RTP e hipocrisia

Olá caros leitores, já há muito que não vos escrevia. Mas bem, cá estamos.

Nos últimos dias, várias notícias têm surgido acerca do futuro da RTP.

Fala-se de que será concessionada, de que encerrarão a RTP 2 etc etc. Vejam as notícias.

Para mim, neste momento, colocam-se duas questões hipócritas essenciais. Uma velha e outra nova.

A velha hipocrisia.
A RTP é a televisão do estado. É a televisão que serve o propósito do chamado serviço público. Tal como a BBC o faz em Inglaterra, por exemplo.
Um dos problemas com sucessivos governos, principalmente desde a aparição dos canais independentes, é a tentativa, ou falta dela, de definir o que é o serviço público. Afinal qual é o espectro do serviço público de televisão? Acho que nem o primeiro ministro saberia dar uma resposta a isto com claridade, e este é um problema essencial para resolver o"problema" da RTP. Contudo, isso nunca foi definido. Será que serviço público é passar documentários e instruir? Divulgar o país através de talk-shows e programas de viagens? Garantir o acesso da população à informação? Garantir entretenimento? Será que é procurar as maiores audiências possíveis? Será que é preservar a memória?
Ninguém sabe e a expressão "serviço público", no caso da RTP, não é mais que um chavão incipiente e sem expressividade.
Aqui está o grande problema que mina tudo o resto que se possa tentar fazer na RTP. Se não sabemos o que deve a RTP fazer como é que é possível exigir que tal seja feito? Entregando às direcções a decisão sobre o que constitui serviço publico e o que não constitui? Não é a opção certa, por razões lógicas de coerência.
O serviço público que a RTP presta, ou prestaria, devia estar definido na sua essência desde a sua fundação e ajustado à realidade dos tempos de forma progressiva. Obviamente hoje em dia não é preciso que a RTP produza novelas, dada a produção prolífica de novelas portuguesas e brasileiras que existe. Da mesma forma que se calhar era necessário que o serviço público garantisse um acesso melhor às modalidades desportivas que, hoje em dia, são monopolizadas por canais por cabo, muitas vezes codificados e de preços mais altos.

Nunca seria concebível o que aconteceu, por exemplo, com o programa 5 pra meia noite. Começou na 2 de forma interessante e foi ganhando audiências, acabando por se tornar num espectáculo pedantóide vocacionado para cativar a juventude amarfanhada portuguesa. Agora passou para a RTP 1 numa mostra clara de que o serviço público e os objectivos de cada canal estão horrivelmente mal definidos. Afinal, o que se pode depreender deste caso em concreto, é que a RTP 2 não passa de uma equipa B onde se o programa tem sucesso passa para a equipa A. Isto é uma estupidez.

Após a definição do que é o serviço público de televisão e aquilo que ele deve compreender haveriam duas atitudes a tomar.
A primeira seria aplicar esse princípio em toda as vertentes dos canais que a RTP dispõe. Misturando ou individualizando as características de cada um.
A segunda era tomar a decisão de que, sendo um serviço público inequívoco, a RTP nunca visaria ter lucro ou sucesso no mercado de audiências.

E o problema reside sempre na definição de serviço público. Se a RTP tivesse esse conceito definido nem sequer seria possível estarmos a argumentar o facto da RTP dar prejuízo. Ou não serão os tribunais também serviço público? E estes devem dar lucro? É essa a sua função? E os hospitais? Obviamente que não. O serviço público é algo que nós, portugueses contribuintes, financiamos. Não deve dar lucro (embora se desse lucro, tanto melhor). A partir desse financiamento os serviços apenas têm de funcionar de maneira clara e eficiente.
Como a RTP não tem o seu conceito definido vive entre a indefinição de ser um canal generalista normal (no caso da RTP 1) ou ser um canal público com conteúdos de pouco potencial em termos de negócio.

Esta é a velha hipocrisia de esperar que a RTP, instituição, por si só, resolva os seus problemas. O governo (este e outros) já há muito deveria ter definido tudo isso e ter deixado claro qual o papel da televisão enquanto um serviço do estado. Teriam sido poupados milhares (quiçá milhões) de euros em programação que nem sequer se sabia muito bem que propósito serviria.
Agora iremos assistir (eventualmente, porque ainda nada é oficial) à concessão de um canal cujo objectivo nem sequer é claro. Que irão fazer os exploradores da concessão se nem sequer sabem para que serve o canal?

A nova hipocrisia vem do povo, naturalmente. Se a culpa da RTP não ser uma estação pública, praticamente, intocável é do governo, a reacção do povo em relação às notícias de fim da RTP 2 e concessão da RTP 1 é nada mais do que exagerada e hipócrita.

Em Fevereiro de 2012 a audiência da RTP2 foi de 3.5% como podem ver neste link da Marktest.

Ainda hoje me dei ao trabalho de fazer uma, vá lá, observação pelo facebook para encontrar muita gente a manifestar-se frontalmente contra a extinção da RTP2. Tanta gente que me faz, seriamente, duvidar das estatísticas porque é impossível que a RTP2 tenha tão poucas audiências quando tanta gente quer ver.
A 2 é um canal que passa à semana, nada mais, nada menos, do que 9 horas de programação infantil através do segmento Zig Zag. Portanto podemos, de certa forma, obviamente, assumir que a 1.5% +/- da audiência da RTP2 são crianças. Depois são transmitidas uma série de séries (peço desculpa pela redundância) que são da qualidade mas que pecam por já terem sido transmitidas no cabo. Têm as habituais notícias com um telejornal de 30 minutos muito mais objectivo e eficaz do que os mamarrachos de uma hora e de hora e meia dos canais generalistas. Tem os habituais programas sobre cultura do género Câmara Clara e tem o espaço reservado a pequenos produtores de tv de mercados específicos. Os religiosos, canal da Universidade, que é tão amador que até dá dó e os programas destinados a divulgar causas africanas, causas ambientais e causas civis. Ao fim de semana um monte de desporto durante a tarde, que na verdade ninguém que saber, salvo alguns aficionados de uma modalidade específica.

Portanto, há para ver muita coisa, mas, em suma, não é o que as pessoas querem ver. Contudo toda a gente está preocupada com o desaparecimento da RTP 2, porque bem, não vêem mas quem sabe um dia pode apetecer-lhes e irem lá dar um salto, ou porque é mais um canal disponível para o  zapping tornando-o mais longo.

