) 
O polícia já quis prender o homem (Substituir polícia por vice presidente)
O homem já quis ralhar com o boi (Substituir homem por director)
O boi já quis beber a água (Substituir boi por director regional)
A água já quis apagar o fogo (Substituir água por director da unidade)
O fogo já quis queimar o pau (Substituir fogo por assistente de direcção)
O pau já quis bater no cuco (Substituir pau por chefe de secção)
O cuco já quis comer as couves

Era uma vez um cuco
Que já gostava de couves!


Explicando. No mundo do trabalho de hoje em dia, é frequente encontrar pessoas que não fazem ideia do que se passa no seu local de trabalho, mas, mesmo assim, ocupam cargos de decisão. E tudo corre mais ou menos bem se se tratar de uma equipa de trabalho experiente e calejada. Excepto quando há situações que escapam ao âmbito dos trabalhadores e carecem de decisão superior. Já tive superiores meus a perguntarem-me o que é que eu faria no lugar deles em relação a decisões exclusivamente da sua responsabilidade. Ao que eu não respondi, porque eu não ganho para fazer o lugar deles. Mas quando estas decisões, que são, normalmente, importantes no âmbito do trabalho (daí que não possa ser o fundo da hierarquia a decidir), ficam em suspenso criam-se problemas. E aí começa o cuco a não comer couves. E as coisas vão passando até que chega a morte personificada na imagem do mega chefe impossível de aturar e completamente intratável. E então vem tudo por aí abaixo. E qual é o problema com isso? O problema é revelar a incompetência nas unidades intermédias da hierarquia em resolver um problema, muitas vezes simples.
Uma analogia é aquela em que os enfermeiros podem dar uma sugestão ao médico para prescrever o medicamento, mas se o médico não o prescrever chega a morte (embora neste caso o cuco nunca mais coma couves). Eu posso sugerir a resolução fácil de algo, mas apesar da resolução potencialmente simples a mesma tem de ser aprovada.

O mesmo se pode dizer quando os funcionários adquirem vícios. Como o posto imediatamente acima sabe menos do que os funcionários só quando chega a morte é que as coisas se endireitam.

Resumindo, o que eu quero dizer é que a gestão de humanos não é uma ciência palpável. Não é algo que venha nos livros e depende sempre de pessoa para pessoa. A mim, entusiasma-me pouco uma promoção na conjuntura actual da empresa onde laboro. Outros não conteriam a excitação. Cada pessoa tem as suas motivações e a falha em perceber como é que as pessoas reagem a diferentes estímulos é a perda de qualquer empresa a nível de recursos humanos. E acaba por ser curioso, que a disciplina de recursos humanos tenha conseguido tantos "avanços" ultimamente, mas que esses avanços acabam por esvaziar de humanidade muitos locais de trabalho. As empresas fazem o que vem no livro e depois dizem "Eu já fiz a, b e c, agora têm de render!", lá está, está tudo bem até deixar de estar.

The prince of peace! He's back! But he's pissed off!

Três meses depois volto a escrever aqui. Escrever aqui depende do trabalho e se houver muito trabalho escrevo menos. Portanto, whatever.

Durante este tempo cruzei-me com muitas coisas estúpidas dignas de referência. Ainda hoje, na garagem do meu prédio para um lado estava um tipo com camisa aberta até à barriga dentro de um carro atravessado no meio do caminho. Vou pelo outro lado, contorno a esquina e aí está um carro a bloquear a saída sem ninguém lá dentro, com vários lugares de estacionamento vagos. Eu sei que estavam a essa magnificente distância de cinco metros e talvez não tivessem gasolina, mas por favor, para a próxima vez, previnam-se.

Que mais aconteceu? Fui extremamente mal educado para uma pessoa na rua. Estava a segurar o casaco da minha querida namorada quando fui abordado por um indivíduo com um aspecto um bocado seboso que estendeu a mão para me cumprimentar. Traumatizado pelos meus anos de juventude em que recorrentemente nesse sítio era abordado por tipos a querer extorquir dinheiro e como agora já não sou jovem e até tenho uma fisionomia assinalável (não muitos músculos mas mais porte, ombros largos e pelos do peito a sair da camisola pelo pescoço*) recusei o cumprimento e disse relativamente alto e de forma bastante imperialista "Não fale para mim se faz favor!". A isto obtive a resposta "Ai é assim? É?". "É!" respondi. "Deus o abençoe" disse o tipo e eu disse "Obrigado".
Obviamente fui mal educado e o tipo afinal só estava a pedir para uma daquelas instituições que acolhem toxicodependentes. Mas a questão é que, primeiro, estava a segurar a bolsa da minha namorada para ela vestir o casaco e segundo aquele estender de mão para cumprimentar teve tudo de manhoso pelo que reagi daquela forma.
*Não tenho pelos do peito a sair pela camisola. Felizmente.

Mas enfim, eu vim aqui para criticar pessoas. Não para contar a minha vida.

Hoje quero criticar aquelas pessoas que dizem "Pessoas felizes são mais bonitas". Este tipo de frase falaciosa irrita-me para lá de Saturno. Porque primeiro implica um ideal de felicidade único. Isto é, estabelece um parâmetro. E depois põe um resultado em função desse parâmetro. Passo a explicar com um exemplo prático.

No outro dia vi uma foto que era um casal com a legenda "Pessoas felizes são mais bonitas!". O cenário era um casamento em que estavam os dois sorridentes a segurar um coraçãozinho (atenção que não eram os noivos, eram apenas uns convidados, provavelmente penetras, pelo nível de burrice) e a sorrir de forma protuberante. A beleza deles é indiferente.

Portanto o parâmetro estabelecido de estar num casamento a sorrir e a "curtir" cria o seguinte problema, é que agora, se eu os criticar, é porque não sou feliz. Eu não vou a casamentos, aliás, há duas coisas que agradeço que nem me convidem, casamentos e apadrinhar crianças.
A questão de que se não socializares não és feliz. A questão de que eu sou melhor que tu, porque tu não és feliz e não vais a casamentos e outras tretas que tal. E se não és feliz não és tão bonito. E este é um tema recorrente. Eu sou melhor que tu. Toda a gente pensa isto, mas pouca gente verbaliza este pensamento. Eu sou daqueles que verbaliza este pensamento sempre que acho que é verdade, mas também faço ressalvas sempre que acho que o que eu estou a dizer soa presunçoso. Porque não é do meu interesse ser superior a ninguém, mas ao mesmo tempo, factos são factos.
Contudo, a maior parte das pessoas não verbaliza e cinge-se a estes momentos em que passivamente afirmam a sua superioridade não afirmando completamente mas claramente dizendo, eu sou melhor que tu.

E já oiço ao longe os sons da discórdia "Mas só estavas a partilhar a nossa felicidade naquele momento!" ao que eu respondo, se estivessem só a partilhar diriam "Estamos felizes por estar não sei onde" e não "Estou feliz/sou mais bonito" como se houvesse real correlação.

A existência deste tipo de declarações é como os cadeados de amor. Cria um parâmetro de medição. Eu nunca deixaria um cadeado onde quer que fosse (excepto na minha bicicleta para não ma roubarem ahah). Agora a conversa seria "Pus um cadeado em Paris" ao que eu responderia "Parvoíce". Inacreditavelmente muita gente responde (e isto é verdade, já me aconteceu a mim) "Ah, é porque não amas verdadeiramente a tua namorada".
E agora eu pergunto, o que é que pôr cadeados feito idiota tem a ver com amar alguém? E os humanos estão satisfeitos consigo próprios sabendo que não conseguem um argumento melhor do que este para justificar algo? Francamente!
Mas bem, mais uma situação em que eu que ponho cadeados sou melhor que tu porque não amas suficientemente a tua companheira para o fazer. É risível.

Outro exemplo, e para acabar, conversa real.
"Quero ter um filho" ao que eu respondo "Não gosto de crianças e não quero ter filhos" (eu não gosto de crianças no sentido de não gostar de estar ao pé delas e não gostar de lidar com crianças, para mim, desde que não me incomodem são indiferentes e nunca faria mal a criança nenhuma). Resposta da outra pessoa "Fogo, tu não és humano". Enough said!

Resumindo esta atitude passiva em que aqui e ali as pessoas expressam algo em que não é óbvio mas no fundo a consequência passa por uma clara afirmação de superioridade é a meu ver uma desgraça para o ser humano. É o topo da arrogância. E porquê? Porque olha de cima para baixo para os outros sem sequer ter a contemplação de o estar a fazer. São afirmações levianas que passam outra imagem. Eu sei que pouca gente vai admitir isto, mas é verdade. Porque e aquelas pessoas que estão na solidão e olham para essa imagem, o que sentem? E o que sentem todas as outras pessoas. Claro que ninguém pede para que tenham cuidado com tudo o que afirmam na internet. Mas em vez de fazerem essas afirmações passivas digam de frente que estão felizes porque etc. e tal.