Quanto à RTP1 também não compreendo a indignação. Maior parte das pessoas queixam-se dos prejuízos e que é só gente a "mamar" à nossa pala. Pois bem, vai ser concessionada e com isso reduz-se o dinheiro que o contribuinte vai dar para a RTP1, só que também, provavelmente, vão-se acabar aqueles programas de cultura geral após o telejornal, que muita gente gosta de ver e que eu até acho instrutivos, mas que na verdade são obsoletos. Vai-se acabar o Preço Certo e o Fernando Mendes será uma memória perdida no universo televisivo. Provavelmente acabar-se-ão os programas amigáveis dos velhinhos que os ocupam parte da manhã e parte da tarde. Quem sabe acaba-se o Portugal em Directo (antigo Regiões) e as regiões desfavorecidas perdem mais um canal de comunicação com o resto do país. Tudo porque nem sequer se sabe se isso serve o serviço público, pois esse chavão é deixado ao abandono da interpretação individual.

E a interpretação individual em Portugal (e tipicamente portuguesa) é a seguinte.

Quando surgem notícias de prejuízo "é só cabrões a mamar". Quando surge a possibilidade de perderem a estação "Ai Nosso Senhor Jesus Cristo". E ainda nem sequer viram no que se tornará a RTP1.

Em suma. Este assunto é mais um caso em que se mostra a típica mentalidade portuguesa. Deixa andar. Não se olhem aos problemas essenciais da situação que as coisas se resolvem. Mais não seja às três pancadas.

Por outro lado a visão do povo que não quer saber e critica, não sabe bem o quê, mas critica. E depois vem a solução que não gostam ou que não parece bem e ficam perturbados.

A minha opinião é, há muito, a mesma. É estúpido afirmar que é possível garantir um serviço público concessionando o mesmo a um privado. Se os gestores que a RTP teve (que são comuns aos canais privados, diga-se) não fizeram o milagre de pôr a coisa a dar lucro (que nem devia ser o objectivo, mais uma vez) porque é que o haveriam de conseguir fazer agora? A resposta é simples, quem garantir a concessão vai procurar obter retorno do investimento que fez e não vai poder ficar estrangulado por normas vagas para definir os serviços que devem ser prestados. Se assim for, apenas acontecerá que quem o fizer irá fazer um mau investimento e ainda acaba o estado a ter que indemnizar o explorador da concessão, pois não foram concretizados lucros.

Desta forma o espectro televisivo público devia de permanecer sob alçada do estado. Simplesmente estabeleça-se o que é o serviço público televisivo de forma clara. Definam-se os papéis de cada uma das estações (as do sinal aberto e as do cabo) e apliquem-se. E entenda-se de uma vez por todas que a RTP deve funcionar sem se preocupar com lucros preocupando-se apenas com eficiência e qualidade dos seus conteúdos.

Links para notícias aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Arte e liberdade

Após observar algum do trabalho referente aos movimentos artísticos da segunda metade do Séc. XX surgiram-me algumas questões com as quais não deixei de debater na última semana. Acerca das mesmas cheguei a uma conclusão que, basicamente, não é consensual.

Quando me deparo com uma pintura deste género  ver link não posso deixar de questionar o conceito de arte.

Pois então, o meu conceito de arte é muito simples. Não basta eu pintar um quadro para isso ser uma obra de arte. Nem basta a liberdade de o fazer para me considerar um artista.
É minha convicção que arte deve ser provida de sentido. Deve ser algo onde haja uma intenção declarada, ainda que discutível.
Há um conceito segundo o qual a arte deve ser algo que provoque uma reacção. Discordo, porque, basicamente, o mau gosto provoca reacção. É fácil provocar uma reacção através da decadência, por exemplo.

A arte deve ser algo que nos impressione, quer pelo tema, quer pela intenção, mas, também, pela técnica. Portanto se me disserem que Jackson Pollock é um artista eu respondo com "nonsense!".

O interessante neste tema, mais do que debatê-lo, será descobrir o que é que eventualmente mudou. O que é que mudou entre o Séc XIX e o Séc XX que nos deixou passar de uma fase tão espectacular como o Impressionismo para fases tão incipientes como Abstraccionismo e Minimalismo?
Não nos é possível dizer que tudo o que é feito dentro da Arte Moderna e da Arte Contemporânea seja mau, da mesma maneira que não podemos dizer que na Arte Clássica tudo era perfeito. Nada disso. Mas o que é certo é que um quadro só de uma cor ou um quadro com uma barafunda de riscos nunca seriam levados a sério noutros tempos.

A meu ver, isto relaciona-se com os factores de liberdade e aceitação. Na Idade Média pintar um quadro bom não era sinónimo de aceitação. Muitas vezes os próprios artistas não eram aceites devidamente e não passavam de mais um trabalhador pago para fazer um trabalho. Hoje em dia qualquer pessoa pode pintar um quadro. Principalmente se fizer parte de um grupo de amigos relativamente ligados às artes.
É fácil espalhar umas tintas e fazer uma teoria acerca disso e explicar. E depois aquilo é um quadro e não um monte de rabiscos. A liberdade de criação leva obviamente a que apareçam certas obras que, apesar de desprovidas de "sumo" artístico são consideradas obras de arte, se vistas de uma certa perspectiva. Há quem diga que quando fecha os olhos vê exactamente o que Pollock pinta nos seus quadros e, daí, é mesmo arte. Só que o problema é o seguinte, eu posso ver um cagalhão quando fecho os olhos. Isso faz uma foto de um cagalhão uma obra de arte?

Análise da obra de arte moderna é dispersa. Tudo serve de justificação para uma obra de arte. Se eu, eventualmente, fosse um grande artista e fizesse um quadro azul e castanho e dissesse que aquilo era a dicotomia mar/terra, provavelmente, as pessoas considerariam isso uma obra fabulosa. Se eu fosse Pollock e fizesse isso, toda a gente iria babar para cima. Isto é um estigma comum. A sociedade de hoje em dia reverteu o papel do artista e as consequências do seu trabalho. Ao passo que Miguel Ângelo poderia ver as suas obras recusadas por não atingirem os objectivos, as obras do artista contemporâneo não visam objectivos nem propósitos. O conceito de arte está associado o que cada um entende ou quer entender como conceito de arte.


Esta pintura é a Coroação de Napoleão por Jacques Louis-David. Encomendada por Napoleão a obra foi precedida de estudo por parte do pintor e aprovação por parte do Mecenas. É uma pintura grandiosa com quase 10 metros de largura. Aqui poderíamos traçar uma diferença importante entre antigamente e agora. Napoleão esquartejaria a sangue frio Jacques Louis-David se ele apresentasse isto: ver link
Mesmo que ele inventasse a mais fantástica teoria acerca do assunto.

Estou longe de afirmar que as pinturas dos movimentos artísticos anteriores ao Séc XX eram melhores por via da obrigação do pintor em seguir um caminho. Mas, por exemplo nesta pintura de Jacques Louis-David, é possível sentir a vontade de criar algo de imponente e poderoso replicando a imponência e grandiosidade do momento retratado.

Nas pinturas de Monet é possível sentir que o pintor está apenas a recriar algo de bonito como valia para ser representado numa pintura e reparem que é um pintor fora dos cânones clássicos. Mas há uma intenção de perpetuar a beleza de algo.


Da mesma maneira que se observarmos um quadro de Van Gogh podemos sentir um pouco os desvarios do pintor. Ver por exemplo Starry Night. É uma pintura que apesar de não ser tecnicamente convencional, emana algo de magnético que nos atrai para observar e tentar perceber o que se passa e o que se passou com o pintor.

O que passou a ser diferente entre antes e agora é provavelmente a aceitação e a liberdade de mostrar o que quer que seja.
Obviamente, em tempos antigos, muitos dos quadros que hoje em dia existem como obras de valor seriam nada mais do que material para acender fogueiras. Porque à face da sociedade não representavam aquilo que se queria ver. As pessoas gostavam era de ver grandes edifícios com proporções megalómanas. Hoje em dia não passa pela cabeça de ninguém construir edifícios da bitola do Mosteiro da Batalha por exemplo. Não faria sentido e seria considerado uma megalomania por uns e uma atitude antiquada por outros. Da mesma maneira que é complicado ver a arte voltar aos preceitos Clássicos presentes no Classicismo, Renascimento e Neo-Classicismo.

Essa impossibilidade de regressar a movimentos passados não é nada de grave. Mas é preciso encontrar um ponto em que se separe o trigo do joio. A proliferação de edifícios cúbicos, por exemplo, sem qualquer instinto estético ou coadunação paisagística não é boa. Ainda que em termos práticos seja mais lógico fazê-lo assim. Essa proliferação leva a um caminho de uniformização que é prejudicial. Daqui a pouco temos todos casas iguais e indistintas.

O advento da liberdade leva e excessos. Tão simples como observar países, após as revoluções, em descontrolo total durante anos governos a cair sucessivamente, povo sem saber o que pensar etc.
Na arte contemporânea penso que se passa o mesmo. É o advento da liberdade. Onde tudo é permitido. É possível urinar para cima de uma tela e expor (é um direito associado à liberdade). A sociedade de hoje em dia, ainda não está formatada (estará algum dia?) para que cada individuo pense por si próprio. Há sempre uma tendência definida por alguém (um alguém qualquer) que leva multidões a ver o que se passa.

Acredito que daqui a uns anos haverá uma filtragem daquilo que vale a pena ou não. Talvez quando aparecer alguém com um quadro azul marinho e disser que aquilo é uma homenagem a Moby Dick misturando o azul do mar com a brancura da baleia. Toda a gente ficará surpreendida e maravilhada e no fim ele dirá que quem pintou aquilo foi um trolha qualquer e que na verdade até acha bastante básico e toda a gente ficará a pensar na sua estupidez por ter simplesmente acreditado e apreciado algo de forma tão irreflectida e desprovida de individualidade. Talvez quando alguém fizer isso as pessoas se apercebam que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nem tudo o que está numa tela é arte. Nem tudo o que está num livro é literatura. Nem tudo o que está num disco é música.

Porque é que eu gosto dos Bon Jovi

São parolos. São popularuchos. São uns vendidos. Etc Etc.

Os Bon Jovi são uma banda para quem todos os argumentos contra servem. Há quem diga que não têm qualidade musical, que se vestem de forma estúpida, que só querem é vender discos e por aí fora num chorrilho de disparates que visa apenas apagar as evidências. E as evidências são simples. Os Bon Jovi são neste momento uma das maiores bandas do mundo, junto dos U2 (e reparem que eu nem sequer sou fan dos U2 mas sou razoável e sei ver que apesar de não gostar muito, a grandeza deles não se discute). Obviamente quando digo bandas não incluo artistas pop "a la" Madona e etc.

Àqueles que dizem que não tem qualidade musical. Obviamente quem ouve a It's My Life, pensa que para além de ser um grande hit, não é nada de complexo musicalmente. É verdade. O mesmo com a Livin' On a Prayer. Quem ouve o trabalho dos Bon Jovi por inteiro terá forçosamente outra percepção. Usando melhor o ouvido é possível constatar vários pormenores. Primeiro, a contrução das músicas, essencialmente ao nível de trabalho de guitarras são algo de fenomenal. O guitarrista, Richie Sambora, é um excelente guitarrista que nunca ficou a dever nada a nomes como Slash (que é curiosamente considerado um deus da coisa). Sambora à vista da maior parte dos fans de Slash é apenas um parolo. Há até um vídeo no Youtube que é Sambora vs Slash, onde alguém reuniu alguns solos dos dois numa espécie de frente a frente e nenhum fica atrás do outro. São dois excelentes guitarristas, apesar de não ser fan do estilo do Slash.
Os instrumentais dos Bon Jovi são normalmente bem conseguidos e bem estruturados. Ver músicas como The Next 100 Years, Dry County, Wanted Dead or Alive ou Keep The Faith (entre outras obviamente). São músicas em que é possível sentir a progressão e sentir a intensidade conseguida através da estruturação da música.

Resumindo, quem diz que Bon Jovi não tem qualidade musical é porque só ouviu aquilo que dá na rádio.

Àqueles que dizem que os Bon Jovi são parolos. Aqui têm uma fotografia relativamente recente.