Vai uma grande diferença da pessoa que é segura de si própria ao ponto de o dizer abertamente até à pessoa que nunca o diz abertamente mas proclama constantemente essa superioridade.

Gaza - Cópia de mail enviado à SIC

A SIC transmitiu um dia destes uma reportagem acerca de Gaza. Enquanto é verdade que muitos se poderão sentir comovidos pela reportagem a mesma falho em alguns pontos que considero importantes. Assim sendo, enviei um email à SIC que segue abaixo e fica aqui registado.

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Exmos. Srs.

Na sequência da vossa Grande Reportagem acerca da faixa de Gaza, venho com a presente expor alguns pontos que me parecem relevantes na reportagem.

1º Ponto - Na sequência das mortes das crianças palestinianas na praia vítimas de um ataque da IDF (Israel Defense Forces) é dito que Israel estava a investigar o incidente. E quais os resultados? Estamos em Março de 2015 e isso aconteceu em Julho de 2014. Oito meses.

2º Ponto - É dito que o Hamas controla a Faixa de Gaza. Verdade. É dito que o Hamas expulsou a Fatah da Faixa de Gaza. Também verdade mas isso foi em 2007. 

3º Ponto - Aquando da invasão de Gaza tinha sido estabelecido um acordo de unidade nacional entre o Hamas e a Fatah (1). Este governo de unidade nacional foi considerado legítimo para negociações pela União Europeia e pelos EUA (2). Facto acerca do qual muita insatisfação se manifestou por parte de Israel (3).

4º Ponto - Posto isto, como pode a vossa reportagem saltar de 2007 (altura em que nenhum país aceitaria negociar com o Hamas) para o conflito de 2014 sem explicar que nesse momento as circunstâncias já eram de unidade em vez de divisão? E não ter em conta o desconforto que isso causou dentro de Israel.

5º Ponto - Militantes do Hamas mataram os três jovens israelitas que despoletaram a última guerra. 
Enquanto isso pode ser verdade de certa forma o que ficou concluído é que alguns operacionais do Hamas tenham colaborado. Contudo, não ficou provado que os líderes do Hamas tivessem conhecimento ou participação no planeamento do sequestro e consequente homicídio (4) (Tal como admitido pelo líder exilado do Hamas (5)). Pode parecer irrelevante mas tendo em conta as consequências devastadoras do ataque israelita que ocorreu de seguida seria uma ressalva obrigatória. Será que é justificável matar dois mil palestinianos porque uns radicais mataram três israelitas? Certamente é condenável mas nada que não se pudesse investiga e resolver através de tribunais normais. Talvez pudéssemos fazer a comparação entre acção reacção das mortes das crianças palestinianas na praia (oito meses e a contar) e a reacção às mortes dos jovens israrelitas.

6º Ponto - Iron Dome. Intercepta mais de 90% dos ataques? Qualquer jornalista sério iria verificar esta efectividade. O físico Theodore Postol de Boston declarou o seguinte:

THEODORE POSTOL: Well, we know—we have videos of the contrails—by contrails, I mean the smoke trails left by the Iron Dome rocket motor—that indicate the geometry of the engagement between the Iron Dome interceptors and the incoming artillery rockets. So, for example, if you see a contrail that ends with an explosion of an Iron Dome, and the contrail is traveling parallel to the earth, this means that the Iron Dome attempted to engage an artillery rocket from what you call a side-on geometry, because the artillery rocket is falling in a highly vertical trajectory. In a side-on geometry, the probability of destroying the artillery rocket warhead is essentially zero, for all practical purposes. We also see Iron Domes chasing artillery rockets from behind. The probability of destroying an artillery rocket warhead in that geometry is also zero. We occasionally, very occasionally, see an Iron Dome intercept arising in a near-vertical trajectory. That is the only engagement geometry where the Iron Dome has a non-zero chance of destroying the rocket—the artillery rocket warhead." (6)

Acho que era interessante fazer um contraponto. É muito bonito dizer que a Iron Dome é que defende, quando muito provavelmente os ataques não são assim tão brutais como querem fazer parecer e o que funciona realmente são os abrigos anti bomba.

7º Ponto - Ainda bem que falara sobre o Breaking Silence. Um resumo geral de violações dos direitos humanos nas últimas décadas também seria interessante para mostrar como Israel aterroriza os palestinianos. (7)


Dados os pontos acima referidos, tenho pena que a SIC não tenha sido mais assertiva em referir a brutalidade da invasão israelita. A protecção diplomática que é dada a Israel nas Nações Unidas bloqueando quase todos os anos as resoluções com vista à resolução do conflito. Como os palestinianos estão bloqueados mas não há um embargo às armas israelitas, que devemos lembrar que é um estado agressor.

Eu compreendo as restrições de tempo, mas 35 minutos do nosso tempo não são nada em relação aos quase 50 anos que dura a ocupação israelita e esses 35 minutos deveriam ter sido aproveitados para sublinhar com provas sólidas a brutalidade israelita na Palestina, para que todos vissem e todos ficassem cientes de como este conflito está errado e deveria acabar (já deveria ter acabado) o mais depressa possível.

Com os melhores cumprimentos,

João

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7 - Para um resumo de algumas das violações e crimes de guerra ver Beyond Chutzpah de Norman Finkelstein de 2005.
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A RESPOSTA
Caro Senhor João,

Recebemos a sua mensagem, que mereceu a nossa melhor atenção.

Agradecemos o seu interesse pela nossa estação televisiva e a disponibilidade demonstrada para nos transmitir a sua opinião. Só com a opinião dos nossos telespectadores podemos continuar a melhorar e a ir ao encontro das suas necessidades e interesses. Informamos que a sua insatisfação foi encaminhada para as áreas responsáveis, que tomaram nota da mesma.

Sem outro assunto de momento, agradecendo o seu contacto, e colocando-nos à sua inteira disposição para futuros contactos, apresentamos os nossos melhores cumprimentos, em nome de toda a equipa da SIC.


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Comentário Final

Ao contrário do que a resposta da SIC possa inferir, eu não em sinto insatisfeito. Para me sentir insatisfeito era necessário que em primeiro lugar eu tivesse qualquer tipo de expectativa, que não tinha. 
A esta carta não obtive qualquer resposta. Obviamente, ninguém é obrigado a responder e as pessoas têm mais do que fazer, mas juro que gostava de perceber quais as razões para algumas escolhas na reportagem.

Open Letter to Salman Rushdie

Dear Salman Rushdie,

Hope this finds you well.

It's now March. Spring has arrived and cheerful thoughts inhabit people's minds. At least, that is what they say.

I am writing to you about the Charlie Hebdo attacks. I know it's been two months, but, at the time of such traumatic events, emotions ran wild for many people and to make sense of reality seems a bit more difficult.

Being so, I write to you about your statement as posted on English PEN.

I like to say that I am more atheist than many atheists and more religious than most religious people. By that I mean that I follow a certain religion but I am not bothered by whatever one might say about it. I don't take it that seriously and it shouldn't be taken seriously, as far as I'm concerned.

Anyway, getting to the subject at hand, regarding your statement I hold no quarrel with any of your views about religion being a medieval form of unreason and the reigning of totalitarianism on some factions of Islam. I have no quarrel with that.

My main problem with your statement is what bothered me on everyone else that saw this attack as an attack on freedom of expression.

Why?

To see those attacks as being on freedom of expression is to thwart our reality as a world. Freedom of expression is a concept that seems very hard to grasp to anyone on earth. We always defend freedom of expression until we don't like it and then we repress it. Happens every day to every good or bad people, to every law abider or law transgressor, to every mother or father. And is it wrong? If I made a statement I would be offending the freedom of expression of every good or bad people, every law abider or law transgressor and every mother or father. To take a stand is to immediately put a leash on others freedom of expression. Ultimately, as the late Bill Hicks once said, "Freedom is free". The consequences might be there for external reasons but nothing, and I mean absolutely nothing, can stop me from saying whatever it may please me. At least once, obviously.


To see these attacks as being attacks on freedom of expression is to obviously misunderstand its results. Freedom of speech, as seen by the demonstrations everywhere a little bit around the world,  increased. At least, supposedly. Everyone had their say about it. Everyone screamed, or shall I say, tore their torax so their lungs could jump out to express something beyond a scream to say Je suis Charlie. Anyway, there was an increase on Islam critic cartoons right from the offset and not many of those cartoonists were attacked.