Digam-me então o que é que há aqui de parolo. Casacos, camisola e calça de ganga. Sapatos pretos. Hmmm, não é muito parolo pois não?

O problema é as pessoas estarem presas na imagem dos anos 80 em que, à vista de hoje, vestiam-se de uma forma super-parola. Mas a realidade é que nos anos 80 todas as bandas de rock faziam isso. Já viram fotos dos Guns'n'Roses nos anos 80, quando o Slash dava concertos em cuecas e chapéu? E os Van Halen? E os Def Leppard? E os Kiss? E os Scorpions? E qual é a diferença? Não vejo ninguém a dizer que essas bandas são parolas. Nem vejo isso a ser argumento para as desvalorizar, por isso quanto ao argumento de parolice, estamos conversados.

São uns vendidos. Pois, ao menos os Bon Jovi nunca disseram que iam acabar para depois voltarem anos mais tarde, como os U2 (intencionalmente ou não). Os Bon Jovi, apesar da era grunge, foram uma das poucas bandas americanas que sobreviveram a esse tempo (onde começou também a proliferar o RAP) em que muitas bandas como eles foram ficando esquecidas.
Os Bon Jovi só têm três verdadeiros hits. Livin' On a Prayer, It's My Life e Blaze of Glory, sendo esta última fruto de um trabalho a solo do Jon Bon Jovi. De resto têm várias músicas que fizeram sucesso como Wanted Dead Or Alive, You Give Love a Bad Name entre outras que são músicas que ficam no ouvido mas que não dão para rotular como Hit, pois não são músicas convencionais.
Os Bon Jovi têm muitas "baladas". Mas pelo menos as baladas deles têm intensidade. Não são a chochice de um tipo ao piano a cantar como se chorasse.
Os Bon Jovi pegaram nos grande sucessos deles e lançaram um disco absolutamente fabuloso em 2003 chamado This Left Feels Right, onde compuseram novas músicas numa base mais acústica para esses sucessos. Um trabalho, que como seria de esperar, colheu muita insatisfação, mas eles fizeram-no porque era o que queriam fazer. Teria sido mais fácil lançar um greatest hits, que era o que toda a gente esperava na altura. Teria vendido certamente mais.

Quando eles lançaram um disco ao vivo não se limitaram a gravar um concerto de gala. Pegaram antes em várias gravações ao longo do tempo e lançaram um documento sobre a evolução ao vivo da banda com gravações desde 1985 a 2001.
Quando lançaram uma colectânea não se limitaram a pôr os sucessos e remixes dos mesmos. Lançaram antes uma colecção de 50 músicas que nunca tinham sido lançadas antes.

Em praticamente todos os lançamentos deles há uma dose de risco associada, que torna as coisas interessantes, mas que pode correr mal. Por isso, vendidos também não concordo.

São uma banda fenomenal ao vivo. Entre 2008 e 2011 foram em dois anos a tournée mais lucrativa do ano. Isto, porque dão excelentes concertos. Com divertimento e com intensidade. Sem coreografias. Nota-se que estão a divertir-se ao fazê-lo.

Eu gosto dos Bon Jovi porque são uma banda que me põe para cima. O conteúdo da maior parte das letras é optimista e, de certa forma, agressivo. É uma banda com a capacidade de me fazer sentir mais motivado para enfrentar as palhaçadas do dia-a-dia. E porque são uma banda orgulhosos deles próprios. Nunca foram amados pela crítica e no entanto insistiram e persistiram e conseguiram tornar-se numa das maiores bandas do mundo. Não renegaram o passado, por muito parolo que ele pareça.

Para finalizar, uma frase que resume sempre o que eu sinto quando os oiço.

"Why you wanna tell me how to live my life?"

Have a nice day ;)

Perdas de tempo

Pessoalmente a minha vontade de ser sociável e conviver com quem quer que seja, para além da minha namorada e da minha família, é cada vez menor.

Sinto-me excluído do rumo que tudo tomou ao longo da minha vida. Auto-excluido talvez.

A verdade é que não me lamento por isso. No fim de todos estes anos acho que fiz muitas coisas que queria fazer e sinto que tenho um rumo com o qual devo perseverar. E se isso não me levar a lado nenhum, bem, foi o meu rumo e não o rumo que outros me impuseram ou sugeriram.

Só há uma coisa que ainda não consegui e gostava de o fazer. Gostava que ninguém soubesse onde eu estou. Gostava de ser uma memória bem esbatida para as pessoas que conviveram comigo. Sinto que o passado, ou melhor, o grupo de pessoas e experiências partilhadas no passado, não são mais do que um fardo que carrego inutilmente e que volta e meia aparece para me assombrar. Aparece no sentido em que me lembro disso esporadicamente.

A verdade é que pouco me importa o que essas pessoas fazem ou dizem. Pouco me importa o que é feito delas e se eu tivesse alguma coisa a dizer a essas pessoas, diria que não me chateassem e que se me vissem na rua, não me interpelassem. Isto é bastante arrogante, eu sei, mas a verdade é que eu não quero saber. Já me bastou a desilusão de os conhecer. Já me basta a mágoa de ter desperdiçado o meu tempo com pessoas de merda.

Lembro-me de andar na catequese. Nessa altura fazia o caminho a pé e são cerca de três ou quatro quilómetros. Pelo caminho de ida e volta era comum eu ser bastante gozado e às vezes até agredido pelos meus supostos amigos. Por isso a minha mãe ia sempre esperar por mim para voltar para casa comigo a pé.
Houve um dia, em que esses parvalhões vieram ter comigo e disseram que não iam gozar comigo e íamos fazer as pazes. Eu na minha burrice disse que sim e quando saí disse à minha mãe que ela podia ir para casa sozinha que eu ia depois com eles. Apenas para dias mais tarde voltar a ser gozado outra vez pelas mesmas pessoas.
Ainda hoje lamento ter dito à minha mãe para ir sozinha. A ela que fazia o sacrifício de ir ter comigo para me proteger. E eu desdenhei disso pela promessa vã de que ia ficar em paz com aqueles burros de merda.
Eu sei que obviamente eu era inocente e sei também que a minha mãe já nem se deve lembrar disso. Mas eu lembro-me e sempre que me lembro sinto-me triste. Certamente houve outras ocasiões em que não estive com a minha mãe para ir fazer outra coisa, mas esta está na minha memória porque eu vi os olhos da minha mãe quando lhe disse que ia depois. Os olhos de quem sabia que eu estava a caminhar para o buraco outra vez.