To classify these attacks as being on freedom of expression is to completely fail in acknowledging them as terrorist attacks motivated by political reasons. That failed acknowledgment leads to an even greater failure. The failure to comprehend the reaons behind such attacks.

It is true, and I agree without reservations, that no reason justify those deaths. But they are reasons still. Those attacks were not caused by neurotic thoughts. They were carried out by sane persons who, for whichever reason saw that gesture as meritable.

Only understanding those reasons can we get to the root of the problem. And then trying to solve it insofar as it is something we can do, and oh boy, how much can we do.

I don't stand with Charlie Hebdo, because, to me, those deaths are as tragic as the deaths of the two thousand Palestinians on the last summer, as the thousands of deaths on Iraq and Afghanistan, thousands of deaths in Lybia and Syria etc. They are all tragic. Why shouldn't we say I stand with Palestine? Is it because it is an old subject? Why don't we stand with Syria and Lybia? Truth might be that there are dictatorships there, but is it the western fueled chaos a better way to do it? By ruining the lives of a bunch of ordinary and innocent people? Why don't we care about that?

Why are you not worried about all those other casualties?

I won't speculate about your reasons. But looking at my fellow Portuguese countrymen Charlie Hebdo only shocked because it was close to us. Because for fifteen minutes our superior world was threatened. And because of that everyone rose from their pathetic seats and came out of their pathetic lives which themselves fail to understand to say Je Suis Charlie. Millions in Paris and millions worldwide. There they were giving airplay to many different world leaders fighting, like the children that wants to be picked for the football match, to go to the first row so they could be photographed and seen. Isn't Netanyahu a terrorist too, when his country indiscriminately kills Palestinians?

If we were to worry merely with freedom of expression shouldn't we worry that to poke fun at Islamics is okay but on the other hand to poke fun at jews is anti-semitic? Wasn't the Charlie Hebdo that once sacked a cartoonist over a cartoon? Tell me Mr. Rushdie are we really to worry about freedom of expression? Is this serious?

Those attacks will, now, forever be linked with freedom of expression and how a couple of savages attacked our western establishment and way of life. They will never be seen as attacks that followed something else and that is sad. As Joe Sacco brilliantly put it on a cartoon and with that I finish my letter.

"... perhaps when we tire of holding up our middle finger we can try to think about why the world is the way it is...
And what it is about muslims in this time and place that makes them unable to laugh off a mere image.
And if we answer "because something is deeply wrong with them" - certainly something was deeply wrong with the killers - then let us drive them from their homes and into the sea... for that is going to be far easier than sorting out how we fit in each others world."

Best wishes and have a nice day.

Rage



Este tipo de comportamento exibido por esta jurada do vídeo é o tipo de comportamento que mais raiva me provoca seja onde for e parece que é daqueles mais comuns.

Esta jurada acusa uma pessoa de falta de originalidade, esquecendo-se que ela própria é um poço de falta de originalidade. E que o seu marido, que supostamente teve a sua identidade roubada pelo concorrente, é ainda mais um caso de originalidade espectacular. No sentido de ser igual a centenas de outros.

Incrivelmente este é dos tipos de comportamento mais frequentes e que mais me tocam nos nervos e me deixam a pensar porque é que o ser humano, apesar de ser racional, é o ser mais estúpido à face da terra.

O que não falta é gente a vangloriar-se de ser melhor que não sei quem e não sei quem mais. Porque eu sou pela liberdade. Je suis fucking Charlie. Eu defenderei a tua liberdade com uma convicção Voltairiana. Até que o teu ponto não me agrade e nessa altura tentarei calar-te por todos os meios possíveis. Utilizarei falácias, subversões, farei perguntas que pouco têm a ver com assunto em discussão e guiarei a conversa noutro sentido. Farei uso da minha autoridade e da tua fragilidade para que te obrigar a submeter aos meus desejos mesquinhos e idiotas.

Este é o retrato da humanidade.

A sociedade ocidental, e a portuguesa em particular que é a que me é mais próxima, é uma palhaçada diária. Desde políticos, da esquerda até à direita, a jornalistas que extrapolam informação sem verificar absolutamente nada, comentadores que falam como se o que eles dizem fosse o santo graal da informação a última gota de sabedoria. Professores completamente cegados por uma ideologia bairrista e tacanha. Com visões deformadas e deturpadas da realidade. Professores de história que dizem que o Código Da Vinci é um livro relevante em termos de teoria histórica, apesar de ser um romance e apesar de ser o maior monte de merda que existe em termos literários. Juntamente com o Crepúsculo. Juntamente com as 50 merdas de Grey. Mas nós, o povinho, adoramos estas coisas. Descrevem tão bem os nossos desejos mais escondidos. Reflectem tão bem as emoções do ser humano. Idiotice.

A juventude de hoje a quem tudo é dado de mão beijada. Queres estudar? Estuda. Vai para uma universidade e faz as três escolhas. Escolhe um que tenha uma média baixinha para teres a certeza que entras e depois escolhe mais dois á sorte, sempre de olho na média, para teres escolha. Deixa de lado a necessidade de conhecimento. Quem é que precisa disso? Só aqueles que tem a mania que são superiores é que precisam disso para se exibirem. Eu? Quero é a vida louca. Quero curtir e ir para uma praia morrer numa onda. Quero ir para cima de uma parede e saltar até ela cair e depois ficar soterrado. Quero ser um coitadinho. Quero ser um idiota que vive dos despojos da sociedade e dos rendimentos dos meus pais. Não tenho dinheiro para livros para o meu curso professora. Gastei tudo nos jantares deste mês e no meu estúpido traje. Não é lindo? Já comprei a colher e o chapéu para todos assinarem para me lembrar para sempre deste dia fantástico em que me licenciei num curso acerca do qual pouco sei e pouco me interessa. Mas sou licenciado e tenho direito a queixar-me de não ter emprego. Porque sou uma merda naquilo que aprendi, supostamente, e agora ninguém me dá emprego. Desculpa pai, gastaste três mil euros para nada. Gasta mais uns milhares para me manteres aqui em casa enquanto eu sirvo a inutilidade com aplicação.

E quando encontrar um trabalho, graças a uma cunha de um amigo de não sei das quantas, irei aplicar-me imenso. Na primeira semana esgotarei o profissionalismo e daí para a frente preocupar-me-ei mais com fofocas e irrelevâncias. E preocupar-me-ei mais com fazer amizades e aplicar-me em socializar. Será muito fixe e divertido. Tal como na primária. Tal como no ciclo e na secundária. Tal como na universidade. Serei amigo de toda a gente que tem um facebook. Os que não têm e eu nunca lhes ligo, o problema é deles. Eles é que se querem afastar. Têm a mania. Não são como eu.

Um dia encontrarei uma companheira e iremos viver para uma casa. O meu pai trata disso tudo. Ele dá-me ou ajuda-me com a renda. Não há problema. Podemos ir para uma outra casa. Melhor e mais cara. Assim também posso comprar um carro novo. Sempre quis ter um. Talvez até consiga comer uma outra gaja sem tu veres. Se tu não vires não faz mal. Casamos há seis meses mas isso não quer dizer nada. Temos de variar para manter a chama acesa. A barreira dos seis meses é a mais difícil. Vou ter com os meus amigos. Fica aí sozinha. Limpa a casa e trata da minha roupa. Perde oito horas do teu descanso semanal para que eu possa ir ter com os meus amigos e beber cervejas e perder-me em bares. Até logo. Qualquer coisa liga à tua mamã. Ela vem-te ajudar. Logo à noite venho e faço-te um filho. Cuidaremos dele com todo o zelo enquanto ele estiver na tua barriga. Derreteremos o máximo de dinheiro possível para que ele tenha todas as condições. Porque o meu filho é a coisa mais importante deste mundo. Ele terá tudo de bom. Nada lhe irá faltar. Amor, a criança nasceu. Que momento lindo. Não há nada como esta sensação. Ser pai. Chama a tua mamã. A tua mamã que a leve para casa dela e que cuide lá dela. Ela sabe cuidar da criança melhor que nós e nós não temos tempo. Afinal, tu nem sequer tratas da minha roupa. Levas para a tua mãe. Fazes bem amor. A vida são dois dias. Vamos passar um fim de semana fora. Vamos comprar o maior saldo que encontrarmos na internet e vamos para lá exigir um tratamento de cinco estrelas. Porque eu sou especial. Você sabe quem é que eu sou? Bem me parecia.