Por isso essas pessoas que, hoje em dia, não me dizem absolutamente nada, bem podem ir todas para o inferno. Fazem-me um grande favor em não me falarem. Aumentam a minha qualidade de vida em não ligarem nenhum.

Ainda oiço por vezes aquela lenga-lenga de "Ah mas as pessoas merecem outra oportunidade". Só que o problema é que eu já dei segundas oportunidades a muita gente. Porque é que haveria de voltar a dar agora?

Sempre que me imagino (apenas a título hipotético) num desses jantares de reunião vejo-me completamente de parte. Não porque seja melhor que eles. Mas sim porque sinto que não teria nada para dizer para além do trivial. Do género "Fiz isto e isto, estudei aqui e ali, trabalhei ali e acolá e agora estou a trabalhar em além" e pronto, fim de discurso.

Dentro destas pessoas que eu digo que me fazem um favor em não me dizer nada, há pessoas com quem eu gostaria de re-conectar de certa forma. Mas hoje, chego a algumas conclusões que me fazem sentir parvo por chegar a elas apenas agora. Eu, desde que me lembro, tenho o mesmo número de telemóvel. E praticamente toda a gente tem esse número (ou tinha). Pelo contrário eu nunca tive os números de ninguém para além de uma pessoa que era a única com quem me dava consideravelmente bem. E dessa única pessoa foi-me dado um número de alguém próximo a essa pessoa, o que obviamente resultou em Kommunikation Kaputt. Mas essa pessoa ficou com o meu número. E porque é que nunca mais disse nada? Porque é que tenho de ser eu a fazê-lo?
Obviamente fui convidado para um jantar de reunião e não fui. Será que devia ter ido? Para ver uma pessoa só? Uma pessoa que nunca mais me disse nada?

Sim eu sei. Eu se calhar sou tido como arrogante e como tendo a mania. Mas acontece que eu não tenho culpa de saber mais do que os outros e não tenho culpa de gostar de ensinar coisas às pessoas. Não o faço por mal. Se calhar se alguém estiver a falar sobre astronomia sou capaz de referir que a terra está a +/- 150,000,000 de km do sol entre outras coisas que sei. E não o faço por arrogância mas sim porque acho interessante. Mas se calhar dá a aparência de eu ter a mania. A verdade é que não me importa. Se alguém, por causa de coisas como essa, me classifica assim, que seja feliz.

E bem, no meio disto tudo sinto que há uma parede invisível que dificilmente ultrapassarei relativamente a estas e outras pessoas. Sinto que vou ser sempre visto como alguém arrogante.

Hoje em dia, dá a ideia que se não és visto morres. Se não apareces nas saídas regularmente e se não convives regularmente, desapareces. Já ninguém quer saber. Às vezes chegam a dizer que eu é que os estou a desconsiderar porque não apareci. Esquecem-se que uma pessoa trabalha. Que precisa de descansar e esquecem-se que nem toda a gente gosta de fazer as mesmas coisas. Mas enfim, nada disto interessa muito.

Porque é que eu gosto dos Arcade Fire

Arcade Fire é uma banda relativamente recente para mim. Só há coisa de uns meses é que comecei a ouvir regularmente, apesar de os ter visto no SBSR '11.

Uma das coisas que salta à vista, nos dois discos que eu já ouvi, Neon Bible e Suburbs, é uma pessoalidade bastante profunda. Sente-se que há algo que é muito de quem fez a música. Há vários sentimentos diferentes, porém, todos eles ligados e lógicos dentro do conceito das músicas.

Se em músicas como Ocean Of Noise e My Body Is A Cage é possível ouvir um amor melancólico, em músicas como Intervention ou Month Of May é possível ouvir um grito de revolta bastante forte e profundo.

O que eu gosto em Arcade Fire são as letras. Identifico-me bastante com algumas e penso, muitas vezes, se quem as escreveu estará a pensar o mesmo que eu.

É, nomeadamente no último disco, abordada uma temática muito querida aqui do nosso blogue, que é a letargia de pensamento.

"So young, so young,
so much pain for something so young
I know it's heavy I know it ain't light,
But how you gonna lift it with your arms folding tight?"

Gosto bastante deste verso, pois é precisamente aquilo que eu penso frequentemente das pessoas. Em Portugal, as pessoas queixam-se e esperneiam e no entanto quando chegam a casa limitam-se a ir ao Facebook ou a ligar a tv e tudo passa.

Ocorre-me por exemplo o Acordo Ortográfico, como um caso gritante em que toda a gente parece estar contra, mas bem, maior parte das pessoas parece estar completamente resignada, até fazendo um esforço por o cumprir. Quantos jornais apresentaram colunas de veemente desacordo com esse embuste? E quantos é que não seguem já o dito acordo?

De qualquer das maneiras, voltando aos Arcade Fire que se viram no meio de fogo cruzado contra o Acordo Ortográfico, coitados, eu identifico-me bastante com esta crítica.

Acho paradoxal é que a maior parte da juventude oiça e pense que aquilo é espectacular. Se calhar se eu começasse a insultar as pessoas que por aqui passam a ler, pelo fim do ano, seria o melhor blogue português. Mas bem, parafraseando o John Cleese "The problem with some people is that they are so stupid, that they don't know how stupid they are". É a única explicação plausível que encontro.

Os Arcade Fire não têm pudor em criticar aqueles que são o seu público alvo. Pois o público alvo encaixa-se perfeitamente nesta descrição:

"All the kids have always known,
That the emperor has no clothes,
But they bow down to him anyway,
It's better than being alone"

Pois é, é mais difícil enveredar pelo caminho em que se diz não à mediocridade. Em que se diz não àqueles pequenos vícios que toda a gente comete em busca de um bocado mais de emancipação. Lembro-me bem que da primeira vez que me ofereceram um cigarro e eu recusei, fui gozado até casa por ser um betinho e ter medo. Na verdade e olhando para trás, quem tinha medo eram eles, todos a fumar às escondidas e a "travar" expelindo Ohs e Ahs  a cada acrobacia feita como se tivessem a ver um espectáculo de circo. Corajoso fui eu que disse que não, sozinho, a meia dúzia de adolescentes irreflectidos.