Paz e liberdade. Detesto pessoas desonestas e mentirosas. Eu defendo a liberdade e a paz. Que todo o mundo viva em paz. O que é que nós fizemos para merecer tantas guerras e atentados. O que é que está de errado com essas pessoas. Esses subalternos que não sabem o seu lugar no mundo. Esses seres estranhos que têm inveja da nossa forma de viver. Têm inveja da minha liberdade e da minha paz. Da minha liberdade de ser como querem que eu seja. De ser um carneiro num rebanho. Ainda hoje vinha nas notícias a dizer que nós temos razão amor. Vamos manifestar-nos. Pela liberdade e pela paz. Pela igualdade e pela fraternidade.

Que sociedade podre. Que sociedade podre. É este o tipo de idiotice que abunda. Um bando de idiotas. Que é que vocês sabem? Citar generalidades? Viver numa bolha e acreditar em tudo aquilo que contribui para a bolha de felicidade. E quando alguém te der um ponto de vista diferente? Subverterás e encontrarás todas as desculpas necessárias para continuares a acreditar na tua rica vida. É isto que vocês chamam de vida? Uma vida de obscuridade? De regularidade excruciante disfarçada de excitação fantástica em férias e viagens sem as quais não podes passar? Mas espera. É claro. Eu é que tenho inveja. Claro. Onde estava eu com a cabeça? Que mais poderia ser? Tal e qual. I-N-V-E-J-A. Eu queria ser como tu. Choro de cada vez que estou em casa e te imagino na festa com os teus incipientes e aparvalhados amigos. Estou de mal com a vida. Sou carrancudo. Só quero ver as coisas más e pulo de alegria com a infelicidade dos outros. É claro.

Como poderia eu esperar que me compreendesses? Fraco humano de cérebro subdesenvolvido. O erro é meu. Como poderia eu esperar que o animal mais egoísta do planeta me entendesse? Esta é a derradeira parvoíce.

Calar-me-ei, então.

Chef Mike

http://www.latimes.com/opinion/op-ed/la-oe-0315-douglas-anti-semitism-20150315-story.html

O filho de Michael Douglas, aparentemente, foi vítima de um ataque anti-semítico.

Pontos prévios:
-Não tenho nada contra judeus,
-Anti-semitismo existe.

Postos estes dois pontos prévios para que não hajam dúvidas de onde eu me detenho nestas duas questões essenciais, passo a comentar sobre esta coluna de opinião no LA Times escrita pelo Michael Douglas (daqui para frente MD para facilidade de digitação).

A coluna fala de como um homem abusou verbalmente o filho do actor. O actor diz que apercebeu-se de que teria sido o facto do jovem estar a usar uma estrela de David que teria despoletado a reacção do homem. Michael Douglas não diz o que é que o homem disse à criança nem esclarece o que falou com esse mesmo homem quando o confrontou.

Mais adiante MD faz a seguinte declaração.

While some Jews believe that not having a Jewish mother makes me not Jewish, I have learned the hard way that those who hate do not make such fine distinctions.

Basicamente MD diz que é judeu, apesar de alguns judeus dizerem que se a mãe não é judia não se é judeu, mas fica ofendido porque alguém achou que ele era judeu, apesar de ele admitir que é judeu. Ok.

Depois fala sobre as concepções pré estabelecidas acerca de judeus. Nomeadamente:

“Michael, all Jews cheat in business.”

E continua:
With little knowledge of what it meant to be a Jew, I found myself passionately defending the Jewish people. Now, half a century later, I have to defend my son. Anti-Semitism, I've seen, is like a disease that goes dormant, flaring up with the next political trigger.

Em toda a honestidade, a grande pré-concepção que existe acerca de judeus tem precisamente a ver com dinheiro. Que são gananciosos e que são habilidosos nos negócios. 
Posto isto MD considera que este episódio retrata a ódio/discriminação que os judeus sofrem. 

Parafraseando Norman Finkelstein (Doutor em Ciências Políticas e proeminente investigador na área do conflito Israelo-Palestiniano) este preconceito não ultrapassa em nada o preconceito que uma pessoa gorda sofre, que uma pessoa feia sofre, que um preto sofre, ou que qualquer minoria sofre. A meu ver acho até que é insensível que este seja sempre o preconceito essencial contra judeus quando muitas outras pessoas sofrem são vítimas de preconceitos muito mais macabros e impeditivos do que os judeus.