É mais fácil fumar umas ganzas não é? Fazer o que toda a gente faz e ser rebelde e fora da lei. É mais fixe e as miúdas ficam mais impressionadas. E toda a gente se junta para ver o cometer de uma ilegalidade, enquanto olham sobre o ombro para certificar que ninguém vê o enrolar da mortalha. Apesar disso, nessa altura ninguém me pressionou. Mas bem, senti-me diferente dos outros e isso nunca se reflectiu positivamente. Pois então eu era o certinho. Nunca me incomodou o rótulo, até porque, na prática, isso é bom. Mas bem, hoje em dia eu sinto-me um espírito livre com o futuro à frente e essas pessoas, maior parte delas, tem filhos (aos 20 e poucos anos diga-se), alguns deles mais do que um filho, casaram, trabalham e vão ao café à noite todos os dias socializar e ouvir as parvoíces que se dizem no café e enfim. Pensam em comprar um carro novo, porque o que têm (ai, ui) já tem dez anos.

É mais fácil agachar do que estar sozinho. É mais fácil dizer que gostamos de Radiohead, quando na verdade temos de ouvir e ouvir e ouvir até a música estar decorada, o que não quer dizer degustada (eu sei que nem todos os fans de Radiohead são assim, mas muitos são). É mais fácil gostar dos Artic Monkeys que são uma valente merda. È mais fácil gostar de tudo o que o Jack White grava sem olhar a mais nada senão o nome. Numa vertente mais pimba é mais fácil gostar do Michel Teló e da Lady Gaga. Sei lá, está mesmo à mão de semear. Ai de nós se vamos ao ginásio e não sabemos aquela versão do Teló em Drum & Bass (gargalhada interior) para fazer o step. Ou aquela música da Lady Gaga para fazer o Spinning à velocidade certa.

Em suma, é por isso que eu gosto dos Arcade Fire, porque eles não têm medo em criticar, até mesmo aqueles que gostam deles. Eu faço o mesmo, mas quando eu faço isso, maior parte das pessoas fica ofendida. Quando são os Arcade Fire é fixe e fecham os olhos ao facto de estarem a levar uma bofetada no orgulho.

Outra crítica feita à juventude é quando dizem:

"They seem wild, but they are so tame,
They're moving towards you with the colors all the same"

É verdade, toda a gente faz e acontece. E depois no momento... Tenho um colega de trabalho que acerca de uma formação gritou aos quatro ventos que não ia. Era como se lhe arrancassem um dente. E não dava satisfações à direcção e que nem à mulher dava satisfações. Quando eu, com muito sacrifício da minha parte, compareci à formação, lá estava esse meu colega, tipo cordeirinho. É fantástico, não é?

De qualquer das maneiras, eu gosto de Arcade Fire, porque sinto sinceridade. Sinto que eles exprimem o que sentem e não têm medo de serem censurados por isso. Acho até que eles preferiam não ter assim tanto sucesso. Mas isso já é uma especulação minha.

"I'm living in an age,
That screams my name at night,
But when I get to the doorway,
There's no one in sight"

É engraçado como são uma banda que, em termos sonoros, teria pouco para me agradar. Mas a verdade é que a conjugação de sentimento, com as letras e a intencionalidade faz deles uma daquelas bandas que me dá arrepios em certas músicas.

Um Cemitério Chamado Internet

Hoje em dia, a Internet é uma ferramenta, por assim dizer, que fervilha de informação. Estão coisas a acontecer em todo mundo e os updates, de diferentes tamanhos e importâncias, são algo constante. Nem podemos imaginar quanto.

Contudo, há um lado que, na minha opinião, é bastante obscuro acerca da Internet. Esse lado é aquele em que há um desaparecimento que nós nunca poderemos explicar.

Mais concretamente, blogues, páginas de Facebook, Hi5, MySpace etc etc. Todo o tipo de sites onde há uma pessoalidade associada. Onde é um indivíduo que actualiza a página, com mais ou menos frequência, com coisas de maior ou menor interesse.

Vemos por exemplo o Facebook que as pessoas actualizam obsessivamente a toda a hora e a todos os minutos. Onde coisas tão importantes como o seu casamento e coisas tão irrelevantes como uma ida ao ginásio, são dignas de relato. Devo dizer, que esta necessidade é a meus olhos absurda. Estarmos constantemente a afirmar ao mundo que fizemos isto ou aquilo, que fomos jantar com não sei quem, que somos amigo de não sei quantos, que frequentamos taberna X e gostamos de sitio Y. Toda esta informação é, a meu ver, exagerada e desnecessária. Até porque, hoje em dia, provoca-me cada vez mais confusão quando as pessoas se referem a outras como bisbilhoteiras e coscuvilheiras, porque afinal se disponibilizam tanta informação assim, de que é que estavam à espera? Isso já nem é bisbilhotice, mas sim conhecimento ocasional, porque se eu vejo algo é natural que depois me lembre disso.

Mas bem, de volta à vaca fria.

Sinto-me sempre bastante estranho quando vejo esse tipo de sites pessoais sem qualquer actualização há uma montanha de tempo. Há paginas sem actualizações há um, dois, três, sete, oito anos... É muito sinistro, porque quando eu visito uma dessas páginas estou, inconscientemente, a criar um laço com a pessoa que a actualiza/actualizava, para bem ou para o mal. O facto de uma página não ser actualizada há muito tempo leva a uma pergunta, que se calhar pouca gente faz, mas que eu faço.

O que é que aconteceu a esta pessoa?

Há páginas que apesar de não serem mais actualizadas, têm um último post a dizer que não vão escrever mais, ou que vão passar a escrever noutro sítio, e nessas não há esse sentimento. Mas há sites que tinham actualizações diárias que não são actualizados há anos o que leva a uma sensação estranha de desaparecimento. Pode ter acontecido imensas coisas a essas pessoas. Certamente algumas morreram, outras simplesmente deixaram de ter tempo para isso, outras abriram os olhos a uma nova realidade etc etc. As razões são inúmeras, mas o facto é que é estranho.

Não posso deixar de recordar quando há uns anos um utilizador de um fórum que eu frequentava morreu num acidente de automóvel. Eu falei ocasionalmente com esse utilizador e até simpatizava com ele, apesar de para mim, aquilo não ser nada mais do que uma relação de circunstância. Quando ele morreu lembro-me bem de ter ficado bastante assombrado pela notícia, apesar de nunca o ter visto. Isto já foi há uns anos e a página de perfil dele continua disponível nesse fórum, apesar de já terem passado alguns anos. E isso é muito estranho. Pois nessa página aparece qual foram os últimos comentários, feitos dias antes de falecer. Isso é extremamente estranho

Porém, dirão, com razão, que nem toda a gente que deixou de actualizar as suas páginas morreu.

É verdade e isso talvez tirasse algo ao sentido do meu post.

Mas também é verdade que se eu deixasse de actualizar este blogue, para além das entrevistas, este blogue iria ficar com o cemitério do meu "eu" de hoje em dia e dos últimos quatro anos. Da mesma maneira que algumas páginas de Hi5 são o cemitério de muitas pessoas, que hoje em dia, apesar de serem os mesmos corpos, não são as mesmas pessoas. Mudaram, para melhor ou pior, mas mudaram e esses Hi5 e Myspace não são nada mais do que uma campa daquela pessoa. Fica ali sepultada a nossa identidade de tempos idos. Porque escreveram lá as suas alegrias e tristezas. Conheceram boas e más pessoas. Reagiram às músicas que ouviram, aos livros que leram e aos filmes que viram. Disseram parvoíces e escreveram piadas etc. Eu quando vejo comentários meus em fóruns de há cinco e seis anos, até reviro os olhos. Aquele João não é este João. Se eu pudesse apagava esses comentários, porque hoje em dia em nada reflecte o que eu sinto ou penso. Reflecte o que o João da altura pensava e esse João já não existe. Existe outro, da mesma forma que o João que começou este blogue em 2008 já não é o mesmo que vos escreve em 2012 e não será o mesmo em 2014. Deve-se notar que havendo continuidade do blogue, é possível verificar uma evolução, uma mudança da pessoa, e daí não é estranho porque, obviamente, isto, levado à letra, quer dizer que desde que eu escrevi letra nesta mesma frase eu já não sou a mesma pessoa.

Havendo uma quebra torna-se estranho. Ainda hoje passei por um blogue de um aspirante a músico que em 2010 postara umas coisas que tinha feito e o último post era a dizer que iria escrever num outro blogue, blogue esse que já nem existe, e ali está uma página em que ele tem as séries que estava a ver, os discos que estava a ouvir, os livros que estava a ler etc. Obviamente hoje, dois anos volvidos, esse aspirante a músico deve estar vivo, algures sem qualquer preocupação com o blogue e se calhar até é mesmo músico ou então tem um bom ou mau trabalho. Mas a sensação com que se fica é a mesma quando deixamos de ver alguém que costumávamos ver e quando nos apercebemos passaram-se anos sobre isso. .

A Internet é um cemitério pois é a campa de muitas pessoas que já não existem mais. Não só fisicamente mas também em termos de personalidade. E se imaginarmos a quantidade de pessoas que deixou páginas para trás com informações... Devem ser milhões de páginas. De crianças que já são adolescentes, de adolescentes que são adultos, de filhos que já são pais etc.

É um cemitério de uma época da vida das pessoas. De um tempo em que pensaram e fizeram certas coisas que já nem se lembram, mas que estão por aí espalhadas.

Não há nada de mal, mas, para mim, é certamente muito estranho.

Opinar ou não opinar.

Por várias vezes, leio que é importante ter uma opinião. É importante exprimir a opinião. É importante cultivar-nos e que não há uma opinião errada ou mal dada. Da mesma forma, que apenas existem textos bons e menos bons.

Não sei se concordo. Aliás, sei que não concordo, pois não sinto que tudo o que vem à rede seja peixe. Acho que é, a meu ver, comum o mau texto e pergunto-me se essas coisas, mal escritas e mal estruturadas, que nada trazem de novo ao mundo, merecem a sua existência.

Não me sinto mal em dizer que publicar livros do José Luís Peixoto é um desperdício da vida de uma árvore. Porque, na minha opinião, são documentos desprovidos de capacidade e de qualidade. Desprovidos, portanto, de mérito, que, supostamente, seria algo de muito importante aquando da consideração de um livro para publicação.

De qualquer das maneiras, o que me prende mais o pensamento neste momento, é a ideia de que devemos escrever e expor e partilhar as nossas ideias. Se bem que tenha este blogue razoavelmente activo, nem sempre sinto vontade de exprimir opiniões. Na verdade, cada vez menos. Sinto que hoje em dia as pessoas perderam uma coisa muito importante. A objectividade. Sinto que, cada vez mais, as pessoas avaliam as coisas subjectivamente, do seu ponto de vista e egoísta e do impacto que terá na sua bolha, a que chamam mundo.

Gostaria de dar um exemplo, mas a verdade é que nada me ocorre que não particularize alguém e não me apetece entrar na palhaçada de exemplificar este ou aquele.

Contudo, o que eu quero dizer é que há muito poucas coisas que sejam verdades absolutas. Talvez não haja nenhuma. Cada vez mais, convenço-me de que o mundo é absurdo e a existência humana é desprovida de sentido. Estou a ficar um bocado absurdista, talvez.

A verdade é que o facto de não existirem verdades absolutas, leva a que, eu ou outro qualquer, tenhamos percepções diferentes das coisas. O que, em si, não representa problema nenhum.

O problema vem, quando se falha na interpretação de alguma coisa. Quando alguém fala para mim, eu tenho de tentar perceber o que é que essa pessoa está a tentar dizer. Porém, hoje em dia, sinto que esse princípio de querer entender mudou. Sinto que, a maior parte das pessoas, interpreta consoante calha e consoante lhe dá jeito, desenquadrando a mensagem original, por vezes, mesmo distorcendo, e partem, então, para uma interpretação subjectiva a partir da qual se satisfazem ou "edificam" a sua resposta.

Obviamente, isto não se aplica a comunicações do género "Passa-me aí o pão, faz favor". Só de pensar nisso imagino alguém a pensar "Ahah, pediste-me o pão, mas eu vou passar-te é um talhe!", enquanto exibe uma expressão traquina com os dentes superiores à coelho.