Mais à frente fala das razões para a inflamação do anti-semitismo. Não vou falar sobre a primeira razão que ele dá, por isso salto directamente para a segunda.

A second root cause of anti-Semitism derives from an irrational and misplaced hatred of Israel. Far too many people see Israel as an apartheid state and blame the people of an entire religion for what, in truth, are internal national-policy decisions. Does anyone really believe that the innocent victims in that kosher shop in Paris and at that bar mitzvah in Denmark had anything to do with Israeli-Palestinian policies or the building of settlements 2,000 miles away?

MD queixa-se que as pessoas culpam toda a religião pelo que acontece em Israel. O problema é que é Israel que se declara repetidamente como sendo The Jewish State. O primeiro ministro Israelita Benjamin Netanyahu afirmou, repetidamente, que todos os judeus são bem-vindos em Israel. É a casa deles. Mais ainda, Israel comete atrocidades regularmente. Onde estão os judeus estrangeiros para se insurgirem contra essas atrocidades? São uma pequeníssima fracção os que o fazem. Se vamos olhar para a injustiça (que é, sem dúvida alguma, o ataque indiscriminado de cidadãos com pretextos discriminatórios) vamos olhar para todas as injustiças e não, simplesmente, resumir essas injustiças a uma questão de "Internal national-policy decisions".

Mais à frente fala de demografia da comunidade árabe e como vão haver sempre radicais. Isto é verdade, mas é verdade que os radicais são, muitas vezes, radicalizados por aqueles que são agora as vítimas. A questão da Palestina é um ponto evidente disso. Podia estar resolvida desde 1967 com a Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas 242 se a mesma tivesse sido completamente implementada. Mas o que assistimos hoje é uma barbaridade. O estado em que se encontra a Faixa de Gaza após o último ataque é miserável. Os palestinianos vivem sob imensas restrições e sem grande futuro pela frente. É óbvio que esta injustiça de tratamento incita à radicalização. E enquanto isto não justifica ataques terroristas (nada justifica) é sem dúvida uma das causas na raiz do ódio extremista contra os judeus que existe e, nomeadamente, contra Israel.

It's also the responsibility of regular citizens to take action. In Oslo, members of the Muslim community joined their fellow Norwegians to form a ring of peace at a local synagogue. Such actions give me hope — they send a message that together, we can stand up to hatred of the Jewish people.

MD fala bem. Formar um anel de paz. Mas esse anel de paz só engloba o ódio contra os judeus? E o tumulto causado pelo ocidente (nomeadamente EUA e mais alguns países europeus) no Afeganistão, No Iraque, na Síria, na Líbia? Essas pessoas não merecem paz? E o povo da Palestina? Não merece paz. Por estes lugares não é necessário "gritar" por paz e por acções no sentido de implementar essa mesma paz?
No meio disto tudo o filho do MD é mais importante do que isso. Sem dúvida, para um pai, não há-de existir nada mais importante que o filho/s. Mas para uma figura pública expressar a sua opinião, deveria fazê-lo com um pouco mais de zelo, não pelo bem estar do seu filho, mas pelo bem estar do mundo.

Deverei preocupar-me mais com um punhado de idiotas que ainda é contra judeus só porque sim (como esse tipo que supostamente tratou mal o filho do MD) ou preocupar-me com povos que vivem na miséria e sem futuro à vista?



http://www.aljazeera.com/topics/events/syria-broken-nation.html

http://www.aljazeera.com/indepth/interactive/2015/03/syria-displaced-worst-humanitarian-crisis-decades-150314161720009.html

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2015/03/fallen-leaves-arab-spring-150310060732982.html

http://www.aljazeera.com/news/2015/03/lebanon-formal-refugee-camps-syrians-150310073219002.html

http://www.aljazeera.com/indepth/inpictures/2015/03/gaza-fishermen-life-attack-150310063651354.html

http://www.aljazeera.com/indepth/inpictures/2015/02/gaza-farmers-front-lines-perpetual-war-150223184305316.html

http://www.aljazeera.com/news/2015/02/palestinian-farmers-endure-constant-war-gaza-150224054058539.html

http://www.aljazeera.com/news/2015/02/legal-battles-horizon-ruins-gaza-150212072631357.html

http://www.aljazeera.com/indepth/interactive/2015/01/24-hours-gaza-150128124650715.html

http://www.aljazeera.com/news/2015/01/rights-group-israeli-bombing-gaza-homes-policy-150128042200506.html