Isto aplica-se à emissão de opinião. As pessoas parecem ser cada vez mais do género: "Bem-vindo, obrigado pela visita, e eventual comentário". Depois fazemos um comentário, com apreciação negativa e a reacção é de mandar calar e bloquear acesso etc.

Talvez o ideal fosse as pessoas contra argumentarem com os seus argumentos, usando as suas próprias palavras, ao invés de recorrerem ao que o outro disse para, através de distorções e interpretações subjectivas, encontrar brechas que possam tentar fragilizar.

O que ainda me aborrece mais, é que as pessoas fazem isso, mas até isso fazem mal, na maior parte das vezes. A capacidade de expressão da grande parte das pessoas parece estar, cada vez mais, desabilitada. A falta de habilidade para construir um argumento é gritante.

As pessoas deviam sentir prazer no momento em que escrevem ou falam com alguém, principalmente em caso de discordâncias, pois é nessas alturas que o nosso cérebro devia estar mais estimulado, para responder e preparar um argumento sólido colocando dificuldades ao nosso "adversário" para contrapor.

Sinto que se foge às discussões. Às boas discussões em que duas pessoas esgrimem argumentos, defendendo aquilo em que acreditam. É mais fácil virar a cara e espalhar por aí que somos estúpidos porque demos uma determinada opinião.

Enfim, nunca me preocupou o número de leitores que tenho, até porque a estatística do blogue para mim é uma mera curiosidade. Mas por vezes penso se valerá mesmo a pena continuar a escrever (aqui) ou a falar (em todos os outros lugares), porque sinto sempre que estou a correr contra um muro de parvoíce e inconsciência com o qual nada se aprende.


P.S - Eu sei que falo da falta de discussões e que a caixa de comentários deste blogue está desactivada. Contudo, quando fechei os comentários deste blogue, devia ter uns cinco comentários em cerca de cem posts. Quatro dos quais para dizer estupidez sem lógica e sem argumentação. Portanto se alguém tiver algo a dizer é só usar o mail disponibilizado neste blogue. Obrigado.

TasteOfOrange10

Olá.

A partir de hoje o nosso blog tem um twitter. Se quiserem podem seguir, contudo, apenas criámos o twitter porque às vezes lembramo-nos de uma frase ou de uma citação, que até nos apetece partilhar, mas não o suficiente para escrever um post, e para esse efeito o twitter é muito útil.

Cumprimentos a todos e obrigado.

Os dias que nada significam

Em duas semanas tivemos dois feriados importantes. O 25 de Abril e o 1 de Maio.

O dia 25 de Abril tem, ou deveria ter, um significado muito especial para todos os portugueses. Foi o dia em que o povo foi libertado de uma ditadura que, apesar de boas finanças, não procurou avanço nem condições melhores para o seu povo.
O Movimento das Forças Armadas deve receber todo o mérito por esta acção. Presto-lhes aqui a minha homenagem e admiração por isso, a todos os Capitães de Abril e a todos os que não sendo Capitães contribuíram para o acontecimento.
Contudo estes protagonistas por uma razão ou outra rapidamente esqueceram o porquê de terem feito a revolução, pela qual todos os portugueses devem estar gratos.
Ao recusarem-se comparecer nas cerimónias do 25 de Abril obliteraram a liberdade porque tanto lutaram.
Esta recusa, em protesto pelas políticas do governo, é um erro lamentável pela parte dos Capitães de Abril e pela parte de algumas personalidades, nomeadamente Mário Soares e Manuel Alegre, que por não gostarem das políticas do governo decidiram não comparecer.
Não está em causa a razão ou não destas não comparências. Está em causa o facto de este grupo de pessoas acharem-se donas da verdade democrática.
O que está em causa é precisamente os direitos pelos quais os Capitães de Abril arriscaram as suas vidas. A liberdade. A liberdade de um povo que elegeu um governo e que agora para o bem ou para o mal está a lidar com as consequências. Mas há algo que é preciso não esquecer. Este governo, parecendo que não, foi endossado pelo povo. O povo que mais ordena, supostamente.

Contudo os Capitães de Abril, Mário Soares e Manuel Alegre recusaram-se a comparecer manchando a celebração do dia, que é o mais importante, e não passando de um fait-diver político do qual já ninguém se lembra. Esquecendo-se que lutaram pela liberdade do povo de eleger os seus representantes e lidar com as suas acções.

Hoje foi o dia 1 de Maio. Um dia de grande importância para o trabalhador, dado que, é a sua celebração.

Contudo hipócritas como Jerónimo de Sousa, João Proença e Arménio Carlos criticam hoje a cadeia de supermercados Pingo Donce pela sua decisão de lançar hoje uma promoção estrondosa onde quem levasse mais de 100€ em compras pagaria apenas metade.

Criticaram dizendo que o Pingo Doce se aproveitava do dia 1 de Maio para subverter o seu sentido e porque o Pingo Doce obriga os seus colaboradores a trabalhar. Pois bem.

Estes senhores comeram onde? Num banquete de Primeiro de Maio? E quem fez a comida? E quem serviu à mesa? E quem tratou de limpar as mesas? E quem tratou dos palcos? E quem tratou do som? E quem é que está arrumar os palcos agora? E quem é conduziu toda a gente a Lisboa para a manifestação? E quem é que recebeu muita gente nos hotéis? E quem é que limpou os quartos para que os trabalhadores em feriado pudessem descansar?

Será que foram Oompa-Loompas?

E quem é que foi fazer compras nesta promoção? Não terão sido muitos desempregados que têm de poupar todos os cêntimos? Ou também foram Oompa-Loompas?

E por falar em Dia da Liberdade, não tem o Pingo Doce liberdade para abrir quando quiser e fazer a promoção que quiser e como bem lhe apetecer?

É por estas e por outras que estes dias que muito significado deviam ter, pouco significado têm.

Estado de choque

Hoje só quero dizer que a estupidez e a cobardia das pessoas é fascinante.

É de lamentar que hoje em dia a palavra e honra de um individuo não valha nada. Para mim vale, mas devo ser dos últimos a sentir isto.

Enfim, era só isto que queria dizer.